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José Luiz Barbeito: morre aos 56 anos o dublador do Kuwabara, de Yu Yu Hakusho

Faleceu nessa terça (6) o ator José Luiz Barbeito, conhecido pelos fãs de anime como a voz do personagem Kuwabara na série Yu Yu Hakusho. De acordo com nota publicada no G1, o dublador sofreu um ataque cardíaco em uma clínica de Teresópolis (RJ) e vinha tratando de problemas com o alcoolismo.

O ator estava internado há cerca de 6 meses e recebeu ajuda de amigos da adolescência para custear seu tratamento.

Cristiano Torreão, dublador do personagem Hiei, relembrou o colega em uma curta postagem no Facebook: “Esse cara era um grande cara! Uma grande perda! Saudade amigo Zé! RIP”

José Luiz estava há alguns anos afastado da dublagem. Além de ter vivido Kazuma Kuwabara nas duas versões dubladas de Yu Yu Hakusho, sua voz ficou famosa na pele do personagem Dexter, da série O Laboratório de Dexter. Ainda em animações japonesas, o dublador interpretou PicoDevimon, de Digimon e o Jin, em Samurai Champloo.

Ao Dublapédia, o amigo João Araújo, que acompanhou de perto o tratamento de Zé Luiz, enviou uma comovente carta detalhando o momento difícil enfrentado pelo dublador e o reencontro do amor com seus amigos nos últimos meses de vida. Segue abaixo, na íntegra:

‘Essa história não é de prazer, mas de dor. Por que contá-la aqui, então? Porque apesar do sofrimento que ela expõe, ela também fala de solidariedade e de amizade. Enfim, fala de amor.

A voz do Dexter morreu. Não o Dexter “serial killer” do seriado, mas o Dexter do laboratório do desenho animado que encantou a infância de tantas pessoas.

Nesta segunda, José Luiz Barbeito, dublador do Dexter faleceu. Estava afastado da dublagem havia muitos anos. A depressão e o alcoolismo o fizeram perder quase tudo, menos a amizade e o amor de seus amigos de adolescência.

Não fui seu amigo na adolescência, como os demais. Só encontrei o Zé uma única vez, há uns 30 anos, na casa de um amigo. Minha lembrança dele é prosaica, irrelevante. Nem sei porque lembro disso, mas não sabemos como funcionam os mecanismos da memória. Lembro do Zé falando que era muito mais barato comprar cloro e misturar com água do que comprar água sanitária. Como disse, era uma memória irrelevante. Falei com ele sobre essa lembrança no dia 21 de janeiro, quando estivemos com ele para uma visita mensal, na casa de recuperação onde ele estava. Ele recordou que era sua mãe quem fazia isso, por isso ele falava a todos sobre essa economia doméstica.

A mãe sempre foi uma figura importante na vida do Zé. Depois da morte dela, Zé entrou em uma depressão profunda e caiu no vício do álcool. Perdeu dois apartamentos. Se afastou da dublagem, não queria mais ver ninguém. Foi morar em um barraco em Sepetiba. Passava dias bebendo e vendo televisão.

Mais ou menos no mês de julho de 2017, seus amigos de adolescência começaram a montar um grupo no Facebook. Alguns poucos se reencontravam virtualmente. Começaram a postar fotos antigas, perguntando por cada um deles. O que faziam, onde viviam? Numa das fotos estava o Zé. Onde estava ele? Perguntaram. Ninguém sabia. As últimas notícias davam conta de que ele estava mal, mas todos tinham perdido o contato.

Uma das amigas era atriz. Conhecia gente da dublagem. Ligou para uma amiga dubladora e perguntou pelo Zé. Coincidência, Zé tinha ligado aquele dia para essa dubladora pedindo ajuda. Ela deu seu telefone.

Os amigos ligaram. Quase sempre Zé estava com a voz enrolada, consequência do álcool, mas seu dinheiro estava acabando e ele já tinha perdido tudo. Morava em um barraco em Sepetiba. Segundo ele, tinha acabado de cair num golpe. Uma mulher teria prometido que iria resolver sua aposentadoria e teria sumido com o pouco dinheiro que ele ainda possuía. Zé pedia só “um cantinho” para ficar.

Os amigos se reuniram e com a recomendação de uma das amigas que já tinha trabalhado com pessoas com problemas de drogas, decidiram que só iam ajudá-lo se ele concordasse em se tratar. Ele relutou no início. Acabou aceitando ver um especialista.

Assim, um dia, duas amigas foram buscá-lo em Sepetiba, para ver se ele podia ser tratado em um hospital público. Foi um choque para as duas. Zé parecia um mendigo. Ele ficava tanto tempo deitado que seu corpo tinha criado escaras. Seus pés estavam pretos de sujeira. Ao chamarem o Uber para levá-lo até o especialista, ele ficou espantado com a voz do celular que dava as direções ao motorista. Estava tanto tempo fora da sociedade que nunca tinha ouvido falar de GPS, Uber, Waze. Zé morava nesse barraco há pelo menos 5 anos, mas seu isolamento vinha de muito antes.

Ali perceberam que só uma internação poderia ajudá-lo a sair do vício do álcool. Mas ele ainda não estava convencido que teria que ir para um lugar fechado para se tratar.

Quando estava às vésperas de ser despejado do barraco de Sepetiba, ele aceitou ser internado. Conseguiram uma casa de recuperação de viciados em Teresópolis, mas era particular, com custos. Esse grupo de 20 amigos se cotizou para pagar sua internação. Cada um contribuía com o que podia, quando podia.

Quando chegou à casa, Zé precisava de uma bengala para andar. Sofria de gota, bursite e fraqueza geral. Tinha poucas posses. A roupa, os amigos tiveram que comprar para ele poder suportar o frio de Teresópolis. Mas aos poucos foi melhorando.

Cada mês tinha um domingo de visitas, e os amigos se revezavam para visitá-lo. No dia 26 de dezembro, fez-se um grande mutirão e praticamente todos puderam ir. Levaram ele para almoçar fora da casa.

No último dia 21 de janeiro, fui com mais duas amigas visitá-lo. Foi meu segundo encontro com o Zé. Em determinado momento, ele leu um texto poético e uma carta que tinha escrito para o pai, já falecido, se redimindo de seus erros. Sua voz estava maravilhosa. Me arrependi de não ter gravado. Seis meses sem álcool tinham devolvido sua bela voz. Mas ele não queria voltar à dublagem. Pensava em continuar na casa, trabalhando de alguma forma. Na realidade, ele tinha medo de sair e sucumbir de novo ao álcool. Todos torcíamos por ele.

Apesar de todos os percalços da vida, Zé mantinha o bom humor. Fazia piadas, ria e divertia a todos. Zé me deu uma camisa que tinha ganho mas que não cabia nele. Uma camisa bonita que coube perfeitamente em mim. Lembrei de uma frase: ninguém é tao rico que não tenha nada para receber, nem tão pobre que não tenha nada para dar. Vesti orgulhoso a camisa que o Zé tinha me dado no dia de meu aniversário, alguns dias depois.

Nesta terça-feira, dia 6 de fevereiro de 2018, recebemos um telefonema às 7 da manhã. Zé tinha falecido enquanto dormia. Às 22:30 da segunda-feira ele ainda tinha feito uma piada com os companheiros de quarto e não se levantou para fumar às 2 da manhã, como fazia de costume.

Alguns até se perguntaram: Mas valeu a pena? Afinal, ele morreu. Eu acredito que sim. Sempre vale a pena se nos sentimos amados. Sem amor, a vida não tem sentido e a amizade é uma das formas mais puras e desinteressadas de amor.

Com a vida que tinha levado, talvez ele não tivesse mesmo muitos anos de vida. Zé perdeu quase tudo, menos o amor e a amizade de seus amigos de adolescência. Não tinha mais família, porém tinha amigos e esses amigos o acompanharam e apoiaram nos seus últimos meses de vida.’

Rafael Jiback

Ilustrador, músico e publicitário. Sob a alcunha de Jiback, é editor do JBox, mas começou como reles "estagiário" ainda na época do JapanX/ÓrbitaX. Não tem vergonha de admitir que Bucky é o melhor anime já exibido no Brasil. Ninguém precisa concordar com este absurdo.

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