Detonator Orgun
Produção: AIC, Artimic Studios, DARTS, 1991
Episódios: 3 p/ vídeo
Exibição no Brasil: TV Manchete
Distribuição: Premiere
Disponível em: VHS
Última Atualização: 17/07/2007
Por Larc Yasha
Em 1963, o primeiro robô gigante da indústria da animação japonesa foi lançado. Era o “Testujin 28 Go!” (ou O Homem de Aço, como ficou conhecido no Brasil). Apesar do pioneirismo, o robozão que mais parecia um barril não gerou muitos clones na época. Em 1972, Go Nagai lançava Mazinger Z. O robô era muito feio e com ares de vilão, e por isso mesmo conseguiu chamar atenção. Diferente do “megazord barrilzal do Chaves” que parecia o Homem de Aço, Mazinger não era comandado por um controle remoto, mas sim por um piloto. Aliás, Go Nagai é um dos grandes ases da animação japonesa, e sua contribuição criou uma indústria de enlatados gigantescos que só ganharia uma plástica visual e criativa em 1979, com o lançamento da primeira série Gundam.Uma nova era de clonagem se iniciava até o final dos anos 80.
Com a aurora da última década do século XX, a indústria (e o público) exigia que a fórmula fosse mais uma vez “repaginada”. Se o visual dos Gundams se consolidou de vez, a criatividade dos autores precisava começar a entrar em cena.
Um pouco mais que mais um clone
Em 1991 os estúdios da AIC se uniriam mais uma vez com a Artimic Studios (juntos, já haviam concebido a famosa série “cyberpunk” Bubblegum Crisis), para a produção de um anime descaradamente inspirado nos Gundams: Detonator Orgun. Com tudo para passar despercebido e com o rótulo de mais um dos muitos clones de Gundam produzidos no período, Orgun conseguiu inovar a mesmice do “rapaz que toma controle de um mecha e salva o mundo” ao lançar uma idéia até então inédita: uma simbiose entre piloto e mecha. Pra quem não sabe o que é simbiose, eu explico: são dois seres interagindo suas funções vitais e orgânicas simultaneamente.
Não, você não entendeu errado… Orgun é um robô vivo! Claro que existe uma justificativa que o fez se tornar mais que uma lata de aço, mas só vendo o anime pra descobrir ;). Para direção dos três episódios lançados direto no mercado de vídeo, foi chamado o diretor Massami Obari (o mesmo da trilogia animada de Fatal Fury). O estilo do diretor pode ser conferido nas cenas de ação que possuem tomadas de tirar o fôlego. O roteiro escrito por Hideki Kakinuma possui uns furos (como tudo que o moço escreve. Foi dele aquela coisa sem nexo do “Gall Force: New Era” ), mas a coisa não prejudica quem se preocupa mais com as lutas e explosões titânicas do anime.
O bonito design da série foi cortesia de Kya Asamiya, e a existência de um joguinho pra Sega CD (aquela tentativa frustrada da Sega de fazer o Mega Drive virar um Playstation XD) indica que as vendas dos OVAs devem ter sido bacaninhas.
Porradaria cósmica
Detonator Orgun já começa de forma explosiva. No espaço, uma nave testemunha a luta de dois mechas que espalham destruição ao seu redor. Enquanto isso, na Terra, o jovem Tomoru Shindo começa a ter estranhos sonhos onde uma voz estranha o chama. O rapaz enxerga na superfície da Lua um ser que se apresenta a ele como Orgun e pede sua ajuda. Ajuda para conter a invasão eminente de uma raça de seres que se autodenominam “Os Evoluídos”. Os estranhos seres possuem uma nave gigantesca que faz a Estrela da Morte do Darth Vader parecer um teco-teco.
Tomoru é um rapaz que tem certo fascínio pela história antiga. Prestes a se formar, ele prefere cabular aula e passar horas no museu. Sempre com sua jaquetinha da Luftwaffe (a força área do Hitler!), o rapaz acaba se envolvendo com a cientista Drª Kanzaki, que trabalha no exército de defesa da Terra contra invasões alienígenas. Quando Orgun finalmente chega à Terra, Tomoru acaba sendo “incorporado” pelo mecha e cai no pau com outro guerreiro evoluído. Com ajuda da Drª e de seu supercomputador I-Zack, Tomoru descobre que possui uma estranha conexão com Orgun. Mas como isso é possível?!
Os Evoluídos querem liquidar com o traidor Orgun que acaba, através de Tomoru, contando os planos inimigos. Na 2ª fita, ficamos sabendo a origem sinistra da raça invasora: outrora humanos, os Evoluídos acabaram tendo que viver dentro de trajes espaciais, para conseguirem sobreviver em condições inóspitas do espaço. Seus corpos se degeneraram, mas acabaram tendo seus espíritos fundidos às armaduras. Pra complicar mais um pouco, eles vieram do futuro @_@! Não pensem que eu contei o segredo da série… Ele nem existe! As idéias não foram muito desenvolvidas pelo roteirista e optaram por mostrar porradaria cibernética espacial entre Orgun e seus ex-amigos, ao invés de ficarem enrolando com muito blá-blá-blá. Tem até uma militar ruiva que só pensa em espancar os inimigos! E dá-lhe violência! \o/
No desenrolar da trama, a líder dos Evoluídos (que atende pela alcunha de Lady Mihiko) até tenta impedir que a invasão continue, mas um revoltado chamado Zoa incita seus companheiros para a guerra. Adivinha com quem Orgun tem o “pega-pra-capar” final?!
Com cenários bacanas, e uma música futurista que parece tema de videogame (composta por Susumu Hirasawa, o mesmo que fez a trilha da versão animada de Berserk), Detonator Orgun até empolga quando se pega as três partes para se assistir de uma só vez. A história traz até uma reflexão no final: a importância de se preservar o passado para evitar os erros no futuro. Mais xupim de Gundam, impossível :P.
Orgun e a U.S. Mangá Corps do Brasil
Marcando uma nova era para os animes na tevê brasileira, Detonator Orgun estreou no dia 8 de Novembro de 1996, dentro da sessão U.S. Mangá Corps do Brasil, transmitida pela extinta Rede Manchete. Mas o que foi essa tal U.S. Mangá?
Muito mais que vender toneladas de quinquilharias e abrir as portas da tevê brasileira para a animação japonesa, o anime Os Cavaleiros do Zodíaco ensinou uma coisa muito importante aos programadores das emissoras de televisão na época: mostrou que os adultos também vêem desenho animado. No auge do sucesso de Seiya e cia enlatada, era possível observar que os marmanjos também paravam na frente da telinha para acompanhar as aventuras dos heróis, tanto quanto a garotadinha que comprava os bonequinhos e as balas Zung.
Interessada nesse novo filão (animes geravam horrores de $$ em quinquilharias) a Manchete resolveu destinar uma faixa da sua programação para a exibição de animações voltadas para um público mais maduro. Diante desta situação, a finada distribuidora Premiere Filmes (que lançou os especiais dos Cavaleiros em VHS junto com a Flashstar nos anos 90) correu como doida aos EUA, e chegando lá comprou um pacote de animes da distribuidora US Mangá Corps. Nem precisa dizer que os executivos da Premiere não entendiam patavina do que era anime. Como dá pra perceber isso? Ao invés de trazerem os “top” da U.S. Mangá como Record of Loddoss War (que por sinal, foi lançado em DVD no Brasil O_O), optou-se por comprar o que era mais barato pra poderem adquirir mais títulos. Se não bastasse, várias séries vieram incompletas, como Gall Force (que além das duas séries exibidas pela Manchete ainda tinha uma anterior que não veio no pacote) e Iczer.
Animes debaixo do braço, a Premiere chegou e vendeu tudo pra Manchete, que estava doida pra colocar alguma novidade no ar já que não havia mais episódios inéditos das séries exibidas na época (Cavaleiros, Shurato e Samurai Warriors). A idéia inicial era exibir esses títulos na televisão e posteriormente lançá-los em vídeo pra venda direta ao consumidor (parece que eles estavam começando a aprender como se ganha din din…). Foi então que nasceu o U.S. Mangá Corps do Brasil. Difícil não lembrar aquela coisa que chamam de música (eu prefiro chamar de cólica de rins) que era entoada antes de cada apresentação. O mais engraçado de tudo, é que essa “coisa” ainda rendeu um cdzim que (aposto) não deve ter vendido meia dúzia.
Exibido sempre as sextas-feiras, o programa foi cancelado prematuramente no ano seguinte, com uma série de animes por exibir (como 3×3 Eyes, Gunsmith Cats e o restante de Battle Skyper). O desinteresse do público se deu principalmente pela falta de qualidade no que era apresentado. A feliz e ousada iniciativa de exibir animes essencialmente de ficção científica apenas confirmou uma máxima: quantidade não significa qualidade.
Detonando no Brasil
O público recepcionou muito bem Detonator Orgun. Nas 3 semanas em que permaneceu no ar, a audiência se manteve segura na margem do que a Manchete esperava. Dos animes que vieram, Orgun foi um dos que sofreram menos cortes. Ganhou uma reprisezinha, e depois foi pro limbo. Ou melhor: pra prateleira de algumas locadoras! A América Vídeo (do Grupo Paris Filmes) assinou um contrato pra lançar os animes da U.S. Mangá em VHS sem cortes (olha que coisa fantástica!) que eram necessários para que eles fossem exibidos na tevê.
Orgun saiu em três fitinhas com capas muito bacanas e tinha uns “alertas” pro conteúdo violento da fita. Ou seja: papai e mamãe que deixavam o filhote alugar não podiam reclamar depois!
Só que a estratégia não deu certo, e não houve o retorno esperado com a venda das fitinhas. A razão? Simples: não era venda direta para o consumidor! Só dono de locadora podia comprar! E não pagava baratinho não! Em resumo: uma ótima idéia (passar mutilado na tevê, depois lançar o mesmo sem cortes em vídeo!) que foi mal executada.
Falando em coisas mal feitas, a dublagem da Gota Mágica começava a irritar com a escalação dos mesmos dubladores de sempre. Tomoru foi dublado pelo Marcelo Campos (que fez TUDO quanto é anime na época) e a Drª Kanzaki foi feita pela Raquel Marinho (a Lady Kayra dos Samurai Warriors e a Chi Chi em Dragon Ball Z). Gilberto Baroli ficou com o revoltado Zoa e Lady Mihiko teve a voz da Princesa Esmeralda de Rayearth (Denise Reis; na época Popitz).
Mas se tem uma coisa que detonou com Orgun (que trocadilho ruim :P) na sua exibição na Manchete, foi a edição. Depois da apocalíptica canção de abertura da U.S. Mangá, algum engraçadinho na Manchete enfiou o tema na versão instrumental na abertura do anime, substituindo a trilha original durante alguns minutos. O final também ganhou a mesma montagem safada. Pelo menos não usaram as outras músicas feitas pro Cdzin. Se vocês ouvirem o tema que fizeram pro Zeorymer em cima de uma BGM do Genocyber…
Detonator Orgun pode não ter sido um do melhores animes que já foram exibidos na tevê brasileira, mas conseguiu marcar no Brasil da mesma forma que marcou no Japão: inovando conceitos. Depois dele, “robôs orgânicos” viraram clichês e o público brasileiro descobriu que existia muito mais que guerreiros de armadura ou garotas com poderes mágicos no mundo dos desenhos japoneses.
![[image]](http://www.jbox.com.br/imagens/imagem365.jpg)
![[image]](http://www.jbox.com.br/imagens/imagem363.jpg)
![[image]](http://www.jbox.com.br/imagens/imagem364.jpg)
![[image]](http://www.jbox.com.br/imagens/imagem366.jpg)
![[image]](http://www.jbox.com.br/imagens/imagem368.jpg)
![[image]](http://www.jbox.com.br/imagens/imagem371.jpg)
![[image]](http://www.jbox.com.br/imagens/imagem369.jpg)
![[image]](http://www.jbox.com.br/imagens/imagem370.jpg)
![[image]](http://www.jbox.com.br/imagens/imagem373.jpg)
![[image]](http://www.jbox.com.br/imagens/imagem372.jpg)
![[image]](http://www.jbox.com.br/imagens/imagem367.jpg)
![[image]](http://www.jbox.com.br/imagens/imagem374.jpg)
