Resenha: Spicy Pink Volume 1 – Editora Panini

O 3º mangá de Wataru Yoshizumi nas bancas brasileiras.

Não sei quanto a vocês, mas eu adoro o clima de novela das seis dos mangás da Wataru Yoshizumi. Não são tramas dramáticas (tirando Marmalade Boy) que pretendem mudar a vida de ninguém. São leves, divertidas e com um bocado de romance cujo único compromisso é de ser um bom passatempo, causar umas acelerações no coração e dar umas boas gargalhadas.

Felizmente Spicy Pink cumpre muito bem esse objetivo. Ninguém deve comprar esse mangá achando que ele revolucionou todo o gênero josei, pois é um romance levinho e divertido e que tem como pano de fundo a vida das mangakás. Uma das decepções que tive ao ler esse mangá é porque esperava mais informações sobre a parte técnica da vida das artistas, mas a obra se foca mesmo é no cotidiano e no romance.

Sakura Endou é uma shoujo mangaká que vive de publicar one-shots (histórias curtas) para a revista fictícia “Drop”, que talvez seja uma referência à revista Ribon onde a Wataru costumava publicar one-shots, mas não dá para ter tanta certeza.

Achei muito estranho o padrão de vida da protagonista, uma pessoa de 26 anos, que ainda não emplacou uma série e vive de publicar one-shots deveria estar desesperada e não despreocupada, como é o caso no mangá. Lembro-me de ter lido em algum lugar que a vida útil de uma shoujo mangaká vai até os 27 anos, se elas não conseguirem um sucesso antes disso as editoras as largam pois, nessa idade, elas ainda têm chance de conseguir um casamento. É bem machista, mas a sociedade japonesa está bem longe tratar as mulheres com a mesma igualdade que os homens.

Mas voltando ao enredo, a vidinha de Sakura segue mansamente até o dia em que sua amiga, a bem sucedida mangaká Misono Kamijou a força a ir a um Goukon. Para quem não conhece, Goukon é uma abreviação de “Goudon Company”, uma espécie de encontro às escuras em que um grupo de homens solteiros e um grupo de mulheres na mesma situação se encontram em um restaurante, karaokê etc para se conhecerem melhor com o objetivo de arrumar um(a) namorado(a).

Entretanto Sakura não quer ir, ela está contente com sua vida de solteira sem grandes emoções, mas Misono dá um jeito e a convence de que se ela não tivesse relacionamentos não seria capaz de escrever sobre eles em suas histórias. Como Sakura quer progredir em sua carreira resolve aceitar o convite e como o Goukon seria com um grupo de médicos, eles poderiam servir como de fonte de inspiração para uma nova história, talvez até mesmo fornecer material de referência.

O goukon segue sem grandes novidades, Misono fisga mais um para sua lista de namorados e no final Sakura resolve ir ao banheiro, nisso todo mundo já estava saindo e alguém a espera: é Iku Koreeda, herdeiro de uma clínica de cirurgia plástica. Sakura agradece a gentileza e os dois descem juntos de elevador e lá ele segura gentilmente o rosto de Sakura e… e quando ela achava que teria um beijo roubado ele começa a falar sobre todos os diferentes processos cirúrgicos que ele a submeteria para torná-la bonita. É claro que Sakura fica ofendida com o sujeitinho arrogante e ele ainda tem a cara de pau de oferecer um desconto caso ela queira fazer a cirurgia na clínica dele.

Sakura não quer vê-lo nunca mais na vida, ela tem motivos de sobra, não? Mas um acaso do destino faz com que eles se encontrem. Ele tem uma filial de sua clínica perto da casa da jovem e ele a vê sentada em um restaurante. Ela está relaxada vestindo o moletom que usa para trabalhar e fica morrendo de vergonha já que aquele sujeitinho pedante a está vendo tão desleixada. Para a surpresa de Sakura ele a pede em namoro o que ela prontamente responde não.

Outro acaso do destino – um dos pontos chatos da obra é que há desses acasos o tempo inteiro – faz que eles se encontrem novamente em um trem quando Sakura está voltando de uma viagem para Kyoto aonde ela foi colher material de pesquisa. Na volta ela foi até Osaka encontrar um grande amigo da época de colégio, mas ele agiu como um verdadeiro canalha, fazendo com que ela pagasse a conta e menosprezando seu trabalho, dizendo que era fácil demais, que ela era sortuda pois não tinha estresse nem colegas de trabalho incompetentes etc. Durante a viagem de volta Iku a consola, dizendo que ter um trabalho que ela ame não é errado e ela não deve se sentir culpada por isso.

Ele a pede em namoro pela segunda, e apesar de ambos se dizerem não estarem apaixonados, começam a namorar assim do nada.

É claro que a trama evolui e não fica só nisso, já que eles aprendem a gostar um do outro, mas não percebem quando se apaixonaram até ter o seu relacionamento posto à prova. Uma das coisas mais admiráveis no trabalho de Yoshizumi é que ela desenvolve muito bem as personagens coadjuvantes. A mercenária da Misono Kamijou é muito carismática e divertida e rouba a cena em todos os quadros em que aparece, ela é hilária! Confesso que fiquei desapontado nos comentários finais quando ela disse que não se inspirou em nenhuma mangaká conhecida para criar as personagens, afinal, havi pequenas esperanças de que a Misono fosse uma versão caricata da Ai Yazawa.

Nos outros mangás da Wataru Yoshizumi ela frequentemente fala sobre as suas amigas mangakás, a mais citada sem sombra de dúvidas é a Ai Yazawa, mas entre outras amigas próximas constam Miho Obana e Megumi Misuzawa que ainda não foram publicadas aqui no Brasil.

O ponto alto da trama certamente é a leveza, o despertar do romance, as piadinhas bem levinhas, a Misono Kamijou… Também tem seus lados negativos, as coincidências que acontecem o tempo todo são cansativas e dão uma sensação de artificial à trama.

O traço é competente, mas é chato o fato da autora não se dar ao trabalho de desenhar mais cenários, pois às vezes torna-se muito monótono aquele monte de fundos brancos ou com apenas retículas. Outra coisa chata é a “repetição de personagens”, o Sugioka é uma versão adulta do Ginta Suou de Marmalade Boy, o Iku Koreeda parece uma versão mais velha do Hiroki Tsujiai de Ultramaniac, assim como a Misono Kamijou parece uma versão mais velha da Ayu Tateishi co-protagonista de Ultramaniac. Cansa ver uma mangaká fazendo personagens tão parecidos um atrás do outro.

A edição está competente, muitas retículas foram refeitas e era difícil notar quais. Em compensação no mangá estava escrito Tankobon e no glossário estava escrito Tankoubon. Como as duas formas estão corretas a editora deveria ter sido mais atenta e utilizado apenas uma romanização. O que mais me incomodou foi a página 162: nela aparece a revista em que a Sakura Endou publica e não traduziram o nome dela, tampouco colocaram uma nota explicando que estava escrito Drop em katakana. Esse foi um erro grave,  já que o leitor não é obrigado a ler katakana. Tomara que corrijam isso no próximo volume se voltar a aparecer o nome da revista, pode ser parte da “arte”, mas uma notinha era essencial ali. Fora isso chamo atenção para a fonte péssima que escolheram para o glossário: a letra J da fonte parece um F, a letra o I por sua vez parece um J, e o P parece um D. É um saco ter que ficar decifrando as letras o tempo todo, deveriam aposentar essa fonte, ela é enfeitada demais e dificulta a compreensão das palavras.

Fora essas bobagens o mangá está excelente, não posso dizer nada quanto ao novo acordo gramatical, mas não notei erros de grafia, o texto está fluido, não tem palavras estranhas, e está bem gostoso de ler, os honoríficos foram mantidos também. Nas parte de dentro da capa só há uma pequena ilustração colorida que veio na orelha do volume original com um comentário e o logo da série colorido.

A capa e a contra-capa são diferentes, há um pequeno resumo da história na contra-capa – e a ilustração dela é levemente diferente. Finalmente a Panini percebeu que colocar um resumo ajudaria a vender os mangás já que eles vêm lacrados. Aliás, ainda bem que eles vêm envoltos em plástico, já que isso ajuda a conservar o material dos maus tratos dos jornaleiros relaxados.

O mangá em si é muito legalzinho, mas como eu disse não é nenhuma revolução ou imperdível. Eu acharia estranho se alguém viesse dizer que este é o seu título preferido. Se você quer um shoujo para descontrair sem muito compromisso está mais do que recomendado, mas se você só pode comprar mangás em ocasiões especiais eu não diria que este é o seu título, há outros mais essenciais (a não ser é claro que você tenha um gosto especial por mangás levinhos). Spicy Pink é uma obra que pode e deve ser relida pois não se trata daqueles títulos descartáveis que você lê uma vez e nunca mais vai querer abrí-lo novamente.

Uma das coisas interessante foi que no final colocaram propagandas com resumos das obras da autora (inclusive de Spicy Pink, isso não tem sentido, não seria mais útil colocar proganda de PxP?). Uma ótima atitude pois quem pegar esse mangá para colecionar agora e curtir vai ter informações para correr atrás de Ultramaniac e Marmalade Boy (eu recomendo muito mesmo o Ultramaniac, já o Marmalade Boy eu definitivamente não recomendo, mas há quem goste).

O checklist no final do mangá é o de junho (a Panini é mesmo uma pândega!) e lá diz que o mangá é bimestral, mas o segundo volume estava programado para julho. Isso significa final de agosto a conclusão do título estará nas bancas da fase 1.

Título – Spicy Pink
Autora
– Wataru Yoshizumi
Gênero
– Romance (Josei)
Formato
– 13,7 x 20cm, 202 Páginas
Duração
– 2 Volumes (concluído)
Preço
– R$9,90
Periodicidade
– Bimestral

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