Resenha: Hollow Fields Volume 1 – Editora NewPOP

Ganhador do Prêmio Internacional de Mangás chega ao Brasil.

Hollow Fields, lançado recentemente pela NewPop, foi um dos ganhadores do primeiro International Manga Award (Prêmio Internacional de Mangás) promovido pelo Ministério de Relações Exteriores do Governo Japonês a partir de 2007. O título não foi o grande campeão (poste de Sun Zi’s Tactics de Lee Chi Ching), mas foi um dos quatro homenageados do ano, e destas era a única em que o autor não é de origem asiática.

A criadora do mangá é Madeleine Rosca (Madeleine Bensley) nascida na Austrália em 1977. A autora teve como primeiro contato com a cultura do anime/mangá o anime de Astroboy ainda criança. Quando cresceu ela continuou fascinada pelo estilo e conforme contou em uma entrevista concedida à Deb Aoki, o primeiro mangá que colecionou foi Akira influenciada pelo filme.

A ideia para escrever Hollow Fields veio de quando Madeleine trabalhou como bibliotecária. O contato com a literatura a fez perceber que livros infantis como Artemis Fowl e Desventuras em Série são acessíveis a todos os tipos de pessoas, não apenas crianças, então ela resolveu que escreveria uma história que tanto crianças como adultos pudessem curtir.

Hollow Fields foi então o seu primeiro projeto, começando na forma webcomic, indo ao ar primariamente no site Wirepop. Na ocasião ficou disponível por apenas três dias, já que dentro desse prazo ela foi contactada por um dos chefes da Seven Seas que quis publicar Hollow Fields.

Hollow conta a história de Lucy Snow, uma menina de nove anos e meio que está a caminho de sua nova escola, um internato para garotas. Como seus pais estão ocupados demais com o trabalho, a garota tem que ir sozinha, só que ela se perde no meio do caminho quando tenta cortar caminho por uma floresta sombria.

No meio da tal floresta Lucy vê um prédio que parece uma fábrica abandonada e imediatamente acha que se trata do Colégio Feminino Saint Galbat. Ela não poderia estar mais enganada, se trata de Hollow Fields, uma escola que ensina ciranças superdotadas a se tornarem cientistas loucos.

Como a própria escritora afirma, o principal personagem da trama é a própria escola. Com todas as engrenagens, mecanismos e motores a vapor o visual é fantástico, tudo é imenso e opressivo. As matérias não são comuns como matemática e  história, são estranhas e criminosas como Roubo de Túmulos, Transplante Interespécies, Construção de Robôs Assassinos entre outras habilidades eticamente questionáveis necessárias apara um gênio do mal. Outro destaque do mangá são os professores, conhecidos como engenheiros – e falar mais do que isso seria spoiler.

Algo muito interessante sobre Hollow Fields é que, apesar de ser uma história de fantasia, fala sobre algo que todos nós passamos, o medo da escola, um ambiente de descobertas. Nós conhecemos pessoas novas que podem não ir com a nossa cara em um primeiro momento, professores e funcionários que podem parecer monstros ou fadas madrinhas, mas que com o desenrolar do tempo podem se mostrar muito diferentes da nossa primeira impressão. Está tudo ali em Hollow Fields, mas revestido com uma bela camada de fantasia.

Hollow é uma obra steampunk. Para quem não conhece o Steampunk é um subgênero literário dentro da ficção e pode ser considerado como uma variação do cyberpunk. A nomenclatura surgiu no fim dos anos 1980 e se passa em uma realidade do tipo “e se ao invés dos motores movidos a Diesel a tecnologia tivesse se desenvolvido a partir de motores movidos a vapor?”. Tudo no mangá funciona a vapor e podemos ver o estilo vitoriano nas construções, nas engrenagens e nas roupas dos personagens.

O traço da autora é muito competente, ela desenvolveu um estilo próprio e creio que quando publicar uma nova obra poderemos reconhecer de imediato apenas pelo traço, que além de caracteristico é muito bonito. Uma curiosidade é que os personagens não têm nariz.

O sentido de leitura é oriental. Algumas pessoas reclamam quando algum autor de ‘Manga Global’ resolve desenhar a sua obra no sentido de leitura da direita para a esquerda, mas eu acredito que isso seja uma opção do artista, ele deve saber para que público escreve.

O enquadramento é genial, é tudo muito ágil e dinâmico, as sequências não deixam nada a dever para nenhum mangaká japonês e com certeza Hollow Fields é melhor que muita coisa publicada no Japão. Me atrevo a dizer que se as onomatopeias fossem em japonês ninguém poderia diferenciar Hollow Fields de um mangá propriamente dito. Se alguém colocasse um pseudônimo japa obra poderia ser vendida como mangá de uma mangaká com muita criatividade e estilo de arte original.

Agora vamos falar sobre o trabalho da Newpop. O acabamento gráfico é excelente, eu não sei o que eles fazem com o papel pisabrite, mas ele é sensivelmente superior ao usado pelas editoras maiores, sendo sedoso ao toque e pode não parecer, mas faz mais diferença do que se imagina. A impressão está boa, há um moiré leve, nada que atrapalhe realmente a leitura.

A adaptação é um ponto negativo, falta uniformidade à obra. Parte das onomatopeias foram traduzidas, outra parte não. O mais incômodo disso tudo é que a edição das que foram traduzidas está deixa a desejar, parece que passaram a borracha do paint em cima da escrita em inglês e escreveram por cima, Não se deram ao trabalho de reconstruir a imagem e além disso a fonte usada nas onomatopéias adaptadas é bastante diferente da fonte original e elas acabam chamando muita atenção. É muito chato ver em uma mesma página algumas traduzidas e outras originais.

A personagem Senhorita Notch que é descrita pela autora nos extras e em entrevistas (e pelas próprias atitudes da personagem) como fria, pomposa, educada e formal fala “…é tudo na faixa”. Se a personagem é uma empregada inglesa formal, então ela não deveria ter gírias em sua fala. Esse problema de artificialidade se repete com as crianças, elas falam de modo muito formal e não como crianças de nove anos. Pelo esmero apresentado pela autora com a narração e pelos desenhos não dá pra ter dúvidas de que a culpa é da adaptação nacional.

Uma coisa que me incomodou muito foram alguns erros de português. Como por exemplo a diretora, a Sra. Weaver, fala para o Bedel Stinch: “ObrigadO, Stinch, pela…”. Ela é uma senhora, não é? Deveria falar Obrigada. Na cena da tentativa de fuga a Lucy fala: “É a nossa chance, Dino… Vamos tentar não se perder na floresta desta vez…”, depois o Dr. Bleak diz: “Ela sabe construir melhor robôs…”.

Conclusão: O traço é legal, as sequências são ótimas, a estrutura das páginas é muito bem pensada, a história é interessante e foi bem bolada, a autora chega até a fazer balões com linhas retas para a fala dos robôs, mas faltou certo cuidado por parte da NewPOP. Espero que a editora se esforce mais no próximo volume e que não haja nenhum erro, pois o mangá é bem legal.

Quero deixar um agradecimento para a Jack_Babysis que me trouxe um exemplar de  presente, o qual veio com um postal de brinde. Na verdade trata-se de uma imagem do mangá impressa em uma papel de fotografia, o que pode parecer pouco, mas é muito mais do que qualquer outra editora nos oferece atualmente.

————————————————————————————————————

Nessa imagem dá para notar claramente como a arte foi coberta pelas bordas brancas da onomatopeia adaptada.

Apesar da má resolução da foto, nesta página a Newpop conseguiu deixar onomatopeias no original (o HAHAHAHA), traduziu a onomatopeia no caso do NÃO! NÃO! NÃO! NÃO!, inclusive dá para ver um imenso borrão onde parte da cabeça de uma personagem e a boca e o tronco da Summer foram apagados e também manteve a onomatopeia Wink e colocou a tradução embaixo dela. Faltou uma padronização por parte da pessoa que editou as imagens.

E para fechar mais uma amostra de como as onomatopeias traduzidas cobrem parte da arte e na mesma página a Sra. Weaver falando obrigado.

Publicidade
close