Mangá: O Grande Guia das Onomatopeias

Não é tão simples como imaginam…

Imagino que para a maioria esse assunto é extremamente simples, o que há para se falar sobre isso? Bem, começemos definindo a palavra “onomatopeia”. Segundo o dicionário Michaelis: Vocábulo cuja pronúncia lembra o som da coisa ou a voz do animal etc. Segundo o Houaiss: formação de uma palavra a partir da reprodução aproximada, com os recursos de que a língua dispõe, de um som natural a ela associado; onomatopoese. Ou seja, são palavras que, usando os sons e fonemas da língua, imitam um som real. Exemplos: Hahaha, Auau, Shua, Arf Arf, Trim trim, Bam, Tic-Tac, etc.

E onde eu quero chegar com isso? Pare e pense em todas as “onomatopeias” que você já viu num mangá. Desde quando raiva, corar, susto, piscar, sorrir e silêncio fazem qualquer tipo de som audível? Até faz som, o estalar da pele, das palpebras, os vasos sanguíneos bombeando em nosso rosto, mas audível?

Está para existir um quadrinho que tenha mais “onomatopeias” que os mangás. Pense nos comics, quadrinhos europeus, turma da Mônica, ninguém consegue chegar aos pés deles. Alguns títulos tem tanto efeito sonoro por página que chega a ser horrível de se ler, uma poluição imensa.

Mas na verdade nem todas as “onomatopeias” de um mangá são de fato uma onomatopeia. E esse efeito sonoro é uma das principais características que definem o estilo, mil vezes mais importante que a ordem de leitura invertida (que é meramente um estilo de leitura japonesa e não do mangá em si).

Esses efeitos são chamados no Japão de “Onyu” (lê-se On-yu) que significa literalmente metáfora sonora ou som simbólico/metafórico. Nem todos esses onyu podem ser considerados onomatopeias, porque como dito acima elas não reproduzem um som real. Eles são na verdade divididos em 3 categorias (às vezes 2, outras 4 dependendo do estudioso).

Infelizmente os nomes dessas categorias não existem em português e se existe é algo tão específico que não aparece nos maiores dicionários do Brasil (sim, chequei todos) e nem em site algum. Então tomei a liberdade de criar palavras, baseadas nas inglesas e em nossos radicais (estou me sentindo um Guimarães Rosa…).

A primeira categoria é as onomatopeias ou “fonomimia“, em japonês são divididas em dois as Giseigo (palavra que imita um som/voz) e as Giongo (palavra que imita um som/barulho).

As giseigo são os sons feitos por coisas vivas, como risadas, sons de animais e gritos. As giongo são os sons de coisas inanimadas, como um som de uma carro, avião, tilintar de copos e arrastar de móveis. Essa categoria é a que temos no ocidente, onde usamos os fonemas para tentar imitar os sons dos seres e da natureza ao nosso redor.

Vale a pena notar que embora a origem de todas as onomatopeias seja o mesmo som real, a interpretação do som muda e muito de acordo com a língua do local. Por exemplo, para nós os cachorros fazem “auau”, o mesmo é entendido como “woof woof” em inglês, “wang wang” em mandarim, “bau bau” em italiano, “meong meong” em coreano, “gav gav” em russo e “wan wan” em japonês. Por causa disso entender uma onomatopeia não é exatamente uma coisa fácil.

A segunda categoria é a “fenomimia“, em japonês é chamada de Gitaigo (palavra que imita uma ação/atitude). São as palavras que representam ações e as destacam, como piscar, sorrir, brilhar, reluzir ou qualquer outra que indique um movimento do corpo como reverenciar, concordar, estufar o peito, abaixar, apertar, etc.

Em geral são verbos representados por um “som”. Mas são duas palavras diferentes, existe o verbo e um efeito sonoro. Ao contrário das traduções para inglês, por exemplo, onde as traduções são os verbos.

Em japonês existe alguns bem famoso, como o “gatah” (quando um objeto é movido), o “pasah” (abrir os olhos) ou o “nih” ou “niya niya” (sorrir). Muitos desses inclusive são passados para os animês. Force a memória e lembre as transformações da Sailor moon, cada transformação fazia um plim plim danado, inclusive quando ela abria os olhos e girava. Se você parar e pensar, mudar de roupa não faz nenhum barulho, magia também não costuma fazer barulho, girar e abrir os olhos então… Aquilo é um destacador, para dar um “tcham” maior para a transformação. Agora compare as transformações dos americanos (tipo Mulher Maravilha) e Power Rangers, era só um bum e tava todo mundo vestidinho.

A terceira e última é a “psicomimia“, em japonês também chamado de Gitaigo (palavra que imita uma ação/atitude) ou Gijougo (palavra que imita uma emoção). Ou seja, são palavras que representando um estado psicológico. Como envergonhado, assustado, triste, depressivo, raivoso, feliz, apaixonado, etc.

Esse aqui também tem a versão animê, não preciso nem procurar exemplo, qualquer um aí deve visualizar milhões de cenas onde aparece o “som” de depressão, raiva, tristeza, amor e etc do personagem. Inclusive se foca no ser e aparece aquele fundo temático para aumentar ainda mais o destaque.

Nem sempre os Gitaigos e os Gijougos tem alguma lógica fácil de entender, afinal, como criar um som que nem existe? Nós temos algo um pouco parecido (mas bem pouquinho) no cinema, as músicas de fundo. Pegue certos tipos de filmes, como os de suspense, a música passa uma tensão que é meramente o modo como interpretamos certos sons e tons. Suspense não tem um “som”, mas nós elegemos aquela música como um modelo de suspense.

O mesmo fazemos para as cores, dizemos que o azul é frio e o vermelho é quente, uma cor nunca pode ter uma “temperatura”, mas interpretamos as cores usando outras ideias como o fogo e o gelo/água, passando de um lado a outro características metafóricas. É mais ou menos assim que funciona para os japoneses.

Aí você se pergunta de onde vem tudo isso? É fácil entender como e por que surgiu as onomatopeias, mas e o resto?

Se você conhece a história do mangá, deve se lembrar que em dado momento (principalmente com o Tezuka) o mangá passou a supervalorizar a expressividade e movimento dos personagens. Não bastando os olhos, bocas e sobrancelhas exagerados, as alternâncias de plano e enquadramento, sentiu-se a necessidade de exaltar ainda mais essas expressões e movimentos. Surgindo assim os primeiros efeitos sonoros apenas para destaque.

No começo isso foi muito lento, mas conforme o mangá evoluiu alguns autores mais ousados começaram a “inventar” seus próprios sons. Estes serviram de modelo para a próxima geração de autores que os usou e passou adiante. Atualmente a quantidade de onyu é imensa (alguns dizem mais de 1200 excluindo as variáveis) e cria-se mais a cada segundo. Existe vários dicionários na web feitos por fãs, um deles mais especializado em Shoujo tem atualmente quase 1500 onyus (incluindo as variáveis).

Alguns autores são conhecidos por sua “ousadia” e inovação. Kumeta Kouji, por exemplo, é o criador do som “meru meru” (som relacionado a receber mensagens pelo celular), dentre outros. Araki Hirohiko criou, para seu mangá Jojo’s Bizarre Adventures, o som de tensão “gogogogogogo” que é largamente usado hoje em dia não só para tensão, como para raiva, aura assustadora, dentre outros. Às vezes os sons nascem de outras origens, como o grito “Uooooo” vindo do horizonte que apareceu pela primeira vez em um drama (dorama).

Todos esses onyu acabam fazendo parte da cultura e cotidiano dos japoneses, na verdade desde pequenos eles são bombardeados com elas, estimulados pelas mídias, quadrinhos e livros infantis. Muitas dessas palavras estão simplesmente arraigadas na comunidade e pouco se sabe de onde surgiram, é como pesquisar quem inventou o “auau”. Mesmo adultos esses onyu continuam na vida dos japoneses, mas em menor quantidade.

Algumas curiosidades sobre os onyu: geralmente são escritos em katakana, mais raramente em hiragana, mas nunca, jamais, em kanji. Embora algumas vezes prefere-se escrever em katakana os sons bruscos, crus e fortes e em hiragana os sons suaves, leves e gentis.

Resumidamente podemos dizer que existe dois motivos para um onyu não ser escrito em kanji. O primeiro motivo é que kanjis são caracteres ligados a sentidos e ideias, não aos sons e fonemas; o segundo é que muitos kanjis tem mais de uma leitura. Se usassem kanji os onyu teriam, além do som, sentidos e várias possibilidades. Fora que isso limitaria os sons possíveis e tornaria a leitura dos troços impossível para crianças.

É muito comum que os “sons” sejam representados por uma repetição de som, como “doki doki“, “jiro jiro“, “pon pon“, “kira kira“, assim como em português onde falamos comumente “au au”, “trim trim”, “arf arf”, “tim tim”. Também é muito comum se usar esses onyu no dia-a-dia como advérbios, adjetivos ou até verbos, ao contrário de nós que usamos como substantivo: “O auau”, “o shuáshuá”, “o háháhá”, etc.

Embora alguns mangakás não usem muito os onyu, é muito expressivo a importância desses nos mangás voltados mais para o romance e comédia, como shoujos e shounens. Geralmente os gêneros infanto-juvenis possuem muito mais onyu que os gêneros adultos.

Alguns desses efeitos se tornaram extremanente específicos, outros muito vagos, sendo que nenhum deles tem tradução literal para nosso idioma. Talvez agora dê para imaginar o trabalho que os tradutores de japonês tem para traduzir as onomatopeias e como as coisas às vezes se resumem a um “achismo”.

No fundo o estilo mangá e o idioma japonês é um dos únicos a usarem esse tipo de metáfora, sendo uma característica única da cultura japonesa. Cultura esta comumente ignorada pela maioria dos seus fãs ou que se torna tão comum que fica difícil de se perceber o quão estranho e incomum é. Vale a pena saber que a Coreia também tem isso, mais em uma proporção muito menor e provavelmente fruto da influência japonesa.

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