Resenha: Vidia e o Sumiço da Coroa – On Line Editora

Como anda a vida fora do eixo JBC/Panini?

Olhando as resenhas e comentários na internet sobre os mangás lançados no Brasil percebi que ninguém realmente parou e deu uma chance para a On Line editora. Em parte porque (sem querer ofender ninguém) os títulos não tem apelo nenhum em sua maioria, por outro lado os que são mangás japoneses (desculpe o termo) são adaptações de obras da Disney.

Seja como for, perguntei-me como estava a qualidade da editora em outros aspectos, como revisão, tradução, edição e tal. Vai que um dia ela lança algo melhorzinho? Com isso em mente, juntei todas as minhas forças para ler “Vidia e o Sumiço da Coroa“. Acompanhe minha aventura na Terra do Nunca.

Aparentemente esses mangás nunca foram serializados, sendo lançados diretamente em formato tankoubon pela Kodansha. São baseados numa série de livros chamada “Disney Fairies” (Disney Fadas) que até o momento possui 21 volumes. Esses romances começaram a ser adaptados em versão mangá pela autora Haruhi Kato. A On Line aparentemente vai lançar todas. Nos EUA o material saiu pela TokyoPOP.

A propósito, a autora é super desconhecida, mas tem umas coisa alternativas, lançadas inclusive pela própria TokyoPOP americana.

Até agora existem pelo menos 3 volumes de mangá: Vidia e o Sumiço da Coroa (Vidia to Kieta Oukan), O Segredo de Tinker Bell (Tinker Bell no Himitsu) e Mermaid Lagoon no Rani (algo como Rani na Lagoa das Sereias).

Primeiro me sinto na obrigação de discutir a importância da Disney no Japão. A primeira coisa que você precisa saber Walt Disney é quase deus por lá. Desde Tezuka, quem sabe um pouco antes, Disney é algo forte e constante no Japão. Por causa disso é muito comum adaptações de personagens da empresa em mangá e animê (alguém lembra do Stitch em animê?).

Mas, bem, em especial esse mangá conta a história da Sininho (Tinker Bell no mangá) e suas amiguinhas fadinhas. Para aqueles sem cultura Disney (você num teve infância??), Sininho é uma personagem da história de Peter Pan, uma menino que fugiu para a Terra do Nunca onde as crianças não crescem e se mantêm jovens para sempre. É nessa Terra que ela mora com suas amigas.

Interessante comentar que a Disney trocou o nome de Sininho (agora Tinker Bell) e Puff (Pooh), por exemplo, pelos oficiais por causa do apelo mercadológico no mundo. O mesmo ocorreu com o Superman e Star Wars, que antes eram Super Homem e Guerra nas Estrelas por aqui.

Esse mangá é infantil (shoujo para meninas de 7~12 anos) e cheio dos clichês de amigas, o bem e o vilão que se redime etc. Um conto de amizade ou algo do gênero.

Tudo começa com uma festa de aniversário da Rainha, até que alguém rouba a coroa e põe a festa em risco de cancelamento. Vidia tinha ameaçado roubar, quando isso acontece todos a culpam e ela é ameaçada de ser banida. Arrasada com o acontecimento, Vidia se vê obrigada a investigar o furto junto com suas novas amigas. Passo a passo elas perseguem as pistas e buscam a coroa. Adivinha como acaba?

O traço da autora é bem típico de shoujo e até bonito (a rainha é super gracinha). É bem feito, bem desenhado, com uma história bem fluida. Mas, de novo, é super infantil.

Eu não sei dizer se foi traduzido do inglês ou do japonês. O material usado é 100% japonês, mas a capa é da TokyoPOP (com algumas mudanças). Seja como for, nessa obra eu não vejo problema em nenhum dos dois casos. Já que o original que gerou o mangá era em inglês e é tudo baseado das coisas em inglês; os dois acabam dando na mesma, né?

O material usado pela editora é similar ao da Panini e JBC. O grande diferencial é a capa que é também muito mole e fina. Por causa disso o mangá fica troncho e extremamente flexível o que dá uma agonia para se ler; a capa mais dura das outras editoras serve como suporte para a leitura. No final o trocinho é tão leve que ao ventar na minha casa o mangá decidiu sair voando (literalmente), enquanto os outros 3 da Panini e JBC ficaram quietinhos (Com direito a piadas infames sobre ser o espírito da Sininho voando pela minha casa…).

Outras coisas a serem comentadas é que o interior da capa é colorido, similar ao da Panini. As duas capas também são diferentes, com um resuminho e tal. O tamanho do mangá é parecido com o da JBC (um pouco maior), com 200 páginas em média e por R$9,99. O meu volume também veio com capinha plástica. Ah, sim, e o sentido de leitura foi mantido oriental!

A parte ruim é que não teve as 3~4 páginas coloridas e nem apareceram em preto e branco, foram puladas.

Em questão de tradução e revisão a On Line parece bem munida, não encontrei nenhum erro gramatical. Mas nem tudo foi traduzido, veja adiante. Encontrei uma ou outra fala com uma tradução a desejar, por exemplo o final tem um título que passa de uma página a outra, algo como “Na toca dos duendes tem muitos amigos maravilhosos”. Na versão da On Line foi traduzido como duas frases desconexas, numa página ficou “Na toca dos duendes” e na outra “Maravilhosos amigos”. Infelizmente não tenho acesso a uma versão japonesa completa ou americana para checar mais a fundo. Veja a página em questão abaixo.

As onomatopeias foram mantidas originais, com legendas. Nem todas receberam essa legenda (tipo metade legendado, metade sem). Mas o que mais me assustou aqui foi as traduções. Sem exagero, das traduzidas a maioria virou “oh”, “ah”, “hum”, “ai” e “hã”. Por exemplo, na página 25 a mesma onomatopeia “zawa” (que indica murmúrio, conversa) foi traduzido para “ahhh”, “ah”, “hum!” e “oh”. Estranho, certo? Próxima página, um “cof” daqueles em que se limpa a garganta para indicar que começará a falar, tradução “aiaiai”. Próxima “shiiin” (silêncio), tradução “Ahhh”. Página 32, treme treme (gata) virou “ahh ah ah”; Flap flap (basa basa) virou oh! oh!. Próxima página plop (plota – gota caindo) virou aiaiai.

Posso ficar o dia todo dando exemplos aqui, tá tudo assim. Não fazem o menor sentido, quase nenhuma está aceitável minimamente, muitas estão erradas mesmo (como em vez de arf arf ou semelhantes foi colocado toc toc; como arfar virou bater numa porta???). Não me arrependo de dizer que é a pior tradução de onomatopeia que já vi na minha vida, a Savana (!!!!) era melhor. Não sei nem se posso chamar de tradução, me parece tão aleatório, é como se o cara olhasse e arbitrariamente escolhesse um som dentro os que ele definiu. Tenho absoluta certeza que o tradutor/revisor não entende as onomatopeias, o que me leva a pensar que foi traduzido do inglês; se um tradutor de japa não entende…. Morte a ele! (peguem as tochas e foices)

Quanto a edição, foi usado algumas fontes diferentes, no início e no fim, mas no mangá mesmo foi tudo a mesma. Existe um pequeno “problema” com essa fonte usada. O nome dela vulgarmente é “Wildwords” (conhecidíssima dos scanlators) embora algumas letras do maiúsculo e do minúsculo sejam idênticas, outras como o “I” são bem diferentes. Quem prestar atenção vai ver as duas versões ficam aparecendo ora sim ora não durante o mangá, tudo meio misturado. Mas isso é meramente um detalhezinho bobo, um pouquinho de atenção e se resolve.

Continuando, logo no início, às vezes os acentos ficam em cima das palavras da linha anterior, acavaladas. Mais a frente eu me deparo com… AQUILO. Dizem que uma imagem vale por mil palavras, que assim seja.

Como podem ver é uma fotinha de péssima qualidade (nessa casa não tenho máquinha ou scanner, desculpe), mas o bastante para enxergar o que a editora fez. O original abaixo.

Basicamente todo o mangá está assim, o conceito reconstrução não existe no mangá. Todas as falas no plano de fundo ou sobre a imagem foram ou apagadas e mantido os borrões brancos; ou apagados e, em vez do branco, foi copiado só o padrão; ou foi escondida com um quadro enorme por cima; ou simplesmente tacou-se a fala por cima e fod*-se. Não existe NADA reconstruido. Dá para ver as falas originais em vários pedaços e os borrões brancos são ainda mais comuns.

Além disso os corações nas falas, que foram mantidos, ficaram no mesmo lugar, não foram rearranjados no balão, ficando visuais bizarros. É muito comum também resquícios de falas nos balões e tal (perninhas aqui, tracinhos ali).

Serviço porco não é forte o bastante para definir a edição da On Line. É simplesmente repugnante. Eu poderia ficar horas listando erro por erro, mas gastaria bem menos tempo citando as páginas SEM erro editorial. Vou poupar-nos e encerrar só com isso. Se não põe fé, confira você mesmo.

Sinto-lhes informar, então, que a On Line não é uma opção. Se eles licenciarem algo mais “adulto” será mais uma Savana no mercado (mas que sabe português).

Um último comentário, é uma complicação adquirir essas obras da On Line, não existe no próprio site deles, nem todas as lojas especializadas receberam e nem toda banca também, andei bastante para achar o das Princesas, que é a que eu queria comprar – mas só agora descobri que ainda não saiu. Achei a da Vidia, que nem sabia que existia. São bem desorganizados nesse aspecto.

P.S.: Para quem quer dar uma olhada de como era o original e tudo mais, neste site existe várias páginas disponíveis, super acessível e ótimo para comparações também.

Título: Vidia e o Roubo da Coroa
Autores: Haruhi Kato
Formato: 15 × 21,5 , 194 páginas
Duração: Volume único (parte da coleção Disney Fadas)
Preço: R$9,99
Demográfico: Shoujo
Gênero: Amizade, Investigação

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