O Grande Guia da Tradução

Não é tão simples como se imagina…

Esse texto foi escrito por 3 pessoas da área de línguas e tradução (ver ao final). Nosso principal objetivo é discutir alguns pontos sobre isso, em especial no tocante aos animês e mangás, baseados na nossas experiências, opiniões e teorias da área. Por causa dessa mistura você vai perceber diferenças de “estilos” durante o texto, mas no geral os três entraram num consenso.

A história da tradução
Há muito tempo, quando todos os homens viviam num só lugar e falavam apenas uma única língua, eles resolveram construir uma torre gigantesca que chegasse aos céus, pra ver o reino do Senhor. Aparentemente Ele ficou puto da vida com isso, porque Ele era o único no Universo (que dizem que foi construído por Ele) que podia fazer uma construção tão grande e magnífica. Por causa disso Ele trollou a construção e fez com que todo mundo falasse um idioma diferente um do outro: foi confusão na certa porque ninguém se entendia. Daí em diante, os homens se dividiram em povos e foi cada um morar no seu canto e falar a sua língua. E é assim que, segundo a Bíblia, surgiu a necessidade de existir um tradutor (palmas, confetes e holofotes nele, produção).

Na verdade os tradutores e intérpretes surgiram da necessidade de comunicação entre diferentes povos, um comerciante, por exemplo, dependia disso para vender e comprar nos diferentes lugares em que parava. Com o tempo os tradutores foram importantíssimos para gerar conhecimento, uma vez que através deles era possível a leitura de outros materiais vindo de outras culturas. Nesse contexto os tradutores gregos, romanos e egípcios foram muito importantes. As bibliotecas Alexandrinas foram um dos centros de cultura dos tradutores dessa época.
Do outro lado do mundo os indianos e os chineses também despontaram com uma escrita e valorização do conhecimento, traduzindo e cuidando de vários documentos. Inclusive muitas dessas pesquisas e obras são imprescindíveis para áreas como a história e arqueologia.

Mais tarde, com a queda romana, esses textos antigos passaram para a mão das igrejas e mosteiros. Passou a ser responsabilidade da Igreja a tradução e manutenção dos textos. Muitos desapareceram, outros foram convenientemente alterados e alguns se salvaram, com traduções decentes.

Com a urbanização europeia o desejo por cultura refloresceu, mais uma vez os tradutores eram essenciais para o intercâmbio de cultura entre os diferentes povos e, até hoje, o são.

Tradução
Em termos práticos a tradução funciona da seguinte maneira: um cara que fala uma língua X escreve algo na língua dele; alguém que conheça a língua X e Y passa esse texto de uma língua a outra. Isso é tradução. Mas, tão importante quanto conhecer o idioma, o tradutor deve ter ou conhecer a cultura ou área. O que o leva a constantes pesquisas e trabalhos.

Quando se fala em tradução de uma obra, pode-se incluir todo o processo, além do tradutor. Basicamente é assim: Uma editora contrata um tradutor que ganha merrecas para traduzir uma obra. Ao fim de noites e noites sem dormir, muita pesquisa e trabalho, o livro é traduzido e passa para ser revisado, diagramado, editado, impresso e mandado para uma livraria (aí pertinho de você!) onde uma criatura comprará, lerá e dirá que está mal traduzido e cheio de erros.

O tradutor é um profissional mal compreendido e mal pago por causa de uma série de fatores que não ficam muito claros para a grande massa, então resolvemos fazer esse pequeno (grande) guia para que todos entendam melhor todo esse processo e diminua a quantidade de xingamentos contra esses pobres coitados.

Definindo Tradução
Tradução é o processo em que se pega uma informação numa língua X e “passa” pra língua Y, certo? ERRADO.
Se traduzir fosse tão simples, qualquer um que soubesse dois idiomas conseguiria fazê-lo com facilidade, não teria ninguém reclamando das traduções que existem por aí e Google tradutor seria uma ferramenta milagrosa.

Pela classificação legal, a tradução é uma obra derivada de outra, ou seja, é de inteira responsabilidade do tradutor, é uma interação entre autor e tradutor. O objetivo dela não é passar de língua X para Y, e sim deixar o mundo X compreensível para o mundo Y. Em outras palavras, o tradutor (oficial, o profissional contratado) é a pessoa que tem autorização legal para modificar a obra original de forma que fique compreensível para os leitores da outra língua. Mais resumido que isso: o tradutor traduz e adapta.

Tradução Fiel
A tradução fiel (a que está 100% de acordo com o original) pode ser definida em três palavras: ISSO NÃO EXISTE.
Não existe tradução 100% fiel, por mais literal que possa ser (abandonando completamente uma boa escrita na língua de chegada), a mais básica escolha de palavras se dá pelo tradutor, e a escolha, por caber a ele, já deixa marcas de seus pensamentos, seus gostos, enfim, da sua autoria.

Mesmo se lendo na língua original, duas pessoas diferentes entendem a obra de duas maneiras únicas. Nunca discutiu com alguém sobre o que alguma passagem do livro “queria” dizer? Nem tudo é claro, as interpretações, as entrelinhas, as referências, as brincadeira do autor nem sempre são entendidos da mesma maneira ou por todos.

Num texto, isso significa que vai ter coisa diferente, SIM. Para cada pessoa que traduzir, haverá uma tradução e quanto mais complexa e passível de interpretação a obra é, maior a variedade de traduções.

Além disso, as diferenças e limitações de um idioma para outro também interferem no produto final (além de leis e censuras legais). Línguas e culturas mais similares resultam numa tradução mais próxima ou “fiel”, porque elas são parecidas, mas quando as duas línguas são completamente diferentes, a complexidade aumenta exponencialmente, pois aumenta a margem para que haja mais interpretações e adaptações. Complexidades como os velhos “falso cognatos” ou palavras muito semelhantes (cognatos), mas que têm significados diferentes em ambas as línguas, às vezes até dentro de uma mesma língua.

E isso é ruim, cara pálida? Só te digo uma coisa: se não houvesse modificações você ainda pertenceria ao reino monera (alguns que não conseguiram ler até aqui de fato pertencem). Você, ao ler a tradução, está lendo A TRADUÇÃO DE FULANO da OBRA DO AUTOR BELTRANO. E isso é ruim²? Se você for purista, fundamentalista etc. vai ser, se for um leitor, não. Porque está lendo um texto escrito na sua língua nativa, por uma pessoa que pesquisou muito sobre o texto (original), que está te contando do melhor jeito possível e por aí vai.

Tradução literal, livre, adaptação e interpretação
A tradução pode ser vista como a tentativa de se alterar em nada (ou quase nada) o “sentido” da frase, e de frase em frase, o texto inteiro. O problema é: o produto final não faz sentido (Felipe Neto®). Por mais que seja parecida com o original, isso não significa que vai ser um bom texto na língua de chegada, não é questão de ser palavra por palavra ou ideia por ideia. O ponto é: uma tradução BOA é primeiramente um TEXTO bom, e uma tradução literal não prima por isso, simples assim. Podem haver boas traduções literais? Claro que sim, mas quanto maior a complexidade da obra, menores as chances.

A tradução livre é um pouco complexa de ser definida, uma vez que não existe um conceito muito exato ou uma linha que divide a tradução livre da adaptação etc… É difícil dizer que A é literal, B é livre e C é adaptação.

Podemos dizer que a tradução livre é o padrão, e quando digo padrão, eu quero dizer padrão profissional, em que há proximidade (tomando cuidado para ver isso de um prisma do senso comum) entre o original e tradução o suficiente para não ser uma adaptação. Essa proximidade, claro, é fruto somente de consenso, a FIDELIDADE é uma palavra-chave pra falar sobre isso. É uma coisinha complicada, há uma teórica chamada Rosemary Arrojo, uma das tops na área de Teoria da Tradução e, olha, é brasileira! Somos um dos países com destaque na área de estudos da Tradução, juntamente com França e Rússia, então, sinta-se orgulhoso desse país. Somos samba, futebol E TRADUÇÃO. Ok.

Arrojo diz que o tradutor é fiel à sua interpretação do texto original. Paremos e analisemos. Lembra daquela coooisa de que um leitor é limitado a sua visão de mundo que mencionamos lá atrás?

“Os limites de minha linguagem significam os limites de meu mundo.” Um tal de Ludwig Wittgenstein disse. Basicamente, você não vê além do que não sabe ver. Sua língua, seu meio de comunicação, é seu limitador. Aquela palavra que sintetiza um sentimento como “arrependimento por não ter falado o que devia numa hora decisiva”, se você fosse (ou soubesse) francês, você saberia, não é maldade com nossa cabeça tropical, não! Eles têm uma expressão pra isso: l’esprit de l’escalier, aquele sentimento que bate quando você está nas escadas indo embora e não disse o que devia ter dito numa conversa, discussão etc.

Ok, voltando: não há, não há, uma essência, uma alma, numa obra. Não há uma aura mítica onde o real SIGNIFICADO dela orbita (ignore isso se você considerar quaisquer livros magicamente escritos por divindades hebraicas e/ou similares), ou seja: não há um sentido CORRETO. Há interpretações. Naturalmente algumas serão compartilhadas por mais pessoas ou serão mais embasadas com argumentos, o ponto é: não existe uma mais CORRETA que a outra, o que existe é uma ou outra interpretação que tem VALIDADE em determinada COMUNIDADE INTERPRETATIVA. Ou seja: pessoas que têm inclinação política vão ler Fight Club (Clube da Luta, numa tradução livre/literal) primando essa interpretação, pessoas que preferem psicologia vão focar em outra interpretação, pessoas que curtem porrada vão focar em outra, e tem gente que pode ver uma metáfora para apresentar o Oscar chapado. É “errado”? Pelo bem da sociedade, dizemos que sim, mas sabe como é a sociedade, a gente ignora qualquer um que seja diferente da massa, estigmatizar é foda, mas é humano, portanto, entendemos que não existem interpretações erradas, apenas sem suporte adequado (seja ele argumentativo, dogmático ou social).

O que seria uma tradução “livre” então? É o bom e velho lugar-comum, que não nos mostra o problema de frente, jogando na cara as problemáticas que NÓS TRADUTORES TEMOS QUE VER E QUEBRAR A CABEÇA. Simples assim. É uma tradução que não é extremista pra nenhum lado, aceita pela maioria. E lembra o que não acontece com quem não é aceito pela maioria? ISSO MESMO! SAI DA CASA! VAI VER O BIAL! Entendeu?

Além dessas coisas mais comuns existem alguns dilemas ao se traduzir algo, comumente os linguistas chamam de nativismo e estrangeirismo. Um exemplo para você compreender o problema: você está traduzindo um texto e se depara com a frase “Character Design by CLAMP”. Não existe uma palavra em português para “design” (com o mesmíssimo sentido), aí vem o dilema: deixo em inglês e faço uma nota (estrangeirismo) ou adapto como der para nosso idioma (nativista)? Existe uma maneira certa? Não.

Quer ver outro exemplo? JBC x Panini, o que eles fazem com os honoríficos (-san, -kun, -sensei etc.)? A JBC tem um caráter nativista, ela adapta para o nosso contexto, o que pode resultar numa informação “perdida”. Já a Panini é estrangeirista, ela mantém os termos, mesmo que não sejam usados em português, acrescentando notas. Há alguém errado? Não, são estilos diferentes e ambos válidos.

Outro dilema é a formalidade X informalidade. Embora existam regras de escrita culta, o autor/tradutor é livre (dependendo, claro, do público-alvo) para escrever informalmente. Usar gírias ou não, usar a norma culta ou não, adaptar bastante ou não, tudo é válido para um produto final mais adequado e depende de escolhas do tradutor.

Ah, e quando se fala “norma culta”, não se fala da norma gramatical, que é aquela coisa que só existe em livros de receita e sonhos de gramáticos, ou em norma padrão, que é a língua “falável”, mas ainda sim com elementos não-utilizados por pessoas normais. A norma culta é simplesmente a linguagem tida como “bem falada”, sem variações regionais ou neologismos, aquela que qualquer pessoa alfabetizada entende.

Mais um caso famoso que eu queria comentar é o caso dos nomes, há um tempo li que os fãs de Crepúsculo ficaram revoltados quando o nome “Edward” foi traduzido para “Eduardo”. Ficar irritado com isso é similar a se irritar por alguém falar “Rio Tâmisa” e não “River Thames”, ou “Alemanha” ao invés de “Deutschland”. Aportuguesar nomes é algo normal e aceito, você pode preferir um ou outro, mas errado nenhum dos dois estão. O que torna um “estranho” ao ouvidos e outro não é pura e simplesmente costume. Por isso alguns nomes e exônimos são considerados “consagrados”, ou seja, é conhecido pela maioria por aquele nome. É a velha história do Nativismo e do Estrangeirismo. Inclusive, o mais comum no Brasil é a adaptação dos nomes próprios, quer ver um caso famosíssimo? Você acha que o nome de Jesus era mesmo esse na língua dele?

Erros e má tradução
Ok, se a coisa é tão livre assim, o que podemos chamar de erros? O que é uma tradução? Levando em conta a prática e conhecimento profissional, de forma geral, é erro quando:

1. Por motivos técnicos ou de digitação o texto é alterado. Sabe corretor automático do Windows? Aquele velho errinho de digitação? Ou então um arquivo que corrompa certo acento? Às vezes uma fonte que tenha problema em um caractere. Alguns deles não são necessariamente erro cometido pelo tradutor, mas que interferem na tradução.

2. O texto está com pontuação ou sentido confusos; quando o tradutor não escreveu algo que possa ser entendido pelos leitores. Já leu aquelas frases que não fazem sentido algum? Às vezes se o cara explica você até enxerga o que ele queria dizer, mas a frase por si só fica super sem sentido.

3. A tradução inverte ou altera totalmente algo explícito no original. Por exemplo, ao se traduzir uma oração negativa como um afirmativa: “I don’t wanna die” (Não quero morrer) para “Eu quero morrer”. Ou traduzir uma expressão/gíria literalmente, tipo “A Piece of Cake” (Mamão com açúcar; moleza) para “Um pedaço de bolo”. Ocorre também quando o tradutor desconhece ou está inseguro e “chuta”.

4. Há erros gramaticais. Mas aqui há um GRANDE porém. O que é um erro gramatical? Depende. Se você precisa de um texto muito formal, erro gramatical vai ser qualquer coisa que não esteja de acordo com a gramática normativa (a do professor Pasquale). Desse modo, dizer “assistir o jogo”, “tô fazeno”, “vou ir”, “vi ela” etc. é errado. Lembra da Norma Gramatical, Padrão e Culta? Então. São variações de formalidade.

Mas se o seu texto pode ser mais informal, erro é aquilo que absolutamente não existe entre os falantes. Dizer “deprê”, “paia”, “tu tá louco”, “vou estar enviando” é válido nessas situações pois são oriundos da língua coloquial. Nessa situação de informalidade o gerundismo NÃO é um erro, nem regionalismos ou qualquer coisa do tipo. A grafia de informalidades tende a ser variável, mas segue as normas e lógicas gerais da língua (o que no futuro pode levar à incorporação do termo na norma culta).

5. Há má-adaptação contextual. Isso ocorre quando o texto destoa da situação conversacional. Por exemplo, numa história um juiz num tribunal diz “vou está passando sua reclamaçaum pros adivogados”, isso é erro pois as pessoas não falam assim nessas situações (a não ser que no objeto em questão seja uma comédia). Poder usar e dever usar são coisas diferentes, cabe ao tradutor analisar que tipo de discurso cabe em cada tradução. Traduzir um texto técnico em caipirês não dá, assim como escrever uma novela em português 100% segundo a gramática também não rola (imagina os atores falando vós?).

6. Ocorre a descaracterização. Geralmente é quando envolve palavras preconceituosas ou que tenham uma carga cultural que não fica evidente na tradução ou que entra em conflito com alguma informação do próprio texto. Isso ocorre principalmente quando se é adaptado um termo sem levar em consideração o resto da obra ou o ambiente.

Por exemplo, se um personagem num grito falar “Seu preto sem-vergonha”, fica evidente um teor racista do personagem, que (no exemplo) não existe. Acaba surgindo como fruto de uma má tradução.

Outro exemplo são traduções literais que alteram sentidos. Imagine mais um personagem que vire para um cara e diga “você é mesmo um bastardo”. Para um brasileiro sem conhecimento de gírias e ofensas americanas, vai entender que o alvo da fala é um filho gerado fora do casamento. Quando em inglês “bastard” é um xingamento, similar ao maldito, desgraçado etc.

Em termos gerais, pode perceber que erro é aquilo que se opõe ao sentido original ou não seja claro (gramaticalmente ou semanticamente).

Revisão
O processo de revisão se inicia logo que o de tradução acaba. Existe aquela feita pelo próprio tradutor, a feita por um revisor propriamente dito ou às feitas por qualquer outro profissional relacionado a produção da obra.

Assim que termina o que deve traduzir (e/ou durante o processo), o tradutor pega o texto e revisa, tomando cuidado pra ver se não esqueceu de nada, consertando os erros mais aparentes e assim por diante, ou seja, é uma revisão mais superficial, mas importante para que a editora não receba um trabalho mal-feito e evite dores de cabeça no futuro.

A REVISÃO, revisão mesmo, é feita pelo revisor, que pega a obra original e compara com o que foi traduzido, então ele conserta todos os eventuais erros que possam aparecer, desde os mais simples erros gramaticais, ortográficos e de digitação, até erros de nota de tradução, expressões idiomáticas mal adaptadas/explicadas e casos em que uma informação apresentada não bate com a real. Ex: Dizer que O Senhor dos Anéis foi escrito por C. S. Lewis quando o autor verdadeiro é Tolkien ou dizer que a Segunda Guerra Mundial acabou em 1940.

É por isso que o revisor precisa ser uma pessoa tão ou mais cuidadosa e antenada que o tradutor, pois se aparecer um erro grotesco lá na frente, a culpa será creditada ao revisor, não ao tradutor (isso é, por quem é da área. Leigos juntam tradução e revisão num mesmo saco e xingam tudo), pois é responsabilidade dele detectar qualquer elemento errado ou estranho no texto traduzido. É importante ressaltar que é bom que revisor seja outro que não o tradutor; pontos de vistas diferentes permitem diferentes abordagens em relação a erros.

Por exemplo, em V de Vingança, o personagem V, em umas das passagens, cita um trecho da música Satisfaction, dos Rolling Stones. Se o tradutor não conhece a música, é provável que deixe essa referência passar em branco, mas por outro lado, se o revisor é fã de carteirinha da banda, ele vai colocar uma nota dizendo que a fala é uma referência à música. Ou então, uma frase que pro tradutor está correta não faz o menor sentido para o revisor, então um entra em contato com o outro e modificam o texto até que faça sentido para ambos, mas muitas vezes esse contato direto não existe e o revisor modifica para algo que ele acha mais adequado, o que pode ser favorável ao produto final ou não, pois também pode acontecer do tradutor estar certo e o revisor ter alterado porque não fazia sentido para ele.

Há casos como na tradução em língua japonesa, em que é um pouco raro achar tradutores/revisores capacitados, então as editoras optam por contratar revisores em língua inglesa ou francesa e eles revisam a partir da respectivas traduções e comparam com a obra que foi traduzida do japonês para o português. Nesses casos, existe uma probabilidade grande de que uma algo saia muito alterado. Por isso, é interessante que tanto os revisores e os tradutores usem obras na mesma língua como referência.

Além dessas revisões, os textos podem ser alterados mais a frente por outros profissionais. Como por exigência da empresa que quer que o nome do personagem seja H e não G. Ou adaptações que caibam no espaço do quadrinho, imagine que um balão muito pequeno tenha uma fala de mais de uma linha, como não “cabe” tenta-se achar adaptações com mesmo sentido e menores (em número de caractere). Para os alarmados, essas adaptações são coisas como, transformar em sujeito oculto, tirar algum adjetivo ou advérbio repetido. Algo como, ao invés de “Seu maldito cabeludo com pelos até na cara e nas mãos”, por “Seu cara de gorila maldito”.

Dificuldades de tradução do japonês para o português
Não é preciso saber falar japonês para perceber que japonês e português são idiomas totalmente diferentes um do outro. Pra começo de conversa, o português é uma língua neolatina, ou seja, é derivada do latim, enquanto o japonês é uma língua japônica. No grosso, isso significa que no mínimo, tudo é diferente.

-Romanização
A escrita da língua portuguesa consiste no alfabeto romano e a japonesa é formada por caracteres chamados de kanji e dois silabários chamados de hiragana e katakana, sendo que o primeiro e os kanjis são usados para praticamente todas as situações e o katakana apenas para a escrita de palavra cuja origem é uma língua estrangeira, uma gíria ou algum destaque.

O processo em que uma palavra de um sistema de escrita X é passado para o sistema de escrita Y é chamado de transliteração, e quando Y é o alfabeto romano, o processo passa a se chamar romanização.

É muito comum existirem vários tipos e versões de transliterações, alguns são mais “oficiais” outros mais excluídos. No caso do japonês existe uns 3 ou 4 mais famosas. A escolha da romanização às vezes é arbitrária e de escolha da editora.

-Termos
Como dito, as duas línguas são muito diferentes e usam radicais diferentes. É muito fácil traduzir quando as línguas tem os mesmos radicais, mas quando a coisa não tem semelhança nenhuma, encontrar a palavra certa pode ser um desafio. Muitas palavras acabam virando frases enormes nas traduções, o que torna o trabalho do tradutor mais difícil. Por causa disso é muito comum a omissão ou simplificação de termos.

-Onomatopeias
Outro desafio são os efeitos sonoros japoneses, que são mais variados que os ocidentais. O que obriga o tradutor a inventar sons, traduzir como verbos ou simplesmente arrancar os cabelos e por um som genérico. Você pode ler mais sobre este assunto no texto “O Grande Guia das Onomatopeias“.

-Estrangeirismo japonês
Exatamente por causa da diferença cultural do Japão e do Ocidente, os japoneses incluem em seu vocabulários várias palavras em inglês, chinês, alemão, português e francês. Essas palavras são “ajaponesadas”. Ajaponesar é o equivalente ao “aportuguesar”, é a diferença entre “stress” e “estresse”. No caso do Japão “stress” e “sutoresu”. Significa alterar a palavra e torná-la semelhante (em termos estruturais, fonéticos, morfológicos etc.) ao japonês.

A questão aqui é, deixo em inglês (ou outra língua de origem), em japonês ou traduzo para português?

Um caso mais recente disso é a “pasta” que o Itália (de Hetalia) fala. Ele  diz “pasuta”, que é o “ajaponesamento” da palavra americana “pasta”, em português “massa”. No caso a editora escolheu o em inglês.

Mas é super importante compreender que eles não falam em “inglês”, pasuta é uma palavra japonesa “roubada” do inglês, mas ainda sim é japonesa. Pense assim: se Xerox é uma palavra inglesa, tente falar isso para um e ver se ele entende. Ele terá dificuldade de entender porque nós falamos com um tom diferente, com significados diferentes, da maneira portuguesa. Resultado, nos apropriamos e alteramos a palavra, é português agora. Assim como todas as outras palavras que tem origem francesa, latim, grego, alemão, italiano…

Outro caso famoso e mais abrangente é o “lāmiàn”, “lamen”, “ramen” e “lámem” (na ordem chinês, grafia errada de “ramen”, japonês, aportuguesado).

O mais essencial aqui é que os leitores compreendam que escolher um deles é o mesmo processo de se escolher entre “x-burguer” ou “cheese burguer”, “whisky” ou “uísque”, o velho estrangeirismo ou nativismo. E isso acontece para a adaptação de qualquer língua e em qualquer língua. Não existe um correto, embora possa existir um “melhor” num dado contexto.

Estilo de tradução
Cada tradutor, levando em consideração as épocas em que vive e/ou viveu, tem toda uma bagagem cultural que é empregada na hora de escrever/traduzir, isso interfere na escolha das palavras, da forma como ele quer que tal personagem fale e por aí vai. A editora também pode interferir no produto final.

Aplicando todos esses conceitos de tradução, vamos falar usando as editoras brasileiras como exemplo. A Panini prefere usar expressões como –chan, -kun, -san e -sama direto do japonês e sem adaptação. Além disso, não tenta diferenciar muito os diferentes dialetos e sotaques dos personagens, padronizando as falas segundo a norma padrão, ou seja, todos os personagens falam um português mais próximo do dito correto e a fala é formal, muito diferente da usada no dia-a-dia. Por exemplo: duvido muito encontrar um jovem leitor de mangá que saiba aplicar de forma correta a ênclise e próclise, tem gente que nem sabe o que é isso (e para quem não sabe, é a colocação do pronome oblíquo no final ou antes do verbo).

Já a JBC tenta adequar a tradução de acordo com o jeito que falamos aqui no Brasil, sem os -chans e -kuns da vida e falas cheias de gírias. É uma atitude muito arriscada, mas ao mesmo tempo soa mais natural (às vezes). É arriscada porque pode ser que o tradutor acabe usando expressões do tempo da vovozinha ou gírias que só um ou outro conhece (regionalismo), o que acaba causando um certo estranhamento em uma parcela de leitores. Mas convenhamos nenhum brasileiro fala Mizuki-chan ou Tamaki-sama normalmente (salvo raras exceções, mas estamos falando de gente “normal”) e nenhum “mano” usa corretamente as regras da gramática (já vi gente por aí que olha…). Por isso a JBC merece alguns pontinhos a mais por se arriscar, apesar de exagerar e falhar bravamente muitas vezes.

Outra coisa bem comum é a escolha no uso de palavrões, muitos tradutores são mais pudicos e preferem usar expressões menos “fortes”. Você pode ter uma mesma frase sendo traduzida desde “seu bobo” até “seu filho-da-puta”.

Scanlator VS. Editora
Um aviso ao leitor: se você é daqueles que quando leem um mangá licenciado logo fala: “ah, mas no site tal, eu vi de outro jeito…” quero que faça o favor de parar de ler esta matéria e peço educadamente para que morra, se aceitam uma sugestão, que a morte seja lenta e dolorosa. Obrigada.

Comparar scanlator com tradutor formado e profissional é ridículo. Não vou dizer que todo tradutor é competente e decente, mas comparar o trabalho dele com pessoas comuns e não formadas chega a ser ofensivo. Ainda mais quando a maioria dos scanlators faz tradução de tradução. Um auto-didata invariavelmente teve menos acesso a material de estudo e menos tempo dedicado exclusivamente àquela atividade. Não é frescura, portanto, é profissionalismo. Qualquer pessoa de alguma das milhares de áreas profissionais não passa anos estudando à toa.

Uma tradução oficial, idealmente, é mais bem-feita que as traduções por hobby, mas isso não exclui a possibilidade do tradutor oficial ser um merda. Só que para identificar o infeliz, usa-se o original, não uma versão feita por outra pessoa, ainda mais outra pessoa que seja menos qualificada (que pode até ser muito bom, mas como dissemos, é raro. E lembrem-se qualificação não significa qualidade, mas é um fator importantíssimo). Se não é possível a comparação, você vai ficar preso a mera especulação. E especulação não é prova de nada.

Imagine você no ensino médio discutindo com um médico sobre uma certa doença. Ou discutir uma construção com um engenheiro civil. Existe uma possibilidade de você estar certo? Claro que existe, super mínima. Mas em quem você apostaria suas fichinhas? Em todo caso, geralmente se pede um outro profissional da área para provar que o primeiro esteja errado ou materiais e teorias de base (incluso uma gramática).

Tradutores
Por último, um comentário sobre a situação dos tradutores brasileiros. Infelizmente no Brasil as pessoas acham que qualquer um sabendo o mínimo de uma língua está apto a traduzir e que não há necessidade em formação acadêmica.

Existem poucos cursos de prestígio de letras e línguas focados para a formação de tradutores e intérpretes no Brasil. Atualmente eu poderia citar a UNESP, Mackenzie, Anhanguera e IF-SC. Em compensação um país como a Espanha (pequeno comparado conosco) tem mais de 15 universidades com cursos desse tipo.

Pode-se ver como o país valoriza a formação de profissionais qualificados, né? Com a imensa demanda por tradutores (somos xingados, mas PRECISAM de nós, YEAH!), qualquer um que saiba uma língua estrangeira razoavelmente bem e aceita uma miséria arruma trabalhos como tradutor e sai por aí fazendo merda. Sem preparo, sem experiência, sem entender a teoria, sem conhecimento, sem cultura. A coisa piora com línguas mais “exóticas”, onde é tão difícil achar alguém que se aceita qualquer coitado.

Por causa disso essa classe de profissionais é extremamente desrespeitada. Atualmente a coisa tem estado tão ruim, que professores universitários e profissionais preferem eles mesmos traduzir as obras que usam ou gostam, criando um nicho de boas traduções que se separam da merda genérica.

Já houve um tempo onde a maioria dos tradutores eram autores literários e pessoas capacitadas profissionalmente, onde se podia confiar no que se lia. Hoje em dia o que mais chove é reclamação e coisas ridiculamente traduzidas. Quem nunca viu um erro em mangá? Em livro? Em filme? Em sites?

Enquanto aqueles que consumem não derem a mínima, a coisa vai continuar de ruim para pior. Quem sabe um dia muda…

Este texto foi feito por Allena, Silphy e Bananey.

Mie “Silphy” Ishii é estudante do curso de Tradução na Universidade Estadual de São Paulo – UNESP. Atualmente estuda ou sabe latim, português, inglês, italiano, francês e japonês. Mie traduz por hobby desde 2007 e em 2009 começou a trabalhar para a NewPop editora, já tendo feito Dororo, Figure Maker, Blood Honey, Hetalia 2 e Drug-On. O sonho-meta da Mie é dominar o mundo editorial brasileiro.

Caio “Bananey” Bonatti é também aluno do curso de Tradução da UNESP, atualmente no último-mas-nem-tão-último-assim ano. É tradutor de inglês e italiano e diz ele que tem noções básicas de francês, espanhol, alemão e quenya (élfico, motherfucker!). Traduziu alguns textos não-profissionalmente, com destaque para tradução literária, inclusive poemas. Sua meta é ser o primeiro tradutor zumbi do planeta, oh wait… isso já existe.

Allena é estudante fantasma do curso de Linguística na Unicamp (mas já fez matéria de tudo, Miss curriculum inútil). É uma chata resenhista do JBox. Traduz desde 2006 a caráter informal. Atualmente estuda(ou) várias línguas. Seu sonho secreto-revelado é se juntar às mulheres-bombas mulçumanas e explodir uma certa editora e fazer pelo menos um ano de todas as línguas que encontrar pela frente.

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