Otaku Neoclássico #5: Suzumiya Haruhi no Shoshitsu

Um anime que divide opiniões.

Falar de qualquer coisa relacionada à franquia Suzumiya Haruhi é pisar num campo minado. Enquanto de um lado temos uma legião de fãs das histórias do S.O.S. Dan, do outro temos um número tão grande quanto de pessoas que odeiam a série por N motivos, a maioria deles relacionados à protagonista titular. Entretanto, Suzumiya Haruhi no Shoshitsu, a adaptação da light novel homônima, pode inverter os papéis, desagradando muitos fãs e agradando àqueles que não gostavam do anime.

Lançado em 27 de Dezembro de 2003, o quarto volume da série de Light Novels escrita por Nagaru Tanigawa (que não tem nenhum trabalho muito relevante além de Haruhi) e ilustrada por Noizi Ito (que também ilustrou a série Shakugan no Shana) conta os eventos de uma semana antes do natal durante a qual Kyon subitamente se vê num mundo onde a onipotente líder do S.O.S. Dan deixou de existir e ninguém o conhece. Ele começa então uma busca frenética à procura de respostas para o que causou o misterioso Desparecimento de Haruhi Suzumiya.

Enquanto Suzumiya Haruhi é desde o começo da série a personagem central, a mais popular sempre foi Nagato Yuki e os motivos para isso são bem óbvios (só seriam mais se de repente ela começasse a pilotar mechas…). Os fãs sempre pediram que fosse dado mais destaque a ela e assim surgiu a novel que deu origem à melhor animação inspirada na franquia até o momento. É extremamente fácil notar as diferenças entre esse filme e as duas temporadas do anime, mas explicitarei as principais mais a frente.

Tecnicamente falando, esse filme possui uma qualidade acima da média mesmo para os padrões de 2010, o ano de seu lançamento. A animação é, no mínimo, belíssima. A fluidez dos movimentos é realmente excepcional e o brilho utilizado nas imagens dá a tudo um toque especial. A trilha sonora se funde perfeitamente com o que é mostrado na tela e logo os espectadores podem começar a sentir que também eles estão num dia frio de inverno. Esse clima frio, por sinal, é outro grande trunfo da animação. Tudo é extremamente silencioso, lento, tranquilo, como a própria neve – ou em japonês, Yuki. Claro nada disso significaria muita coisa se o enredo fosse tolo ou falho, mas, felizmente, ele não o é.

Uma coisa que admiro na direção de Takemoto Yasuhiro (Lucky Star, Suzumiya Haruhi no Yuutsu, Fullmetal Panic? Fumoffu) é a capacidade por ele demonstrada de transmitir o interior das personagens através de imagens. Enquanto as duas temporadas do anime (Suzumiya Haruhi  no Yuuutsu e Suzumiya Haruhi no Yuutsu 2009) tinham um clima apressado e insano como a personalidade da protagonista Suzumiya Haruhi, essa animação carrega a essência das duas personagens mais interessantes da franquia: Kyon e Nagato Yuki.

A todo o momento as imagens mostradas colocam em xeque as reclamações de Kyon sobre o mundo onde ele tinha de conviver com o S.O.S. Dan. Ele sempre pediu para que o grupo deixasse de existir, porém, no momento em que isso aconteceu, ele se desesperou e foi atrás de um modo de recuperar o antigo mundo.

Entretanto, nessa busca ele encontra uma Nagato tornada numa garota que representava tudo que ele dizia querer da vida. E assim se forma o conflito interno do protagonista. Retornar ao mundo “normal” significaria destruir a nova Nagato e ficar no mundo “sem Haruhi” o forçaria a continuar numa existência comum e entediante.

Esse mesmo dilema sobre o “especial” e o “comum” foi trabalhado no epílogo de Kara no Kyoukai de um modo muito mais aprofundado embora menos compreensível. É o desejo de cada pessoa de se tornar famoso, conhecido, e o medo de que essa fama destrua os momentos tranquilos da vida.

A grande pergunta que esse filme nos faz é se queremos realmente viver nossas vidas comuns ou se desejamos nos tornar especiais. A resposta pode desagradar a muitos e agradar a muitos outros, pois, num novo paralelo, é o oposto da mostrada por Kinoko Nasu. Temos uma coroação do que foi mostrado na série, uma verdadeira homenagem às atitudes insanas e ao modo de vida despreocupado e despretensioso. Não posso deixar de sentir que Tanigawa nunca pretendeu terminar Haruhi ali, afinal, essa é sua série mais lucrativa e encerrá-la de um modo tão melancólico e realista seria uma atitude ousada demais para ele.

Algumas das sequências utilizadas para contar a história são sinceramente geniais – a dos presentes na sala do S.O.S. Dan e o encontro sobre o telhado em especial foram levados de uma maneira que só posso chamar de soberbas. A obra, entretanto, não é perfeita e em determinados momentos começa a se tornar arrastada. O filme tem quase três horas e mesmo que para alguns a própria lentidão com que a trama se desenrola seja uma metáfora, para a grande maioria será difícil suportar tanta melancolia e um desenvolvimento tão vagaroso. Não só isso, mas quando Kyon reencontra Haruhi o espectador é atirado de volta ao clima apressado da série de televisão. É um contraste interessante, mas que nem por isso deixa de quebrar a beleza do que estava sendo feito até então.

No final, Shoshitsu como um todo passa uma sensação de que um pouco mais de ousadia poderia tornar toda a franquia algo incrivelmente bom. Não vou dizer que não é divertida, porém poderia ser ainda melhor.

Chega a ser desnecessário dizer que o filme foi um grande sucesso tanto nos cinemas quanto em home-video. Os ganhos da Kyoto Animation foram enormes e fizeram com que por muito tempo especulassem se haveria uma terceira temporada para a série de TV, entretanto após os recentes “escândalos” envolvendo a seyuu de Haruhi, Hirano Aya, as possibilidades de isso ocorrer caíram muito. O que não chega a ser de todo mal, pois seria uma honra para qualquer série encerrar sua história com uma animação de tamanha qualidade.

Suzumiya Haruhi no Shoushitsu é a prova de (quase) qualquer história pode se tornar uma obra prima quando bem dirigida. Para os fãs da franquia, vale ver um novo lado das personagens e para os que não gostam dela, vale como um filme solo. Talvez não funcione tão bem para aqueles que não gostaram do anime pois a identificação com o protagonista é necessária para a experiência, mas sem dúvidas é um filme que de um jeito ou de outro merece ser assistido, nem que pela beleza visual. Pode até ser uma animação puramente comercial, porém é uma ótima animação comercial.

Título: Gekijōban: Suzumiya Haruhi no Shoshitsu
Estúdio:
Kyoto Animation
Gênero:
Drama, Aventura, Ficção Científica
Direção:
Ishihara Tatsuya, Takemoto Yasuhiro
Duração:
160m

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