Otaku Neoclássico #7: Steins;Gate

Como fazer uma ótima adaptação de Visual Novel.

Há duas semanas falei sobre a dificuldade em se adaptar uma Visual Novel devido à amplitude da narrativa desses jogos. Pois bem, dessa vez falarei de uma das ­– se não A – melhor adaptação de um jogo desse gênero para animação: Steins;Gate.

Criado como a segunda parte da trilogia de Aventuras Científicas da 5pb e Nitroplus, Steins;Gate se passa na cidade de Akihabara e centra a narrativa no autoproclamado cientista maluco (Mad Scienstist no original, pronunciado com a pior aproximação silábica possível) Okabe Rintarou. Ele é o líder do Laboratório de Aparelhos Futurísticos cujo objetivo – em tese – é criar algo que possa desestabilizar completamente a estrutura de governo da sociedade, mas que na prática serve apenas como clube de encontro para os Membros do Laboratório (Lab Members no original). Junto a ele, inicialmente, estão a colegial tão fofa quanto tapada Maruri Shiina e o Super Hacker Hashida “Daru” Itaru.

Enquanto testa sua nova criação, o Telefone Microondas (uma mistura de celular com microondas que ele acredita ser um teletransportador), Okabe decide ir a uma palestra sobre viagem no tempo. Lá ele vê a cientista prodígio Makise “Christina” Kurisu caída numa poça de sangue, o que acaba por cancelar o evento no qual se daria o seminário. Entretanto, logo ele reencontra Kurisu ainda viva e então descobre que o Telefone Micro-ondas é, na realidade, um aparelho capaz de enviar mensagens para o passado. Começam aí as pesquisas da máquina do tempo e a jornada do Cientista Maluco numa trama arriscada.

Existem muitas histórias de viagem no tempo por aí, mesmo no universo da animação japonesa (o excelente The Girl Who Leapt Through Time de Mamoru Hosoda é um bom exemplo), tantos de fato que é difícil imaginar uma trama que utilize o conceito do subgênero sem cair demais em seus chavões. O que fazer então para criar uma obra original que trate do assunto? Para 5pb e Nitroplus a resposta era simples: investir nas personagens.

Visual Novels geralmente contam com personagens bem trabalhados (exceto algumas aberrações como Moero Downhill Night), porém nesse caso o cuidado foi todo redobrado. Tanto no anime quanto na novel, as personagens são o foco da trama e o fator que impele o espectador a continuar acompanhando o desenrolar da trama. O roteiro em si é bem feito e talvez funcionasse sem suas protagonistas, mas se assim fosse não teria conquistado tanto sucesso quanto conquistou.

Omaior expoente dessa preocupação é o herói da vez, Okabe Rintarou. Sua personalidade apresenta sinais de esquizofrenia e suas atitudes em geral podem ser consideradas estúpidas, entretanto nada disso é mais que uma máscara que protege o verdadeiro Okabe – um jovem gentil e altruísta, capaz de fazer tudo pelos amigos. Todos os fãs da série com quem conversei concordam com um fato: Steins;Gate seria extremamente passável não fosse o Mad Scientist. A maneira como a personagem é moldada pela situação chega a ser desesperadora em alguns momentos, o que permite que o estigma causado pela repetição de uma situação já usada num anime desse ano seja superado (sinto muito Homura, mas o Okarin é melhor que você).

A comédia é outro fator de extrema importância, em especial no primeiro arco do enredo. Ela é utilizada para lentamente – lentamente até demais, de fato – apresentar as personagens, fazendo com que o espectador crie uma identificação com eles, aumentando desse modo o choque causado pela eventual mudança de tom da série. E esse é o principal ponto de ruptura entre aqueles que acompanharam Steins;Gate.

Enquanto muitos  criticaram a súbita mudança de ritmo sofrida pelo anime em sua metade, apontando-a como um erro, pois jogava fora a comédia que até então era o pilar central da série. Outros elogiaram a decisão devido ao grande crescimento de personagens e roteiro que teve de ocorrer para que o todo fosse destruído pela troca de estilos. Seja por um lado ou pelo outro, é inegável que a transição do controle de direção de Satou Takuya (Street Fighter II V, Fate/Stay Night) e Hamasaki Hiroshi (Aoi Bongaku, Bio Hunter) realmente transformou a série. Os dois atos ­– a comédia e a tragédia – são quase como duas obras distintas, tamanha a diferença de ritmo entre eles. Se a primeira parte é Dragon Ball Z, a segunda é Tengen Toppa Gurren Lagann.

Tecnicamente falando, a animação ficou muito boa para uma série de TV de 24 episódios, o que se torna ainda mais impressionante quando se considera que esse é apenas o terceiro grande trabalho do estúdio White Fox (os outros dois são o passável Tears to Tiara e o criativo Katanagatari). Há diversas cenas paradas ao longo dos episódios, porém elas são compensadas pelo bom uso da iluminação e das cores de modo que não prejudicam o resultado final.

Os character designs ligeiramente diferentes daqueles do jogo ficaram por conta de Sakai Kyuuta (Strawberry Panic, Higurashi no Naku Koro ni) e apresentam uma boa variedade, apesar de alguns detalhes estranhos. A trilha sonora funciona bem, entretanto não ganha muito destaque, exceto pelo genial uso de uma música no lugar do fechamento de um episódio em especial. Sem dúvidas uma maneira criativa de se criar um clima tenso.

Steins;Gate se tornou um sucesso no Japão desde o lançamento do jogo em 2009, entretanto, como era de se esperar, a exibição do anime acarretou numa explosão de popularidade da franquia. Outro fator que ajudou para que a história do cientista maluco que de repente descobre uma máquina do tempo caísse nas graças do povo foram os diversos easter eggs e referencias reais nela colocadas. O John Titor citado na série, por exemplo, foi baseado num usuário real que postou mensagens sobre um futuro distópico e fotos de uma suposta máquina do tempo em diversos fóruns internet afora e que, assim como no anime, dizia precisar de um computador raro (um IBM 5100) para salvar o mundo. Some isso à natural curiosidade pública e temos um fenômeno similar àquele gerado pelo enigma do Mew em Pokémon Red Version e Green Version.

Até mesmo as teorias físicas utilizadas como base para a viagem no tempo são reais, embora apresentem uma ou duas inconsistências (alguém poderia me explicar como uma TV de Plasma poderia servir de acelerador de partículas?). E ainda há as diversas referências a outras histórias de viagem no tempo como De Volta para o Futuro, Exterminador do Futuro e Efeito Borboleta. Sem dúvidas um prazer a mais para os fãs de ficção científica.

Com um dos protagonistas mais icônicos dos últimos tempos, um roteiro bem pensado e funcional e uma execução elogiável, Steins;Gate merece ser assistido por todo entusiasta de animes, pois mesmo que a história não agrade, a série ainda vale por demonstrar como é possível fazer uma adaptação bem feita de uma Visual Novel.

Num mercado onde tudo pode servir de base para um anime – até mesmo ilustrações – ver uma obra ser respeitada e bem tratada do modo que Steins;Gate foi é sempre um prazer.

E bem que alguns estúdios podiam pegar umas dicas com a White Fox, não concorda, Katsushi-san?

El Psy Congroo!

Título: Steins;Gate
Estúdio:
White Fox
Gênero:
Suspense, Comédia, Drama, Ficção Científica
Direção:
Satou Takuya, Hamasaki Hiroshi
Número de Episódios:
24

Lista de Episódios
01- Prologue to the Beginning and End
02- Time Travel Paranoia
03- Parallel Process Paranoia
04- Interpreter Rendezvous
05- Starmine Rendezvous
06- Butterfly Effect`s Divergence
07- Divergence Singularity/
08- Chaos Theory Homeostasis [Mugen no Homeostasis]
09- Chaos Theory Homeostasis [Gensou no Homeostasis]
10- Chaos Theory Homeostasis [Sousai no Homeostasis]
11-  Dogma in Event Horizon
12- Dogma in Ergosphere
13- Metaphysics Necrosis
14- Physically Necrosis
15- Missing Link Necrosis
16- Sacrificial Necrosis
17- Made in Complex
18- Fractal Androgynous
19- Endless Apoptosis
20- Finalize Apoptosis
21- Melt of the Principle of Causality
22- Being Meltdown
23- Steins Gate Boundary
24- Prologue to the End and the Beginning

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