Otaku Neoclássico #9: Puella Magi Madoka Magica

Desconstruindo o gênero Mahou Shoujo.

Na década de 1990, uma japonesa até então pouco conhecida criou uma franquia creditada como aquela que redefiniu todo o gênero Mahou Shoujo (Garota Mágica). Naturalmente estou falando de Naoko Takeuchi e sua obra máxima: Sailor Moon. Desde o lançamento da franquia das marinheiras, o Mahou Shoujo caiu no gosto popular e se tornou um foco importante da cultura moe (algo que muitos consideram uma perversão da obra de Takeuchi. Mas deixemos isso de lado). E em 2011 surgiu um anime o qual muitos creditam como a grande desconstrução do poderoso gênero Mahou Shoujo: Puella Magi Madoka Magica.

A animação original do estúdio Shaft (Bakemonogatari, Hidamari Sketch, Arakawa Under the Bridge) foi escrita por Gen Urobochi (mais conhecido por seus trabalhos com novels como Fate/Zero e Saya no Uta) e conta a história de Madoka Kaname, uma estudante normal que um dia encontra uma criatura chamada Kyubey que a oferece o poder para se tornar uma Garota Mágica caso ela aceite formar um contrato com ele. Pouco a pouco, entretanto, ela descobre que o mundo das Garotas Mágicas não é apenas fantasia e beleza.

Gen Urobochi é o tipo de escritor que torna toda a obra em que trabalha tão depressiva e absurda quanto possível. A influência de H. P. Lovecraft nos trabalhos dele é clara tanto em suas criaturas disformes e horrendas quanto no desenvolvimento pessimista de suas tramas. Madoka não é diferente. As Bruxas – as criaturas que devem ser caçadas pelas Garotas Mágicas – não possuem uma forma compreensível, assim como seus mundos (dos quais falarei mais adiante) e, conforme o enredo vai avançando, tudo vai gradualmente caminhando para um lado mais e mais sombrio, algo anunciado desde a – genial – introdução do primeiro episódio, porém elevado a uma escala muito maior com o tempo.

Após o terceiro episódio do anime, Urobochi chegou a postar um comentário se desculpando com os fãs por tê-los enganado com toda a promoção da obra como algo leve e descompromissado. Isso vindo de um homem que escreveu uma mensagem lamentando não conseguir escrever histórias felizes. Lovecraft se orgulharia.

No quesito técnico, tudo o que pode ser dito é que o Shaft se superou. Não apenas a animação da série é extremamente constante e bem feita, mas todas as categorias visuais geralmente negligenciadas num anime são bem cuidadas em Madoka Magica. A fotografia em especial é genial. A iluminação utilizada, os cenários, os ângulos, as cores, absolutamente tudo que está presente na tela se funde para dar o tom de cada cena. Cada frame é uma demonstração do cuidado que esse anime sofreu para ser entregue, algo extremamente raro em animações para a televisão.

Mas o grande troféu é, sem dúvidas, dos mundos das Bruxas. Cada um deles representa claramente o universo interno da criatura que o rege (os computadores para a garota hikkikomori, os doces para aquela eu adorava comer). Em todos há referências à grandes obras como Guernica, mitos da humanidade ou ainda evocam técnicas artísticas. O uso das cores, formas e figuras nesses cenários é um dos mais originais que já vi em um anime (o que aparece no sétimo episódio é meu favorito pelo uso do preto e branco).

A trilha sonora ficou a cargo de ninguém menos que Yuki Kajiura (Kara no Kyoukai, Mai-HIme, Le Portrait de Petit Cossette) e todo o estilo da compositora pode ser visto ao longo da série. Dos cânticos femininos onipresentes do tema principial “Sis Puella Magica!” aos instrumentais sombrios de “Incertus”. Os vocais femininos, aliás, carregam toda a força das cenas, como em “Credens Justitiam”, música tema de Tomoe Mami – um verdadeiro hino de glória.

A fusão entre a música clássica e a balada moderna tão temática a Kajiura aqui se transforma no elemento que liga as garotas comuns ao mundo da magia que às vezes as alegra, porém sempre as atira na sombra. Infelizmente há certa repetição de temas – a introdução de “Sis Puella Magica!”, por exemplo, é indiscernível daquela de algumas músicas da trilha sonora de Kara no Kyoukai e a semelhança entre “Clementia” e algumas trilhas de Mai-Hime é mais que mera coincidência. Talvez esse não seja o melhor trabalho de Kajiura como compositora, porém em nenhum momento se torna ruim e denigre a obra de que faz parte, muito pelo contrário.

Nada disso, porém, significaria algo se a direção não fosse competente. Felizmente, o trabalho colaborativo do novato Miyamoto Yukihiro (Maria Holic, Zan Sayonara Zetsubou Sensei, Arakawa Under the Bridge) e do veterano Shinbou Akiyuki (Le Portrait de Petit Cossete, Mahou Shoujo Lyrical Nanoha, Negima!?), que já haviam trabalhado juntos algumas vezes, é extremamente funcional. As cenas são milimetricamente calculadas para causarem o efeito desejado. Eles souberam fazer tudo parecer sombrio nas passagens depressivas e perigoso nas cenas de ação.

O ritmo do anime em geral é ótimo, porém o ápice é o décimo episódio, talvez o melhor de toda a série. O trabalho dos dois não foi perfeito e nem precisava ser, o roteiro por si só conseguiria se sustentar mesmo com um diretor menos competente, entretanto é ótimo que bons profissionais tenham ficado com Madoka.

A recepção geral do anime foi bem dividida. Durante os dois primeiros episódios, a série foi criticada como apenas mais um anime sem personalidade. Nesse período, ela rapidamente caiu nas graças do público otaku azul, porém, no final do terceiro episódio, o caso se inverteu. O momento em que o fechamento da série foi revelado (Magia, do grupo Kalafina) as críticas dos que outrora apoiavam a série foram duras, enquanto os elogios começaram da outra metade da cena otaku.

Quando o ultimo capítulo de Madoka Magica finalmente foi exibido (os dois últimos capítulos tiveram de ser adiados devido ao terremoto que atingiu o Japão e só foram exibidos – ironicamente – no feriado da Sexta-feira da Paixão) muitos foram os que apedrejaram a série por se apoiar no fator de choque. Diversas comparações foram feitas com Princess Tutu, dizendo que ambas as obras traziam a mesma proposta – o que não é necessariamente verdade, posto que Princess Tutu se aproxima mais de uma desconstrução dos contos de fada de que do Mahou Shoujo. E mesmo que a proposta seja a mesma, ninguém pode dizer que isso é um demérito. A proposta de One Piece é a mesma de Dragon Ball, e ambos são um sucesso gigantesco – o primeiro até mais que o segundo no Japão.

Madoka Magica ganhou diversos prêmios, dentre eles doze dos vinte e um troféus do primeiro Newtype Anime Awards, incluindo Personagem Mascote (Kyubey), Trilha Sonora (Yuki Kajiura), Música Tema (Connect), Personagem Feminino (Akemi Homura), Design de Personagens, Fotografia, Arte, Universo e Título do Ano (para quem quiser saber, Steins;Gate levou o melhor personagem masculino e Melhor Dublador, ambos graças a Okabe Rintarou).

Não se pode negar que Puella Magi Madoka Magia é um grande anime. O enredo é fechado, a arte é original e a trilha sonora é grandiosa (ainda hei de ver Yuki Kajiura compondo para um anime de Tsukihime). Naturalmente, sendo uma obra tão crítica e metalinguística quanto é, ela não irá agradar a todos, em especial àqueles que gostam do gênero Mahou Shoujo como ele foi definido por séries como Sakura Card Captors e Mahou Shoujo Lyrical Nanoha. De um modo ou de outro, a mensagem foi dada, basta saber se irá funcionar.

Será que surgirá uma nova tendência para as séries de Garotas Mágicas?

Título: Puella Magi Madoka Magica/ Mahou Shoujo Madoka Magica
Estúdio: 
Shaft
Gênero: 
Mahou Shoujo, Fantasia, Drama
Direção: Shinbou Akiyuki, Miyamoto Yukihiro
Número de Episódios: 12

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