Otaku Neoclássico #11: Shingetsutan Tsukihime

A dificuldade em adaptar Visual Novels…

Já falei algumas outras vezes de como é difícil adaptar uma Visual Novel para anime devido à estrutura inerente desses jogos. Porém, mesmo entre esse gênero tão problemático, existe uma empresa cujos jogos são especialmente difíceis de adaptar. Falo da Type-Moon, fundada por Kinoko Nasu e Takeuchi Takashi, e conhecida por obras como Kara no Kyoukai, toda a franquia Fate e pelo assunto de hoje: Tsukihime, que como anime recebeu o título de Shingetsutan Tsukihime (Verdadeiro Conto Lunar: Tsukihime).

A trama gira em torno de Tohno Shiki, um garoto que, após sofrer um acidente, adquiriu a habilidade de ver a morte de todas as coisas. Por alguma razão, depois do acidente, Shiki é mandado para casa de seus parentes. Oito anos depois seu pai morre e sua irmã mais nova pede que ele retorne para seu antigo lar. Com dificuldades de se adaptar à nova vida e com uma onda de estranhos assassinatos ocorrendo na cidade, Shiki acaba matando uma estranha mulher.

Ao acordar em seu quarto na mansão, ele acredita que tudo não passou de um sonho. Entretanto a mulher que achava ter matado reaparece. Seu nome é Arcueid Brunestud, uma vampira que exige a ajuda de Shiki para enfrentar a criatura que está cometendo os assassinatos em série. A partir daí, ele vê sua vida normal mudar drasticamente enquanto mergulha num mistério que envolve ele mesmo e todo o passado da família Tohno.

Analisar Shingetsutan Tsukihime é algo difícil, em especial para aqueles que conhecem o material original. Como adaptação, o anime é, possivelmente, uma das piores já feitas em toda a história da indústria da animação japonesa, chegando ao ponto dos fãs negarem sua existência. E muito disso é merecido. Com apenas doze episódios para adaptar uma das Visual Novels mais densas já feitas, o estúdio J. C. Staff (Shakugan no Shana, Excel Saga, To Aru Majutsu no Index) optou por omitir todo o conteúdo fora da rota principal do jogo. Com isso, teve de tirar diversos aspectos importantes da trama como o passado das empregadas da família Tohno, Hisui e Kohaku, e toda a ambientação da irmã de Shiki, Akiha.

Não bastasse isso, o baixo investimento feito na obra custou muito, pois diversas cenas foram cortadas ou simplificadas (até hoje espero ver uma versão animada de uma das melhores lutas do Nasuverso, o embate entre Shiki e Nero), omitindo ainda mais fatos importantes e revelações, descaracterizando personagens e ideias e, de certo modo, mudando boa parte da essência sobrenatural da obra.

A escolha de vozes é outro fator muito criticado pelos fãs (como não chamaram o Nakata Jouji para dublar o Nero?), visto que essa difere muito da personalidade passada pelas personagens do jogo. Vários erros relativos ao universo também ocorrem, alguns deles criando enormes discrepâncias com o que será mostrado nos últimos episódios da animação.

Mas o anime é tão ruim assim? Na verdade, não.

O Nasuverso (termo usado para se referir ao universo ficcional onde se passa a maioria das obras da Type-Moon) é, essencialmente, filosófico e conceitual tornando-se assim de difícil digestão para grande parte do público. A maneira como alguns temas são abordados incomoda a muitos pela visão de mundo cínica e ao mesmo tempo idealista do autor.
Nesse ponto, Shingetsutan Tsukihime leva uma grande vantagem no fator aceitação em relação a sua contraparte.

Simplificando a complexa trama de Tsukihime, o anime permite que mesmo pessoas que desconhecem a obra original entendam o que se passa. Há também uma maior humanização das personagens. Enquanto na Visual Novel Shiki possui habilidades físicas sobre-humanas que lhe permitem enfrentar os vampiros de igual para igual, na série animada ele é apenas um adolescente normal como tantos outros, porém com uma habilidade capaz de matar monstros que de outro modo seriam invencíveis.

Ciel e Arcueid, duas personagens cujas habilidades na obra original são equiparáveis àquelas dos Espíritos Heróicos de Fate, tornam-se muito mais próximas dos seres humanos e mesmo criaturas essencialmente metafísicas como Nero, uma entidade formada pelas vidas fundidas de seiscentas e sessenta e seis criaturas, torna-se mais aceitável na série. Todo o cenário torna-se assim mais próximo da realidade cotidiana.

O clima de suspense que impera por toda a série também é um de seus pontos altos. Por mais que eu critique o diretor Katsushi Sakurabi (do também criticado Melody of Oblivion) pela péssima adaptação das personagens, sou obrigado a parabenizá-lo pela atmosfera criada ao redor da série. Todos os mistérios que cercam a trama são engrandecidos pela maneira enigmática como Katsushi a guia. Muito pouco é revelado pelas falas, enquanto muito é dito pelas imagens.

Os dias na série parecem alegres e cheios de vida, mas quando a lua aparece e a escuridão domina, tudo parece se transformar. Esse contraste entre o território dos humanos e o território do sobrenatural é, de longe, o maior acréscimo à trama original. Exceto pela trilha sonora, mas falemos disso depois.

O maior defeito da série, porém, está justamente em ser misteriosa e cadenciada demais. Para um público acostumado com tramas rápidas e explicações explícitas, um anime como Shingetsutan Tsukihime torna-se rapidamente enfadonho.

Há poucas cenas de ação e nenhuma delas é especialmente excitante fora de seu contexto. Devido a isso, não são muitas as pessoas que assistem à série uma segunda vez, visto que ela se sustenta em seus mistérios e, uma vez esses revelados, o todo perde muito de sua qualidade. Um pouco triste para uma trama com tanto potencial.

A trilha sonora do jogo foi composta por Keita Haga, e, diferentemente de suas trilhas para a Visual Novel Fate/Stay Night, em Tsukihime a música era um fator muito pouco memorável. Ever After é a melhor música de toda a OST do jogo e uma das poucas que valem nota. A trilha sonora do anime, porém, é uma das melhores que tive a oportunidade de ouvir. Composta por Toshiyuki O’omori (Shaman King, Amagami SS) e dividida em dois CDs, Moonlit Memoirs e Moonlit Archives, a OST consegue ser leve quando necessária sem jamais deixar de ser misteriosa. “Haunting” carrega um peso sobrenatural e opressivo, passando uma sensação incômoda de que há algo se aproximando, “Justice” é urgente e ameaçadora e “Iza-Yoi”, com sua mistura elegante de piano e violino atinge toda a tristeza cravada na alma da história, arrancando-a e mostrando que Shingetsutan Tsukihime não é uma história feliz. Porém, o grande destaque vai para a abertura “The Sacred Moon”. Cantada em coro, a música cresce lentamente até atingir seu ápice e, assim como a série, revela todos os mistérios ocultos, prendendo o espectador – ou ouvinte – na cadeira, ansioso para chegar ao final que eventualmente chega silencioso, fatal. O fim anunciado para a princesa desde sua queda é inevitável, desde sua abertura a série se revela por completo e não mente em nenhum momento.

A animação não se destaca das outras séries lançadas no mesmo ano, porém o traço é bonito e, até certo ponto, adulto. A fotografia é agradável e muito superior àquela de muitas séries, um ótimo trabalho de Jiro Tazawa (que aqui trabalha de forma muito similar à Wolf’s Rain). Luz e sombras também são muito bem utilizadas aqui, renovando o contraste entre “aquilo que pertence à luz” e “aquilo que pertence à escuridão”.


A série conquistou reconhecimento para a Type-Moon e permitiu que, no ano seguinte, o lançamento de sua segunda Visual Novel, Fate/Stay Night, se tornasse um sucesso que gravou de vez o nome da empresa na indústria de entretenimento atual.

No Brasil, a série foi exibida pelo falecido Animax (que também exibiu Fate/Stay Night) na sua “invasão anime” e dublada pela Álamo. Não chegou a alcançar todo o sucesso esperado, porém abriu caminho para o fandom do Nasuverso se formar no país.

Shingetsutan Tsukihime é, essencialmente, uma obra triste. Diferente da obra que lhe originou, o anime não sofre com a obrigação da continuidade e por isso pode se permitir ser mais trágico. Deixando de ser épico, torna-se humano, deixando de ser poderoso, torna-se elegante. Mistério, tragédia e romance se fundem para criar uma história de amor gótica entre um humano e um imortal. Se você está atrás de uma série de ação ou aventura fique longe, porém, se o que deseja é um mistério intrigante e personagens humanos, então esse conto é para você.

Título: Shingetsutan Tsukihime
Estúdio: J. C. Staff
Gênero: Drama, Suspense, Romnce
Direção: Katsushi Sakurabi
Número de Episódios: 12

P.S: Eu ainda espero um anime de Tsukihime pela Ufotable com trilha sonora da Yuki Kajiura.

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