Otaku Neoclássico #17: Ga-Rei Zero

Quando um anime é superior ao mangá que o inspirou.

Antes de mais nada, gostaria de me desculpar por não ter publicado nada na última quinzena.  Motivos além do meu controle me impediram. Não que eu ache que alguém realmente se importe, mas sabe como é, né? Enfim…

“Você mataria alguém que ama por amor?”

Com essa frase, começo a falar de Ga-Rei Zero, adaptação de um arco abandonado do mangá Ga-Rei de Hajime Segawa (publicado pela JBC e cujo último volume saiu esse mês). A história gira em torno da relação entre Yomi Isayama e Kagura Tsuchimiya, duas exorcistas do Ministério do Meio Ambiente Japonês, cujas vidas mudam drasticamente com o surgimento de uma grande ameaça.

Primeiramente, devo dizer que existe uma enorme diferença entre o mangá Ga-rei e o anime Ga-Rei Zero. O primeiro é, essencialmente, um típico Shonen. Temos o protagonista com poder de ver espíritos e que de repente se encontra com uma que trabalha os exorcizando (qualquer semelhança com um certo mangá da Shonen Jump é mera coincidência) e que a partir daí começa a viver as típicas aventuras e batalhas que todos que já leram ao menos uma série do gênero sabem que iriam acontecer. O anime, porém, é um Seinen e por isso muito mais sério e violento. Até mesmo o fanservice tão característico do mangá foi drasticamente reduzido para acomodar um novo público alvo. Esclarecido isso, vamos à série.

Existe algo de muito especial num anime sobre o qual se deve tomar cuidado ao se falar do primeiro episódio para não dar spoilers. Ga-Rei Zero foi dirigido por Ei Aoki (Kara no Kyoukai: Fukan Fukei, Fate/Zero) que faz aqui o que melhor sabe: dirigir cenas de ação. Os combates que permeiam e dão ritmo à série são sempre fluídos, brutais, ágeis como se cada golpe fosse mortal, como se cada movimento fosse decisivo, algo muito incomum nos nossos tempos de piratas-robôs e meninos-raposa.

Não bastasse isso, a habilidade do diretor em criar tensão é posta em prática desde o começo do anime, acertando onde o mangá erra e extraindo o máximo do potencial do universo de Ga-Rei. Há falhas de direção? Há. Algumas sequências não funcionam e as convenções do mercado acabam gerando algumas cenas que podem parecer gratuitas. Mas nada disso é bastante para estragar o trabalho bem feito no resto da série.

O grande momento de Ga-Rei Zero, ainda assim, é seu impressionante primeiro episódio. Trata-se de longe do melhor episódio inicial que já vi num anime e razão pela qual Ei Aoki foi escolhido para dirigir o primeiro filme de Kara no Kyoukai, embora nesse ele não tenha conseguido criar algo tão impactante (o que é uma pena).

Claro que nenhum anime conseguiria ser tão intenso se não tivesse uma trilha sonora convincente. O trabalho de Noriyasu Agematsu cria uma atmosfera sombria ao redor da série quando é preciso e leve quando o roteiro assim exige.  As cenas de ação são contadas através de acordes rápidos, enquanto um piano perturbador adiciona um peso terrível às cenas mais dramáticas ou surpreendentes. Não é a toa que os dois ápices da série ganham vida através de músicas, a agitada Dark Side of The Light, da cantora Faylan, e Ai ~Kagura~, composta por Agematsu, e da qual eu prefiro não falar mais para evitar spoilers.

Outro ponto interessante na série são os temas que ela escolhe trabalhar. Lembram-se da frase que citei no começo?, “Você mataria alguém que ama por amor?”. Pois bem, esse é o eixo central de Ga-Rei Zero. O amor é questionado todo o tempo e analisado em várias facetas. Temos a relação fraternal entre Yomi e Kagura (apesar do innuendo lésbico entre ambas ser usado a todo o momento), o casamento arranjado que se desenvolve em romance entre Yomi e Noriyuki e diversas outras.

Essas relações entre personagens são aquilo que realmente dão a Ga-Rei Zero uma alma, tornando-o mais do que só um bom anime de ação e adicionando um grau de profundidade que a obra original não tinha. Não me entendam mal, Ga-Rei é um bom mangá, é só que Ga-Rei Zero é uma obra superior em todos os sentidos.

A série conseguiu sucesso o bastante no Japão para conseguir que uma personagem ressurgisse no mangá e garantir que o anime fosse lançado nos Estados Unidos pela FUNimation. No Brasil, o mangá vendeu bem para uma série pouco conhecida e pouco divulgada (eu mesmo o descobri por aqui), mas o anime dificilmente é visto fora das famosas lojinhas de DVDs para divulgação, se é que me entendem.

Num mercado onde as relações entre personagens ficam cada vez mais banalizadas, Ga-Rei Zero é uma ótima exceção que merece ser vista por essa e várias outras qualidades. Dêem uma chance ao universo das Feras Espectrais, não se arrependerão.

Título: Ga-Rei Zero
Estúdio: 
asread, AIC Spiritss
Direção: 
Ei Aoki
Número de Episódios:
 12

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