Otaku Neoclássico #18: Claymore

Violento, dramático, agitado e inteligente.

Todos que acessam o JBox sabem quão forte o mercado de mangás é no Japão, certo? Tão forte, de fato, que muitas vezes algumas séries são adaptadas em anime apenas para divulgarem a obra original e acabam não seguindo até o final da história (algo especialmente normal em títulos cujos capítulos são lançados mensalmente).  Um desses casos foi o de Claymore, nosso assunto de hoje.

Claymore é a adaptação do mangá homônimo de Norihiro Yagi, e conta a história de um mundo onde os humanos vivem aterrorizados por Yomas, demônios devoradores de homens capazes de se metamorfosear em formas humanas. Para enfrentar esse mal, as vilas contratam Claymores, mulheres meio-yoma capazes de localizar tais demônios. Clare é uma dessas mulheres e um dia, durante sua missão, ela conhece Raki, um garoto normal cujos pais foram mortos pelo Yoma que Clare foi contratada para eliminar. Eles então começam a viajar juntos e a descobrir os segredos do continente e da Organização, o misterioso grupo que controla as Claymores.

A animação ficou a cargo do estúdio MadHouse (acho que não preciso mais apresentá-lo, não é?), que fez um trabalho excepcional, mais uma vez. Paulo Felipe, em sua resenha para o site Animehaus, diz que assistir Claymore é “(…) como se você assistisse a um Wonderful Days, Kenshin OVA ou Mononoke Hime em 26 episódios”. Bem, há uma dose de exagero na comparação, mas ainda assim, a realidade é bem por aí mesmo. Chega a impressionar o nível de detalhamento colocado na movimentação, algo que eu vi poucas vezes num anime para TV, principalmente num de 2006.

Os combates são de tirar o fôlego, especialmente considerando a velocidade em que eles acontecem. O ritmo do anime é rápido, com muitos acontecimentos e revelações em poucos episódios, mas ainda assim sem se tornar apressado ou deixar pontos difíceis de entender – exceto no final, mas deixemos isso para depois. De todo modo, ponto para o diretor, Hiroyuki Tanaka, que estava pela primeira vez liderando o trabalho de direção de um anime.

Agora, nem mesmo o melhor diretor do mundo poderia salvar um roteiro fraco. Porém, Claymore não sofre desse mal. Quem conhece Berserk verá muitas homenagens à obra de Kentaro Miura, tantas de fato que algumas pessoas chegam a estranhar. Mas Claymore não sobrevive apenas dos fãs da série de Miura, tendo um elenco de personagens e uma trama interessantes e originais o suficiente para se tornar uma obra influente por si mesma.

Há muitos paralelos entre as duas, é claro, entretanto é difícil colocá-las lado a lado, pois as diferenças entre as obras superam as similaridades. Berserk é um Seinen, um título voltada para o público adulto, e tem um conteúdo pesado, enquanto Claymore é, apesar de todas as criaturas Lovecraftianas e dos desmembramentos, um Shonen, um mangá voltado para jovens. Compará-las é como querer comparar Kara no Kyoukai e Fate/Stay Night, que apesar de similares são completamente diferentes (e com isso me refiro às animações de ambos).

Deixando um pouco de lado esse ângulo e partindo para o que realmente é Claymore, devo dizer que, sendo um mangá que se sustenta em mistérios, o anime pode se tornar insatisfatório por um fator que eu mencionei no primeiro parágrafo. Lembram o que é? Infelizmente, ele termina com 26 episódios, enquanto o mangá continua sendo lançado até hoje. O último episódio termina com a conclusão do arco da Guerra no Norte, porém, nessa época, esse arco ainda não havia terminado no mangá. O resultado? A partir do capítulo 23, a série toma rumos próprios e cria uma conclusão que deixa várias questões em aberto e quebra um dos pontos mais importantes da trama.

Talvez mesmo isso tenha sido uma estratégia para tentar alavancar ainda mais o mangá, ou talvez não. É difícil dizer, já que o mesmo aconteceu com outros animes como BECK e Kaibutsu Oujo (ambos do MadHouse) e também em séries de outros estúdios, como Soul Eater (do Bones). Em nenhum dos casos que citei houve uma continuação para a animação (exceto por eventuais OAD, como no caso de Kaibutsu Oujo), o que é triste para os fãs dessas obras. Não só isso, mas chega a ser estranho que mangás populares (Claymore geralmente ficava bem nas Charts Japonesas) não sejam trabalhados enquanto animações inspiradas em ilustrações são lançadas em várias mídias ao mesmo tempo (sim, eu quero dizer exatamente isso que vocês estão pensando).

Voltando um pouco, eu disse que Claymore era um Shonen. De fato é, porém, diferente de outros Shonens, aqui não temos apenas o típico “proteja seus amigos e nunca desista” que se vê nas grandes obras do gênero. Toda a série (tanto anime quanto mangá) é uma análise sobre pessoas à beira de se perderem, pessoas que estão num estado onde sua humanidade desaparece.

Um ponto importante sobre as Claymores é que, ao usarem o poder de Yomas, elas se sentem “seduzidas” por ele. Quando estão prestes a perder o controle, as guerreiras devem escolher entre se transformar em Yomas ou enviar uma mensagem para que outra guerreira a mate. Essa visão sobre “antes morrer humano do que se transformar num monstro” já foi analisada muitas vezes na ficção (e até mesmo arranhada em Highschool of the Dead), mas aqui recebe um tratamento interessante: não é o esforço pessoal que salva da perdição, é a ajuda de outros que permite a vitória sobre si mesmo. Sem dar spoilers mas já dando, haverão casos na série (para quem ainda não a assistiu) em que personagens chegarão muito perto de se entregarem ao seu lado Yoma, e esse serão momento importantes na série.

Claymore atingiu um grande sucesso mundial, sendo lançado em várias línguas e conseguindo chegar até aqui, no Brasil (o mangá ao menos já que anime que é bom nada) pela Panini. Um game para Nintendo DS (nos moldes dos jogos da Shonen Jump) foi lançado em 2009, além de CDs de trilha sonora, figuras e mais tantas outras quinquilharias típicas (e bem maneiras @[email protected]) que são lançadas para gerar mais grana para as empresas.

Claymore é uma série bem executada e bem conceitualizada, trazendo novos aspectos e ideias, destacando-se do seu Shonen típico. Violento, dramático, agitado e inteligente, Claymore vale a pena para quem estiver disposto a explorar um mundo sombrio e desesperado repleto de monstros e manipulação.

Título: Claymore
Estúdio: 
MadHouse
Direção: 
Hiroyuki Tanaka
Número de Episódios:
 26

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