Otaku Neoclássico #19: Le Portrait de Petit Cossette

Mais que um anime, uma obra de arte.

Existem animes ruins, existem animes bons, existem animes excelentes, existem animes incríveis e existem obras de arte. Se me pedissem para colocar Le Portrait de Petit Cossette numa dessas categorias, sem dúvidas colocaria na última.  Continuem a ler se quiserem saber o porquê.

Le Portrait de Petit Cossette narra a história de Eiri Kurahashi, um estudante de artes que descobre o espírito de uma garota preso num cálice e por ela se apaixona. O amor pela garota, Cossette, vai levando-o pouco a pouco a despencar numa espiral de loucura e obsessão. Enquanto Eiri tenta salvar Cossette de sua maldição, as amigas do jovem tentam salvá-lo da destruição certa.

A série de três OVAs (animações lançadas direto para DVD, caso alguém não saiba) foi produzida pelo estúdio Aniplex (o mesmo de R.O.D. OVA e R.O.D. the TV). A direção ficou por conta de Akiyuki Shinbo e a trilha sonora é da compositora Yuki Kajiura. Outro fruto, mais recente, dessa parceria deve constar na mente mesmo dos mais esquecidos: Puella Magi Madoka Magica.

É engraçado quantos paralelos se pode traçar entre as duas obras. Ambas são histórias de alguém tomado pela obsessão de salvar outra pessoa, ambas são extremamente visuais e ousadas, ambas são horrores psicológicos e por aí vai. Mas isso não é surpresa, afinal, em uma entrevista, Gen Urobochi (o roteirista de Madoka Magica) citou Cossette como uma de suas principais fontes de inspiração para Madoka Magica.

Ao mesmo tempo em que são tão parecidas, as duas histórias também se diferem — e muito. Madoka Magica é, essencialmente, uma obra de intertextualidade de gênero, que se coloca dentro de toda uma tradição (a do Mahou Shoujo) e que a rompe, a desmembra, a distorce, a desfigura, a descontrói.

Sua ousadia e sua grandiosidade estão nesse ato de rompimento com o que se tinha até então. Daí muitos dizerem que Madoka Magica foi uma obra revolucionária (a despeito de muitos que apontam Princess Tutu como um rompimento anterior, mas não entremos no mérito da questão, por enquanto).

Cossette, porém, retém sua beleza em si mesmo. Não é necessário saber o que veio antes para entender a genialidade por trás dessa história. Se Madoka Magica é uma obra de rompimento, Cossette é de retomada. Mas não é uma retomada de nada já feito na indústria de animes, mas da literatura gótica, do terror espectral que permeia nossa cultura e atiça nossa imaginação desde a idade média.

Cossettepoderia muito bem ser um conto de Edgar Alan Poe (com as devidas adaptações, isso é). Todo seu clima remete ao gótico e ao romântico. A imagética (isso é, o campo visual) da obra remete à poesia e as artes clássicas num movimento de retomada dos ideais românticos rompidos e odiados pelos modernistas e pós-modernistas.

O campo visual de Cossette, aliás, é extremamente poderoso. As metáforas visuais são ricas e profundas podendo-se encontrar até certa referência religiosa (sendo o religioso um tema muito forte no romantismo). Várias vezes, Eiri aparece crucificado e tem seu peito rasgado para que assim “os pecados dos outros sejam perdoados”. Ele torna-se, portanto, um instrumento de expurgação de um pecado. Quando se recusa e questiona o porquê de ter de sofrer, Cossette o lembra de que aceitou o pacto ao beber do cálice de vinho que na verdade é sangue.

A arte é outro elemento sempre presente, sejam nas obras à venda na loja de Eiri ou nos flashes de pinturas — majoritariamente olhos — que permeiam a série. Em três episódios o anime apresenta uma carga significativa sufocante que, novamente, a aproxima da poesia. Em sua brevidade está outra forma de beleza. Le Portrait de Petit Cossette é, nesse ponto, uma obra superior a Madoka Magica.

A tragédia também é retomada pela animação, seja na via sacra de Eiri ou na história de Cossette. Ela, uma criança ainda, foi assassinada por seu noivo, um pintor, para que se tornasse um modelo eterno da beleza que ele desejava. E no fim, essa busca obsessiva pela beleza retorna e somos levados a questionar o que realmente é o belo, o que realmente é a arte: a estática cópia da realidade criada através da perfeição técnica ou a criação sentimental e falha que transborda de sentimento?

Com tamanha carga, Cossette se torna uma obra densa e difícil de ser compreendida. Tudo nela cria uma sensação de estranhamento, tudo é deslocado do lugar comum e atirado num mundo diferente, poético. Ainda mais que em Mawaru Penguindrum, o excesso significativo prejudica o roteiro e o desenvolvimento das personagens. Muito é deixado de lado e não há desenvolvimento exceto de Eiri e, talvez, de Cossette.

Em sua grandiosidade artística, a série deixa de ser entretenimento puro, abandonando seu alcance e se tornando obra de nichos, como a própria arte é.

Le Portrait de Petit Cossette é uma obra de arte. Não há outro modo de classificar algo desse porte. E exatamente por ser uma obra de arte, ela se torna limitada, atraindo apenas um pequeno público que está em busca de algo completamente diferente, algo belo e lento, silencioso e perturbador. Mas não levem apenas o que digo em conta, assistam vocês mesmos. Talvez mesmo aqueles que têm aversão à arte encontrem na série algo que os encante. Não seria esse o maior poder da arte?

Título: Le Portrait de Petit Cossette
Estúdio: Aniplex
Direção: Akiyuki Shinbo
Número de Episódios: 3 OVAs de 40 minutos

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