Otaku Neoclássico #23: Fate/Stay Night

Um grande potencial desperdiçado?

Aviso: O texto a seguir contém Spoilers das três rotas e de suas respectivas adaptações Fate/Stay Night, Unlimited Blade Works e Heaven’s Feel, além de uma carga enorme de reclamações, fanboyzisse e momentos autoexplicativos do autor. Leiam por sua conta e risco.

Todos sabem que eu sou fã das obras da Type-Moon, certo?  Conheci o Nasuverso através de imagens de um jogo chamado Battle Moon Wars. Gostei do character design dos personagens, depois os procurei para MUGEN, o que, tecnicamente, faz de Melty Blood meu primeiro contato com o verso. Porém, foi Fate/Stay Night que me fez cair de amores pela franquia. Se querem saber o motivo, continuem lendo.

Fate/Stay Night é a adaptação da rota Fate da Visual Novel homônima, criada pela Type-Moon. A história narra a Quinta Guerra do Santo Graal, onde sete magos invocam sete heróis lendários para lutarem por eles num conflito em que o vencedor conquistará o lendário Santo Graal, um objeto capaz de realizar desejos. Nessa Guerra, Emiya Shirou, o único sobrevivente de um desastre ocasionado no fim da Quarta Guerra, é escolhido como um Mestre e ao invocar o servo da classe mais forte, ele entra no meio de um conflito mortal o qual deseja parar.

Sinopse interessante, não é? Esse esquema de um roteiro onde diversas pessoas têm de se enfrentar numa guerra para conseguir algo é bem comum e foi belissimamente utilizado em Battle Royale e não tão belamente em Mai-HIme. E levando em conta que, além disso, o mercado de Visual Novels é bem competitivo, o que levou Fate/Stay Night a se tornar o fenômeno que se tornou? O fato dos Servos serem heróis lendários? Em parte. O fato de ter sido criada pela mesma Type-Moon que cinco anos antes lançou o hit Tsukihime? Também. A mania do Nasu de descrever órgãos genitais como frutos do mar? Errr, acho que não. Possivelmente, o que fez de Fate/Stay Night o sucesso que é são suas subtramas, mitologia, personagens bem trabalhadas e conceitos interessantes.

Saber, por exemplo, é trabalhada na Novel de um modo que se compreende seu drama. A garota que abandonou seus sentimentos para governar e, no fim, foi traída por seu povo e morta por seu… clone (é uma longa história…), deseja voltar no tempo e não ter se tornado rei, não por medo da dor (talvez por isso, em parte), mas por não desejar ver seu reino cair.

Shirou é uma abordagem interessante do típico herói shonen que se sacrifica para proteger os outros. Seu desejo de se tornar um herói o leva a matar mais e mais inimigos em busca de poder, eventualmente se tornando Archer, um homem amargurado e, como dito por ele mesmo, intoxicado pela vitória. E tal história é resumida lindamente no encantamento que ativa seu ataque mais poderoso (mais na versão em japonês do que na em inglês).

Há ainda Sakura, uma garota entregue pelo próprio pai a outra família para que pudesse se tornar uma maga, mas que para sofreu abusos de seu primo e de… vermes (faz sentido no contexto…). Mesmo Kirei Kotomine, o vilão da série, é interessante o bastante para ser popular entre os fãs.

Com tantas tramas interessantes a se adaptar, sem dúvidas o anime seria ótimo, não é?

Não.

A adaptação feita pelo estúdio DEEN (muito criticado pelos fãs de algumas séries) é um verdadeiro estupro da obra original. O baixo orçamento fez com que a arte e a animação fossem de uma qualidade bem mediana e o roteiro desperdiça tanto tempo nas cenas casuais que diversos pontos do enredo são deixados de lado ou explorados e maneira porca.

No anime, nunca é revelado diretamente quem é Archer e a relação entre Rin e Sakura fica limitada a uns poucos momentos que passam despercebidos e, no fim, parecem gratuitos. Há sim diversas pistas, entretanto para um anime que se dispõe tanto a ser fácil de digerir, implicitar demais não é nada bom.

Aliás, é seguro dizer que o anime foi uma tentativa (falha?) de shonenficar Fate/Stay Night. Todas as ambiguidades de Shirou são deixadas de lado chegando ao ponto de dar a entender que o desejo dele de proteger Saber é machismo (o que não é, afinal ele não reclama quando a Rin luta). Talvez isso fique ainda mais claro com o Nobre Fantasma de Saber, Excalibur, tratado no anime como uma espada laser quando a realidade é bem mais interessante e complicada que isso. Até mesmo a complexa subtrama de Sakura e os abusos sofridos por ela são deixados de lado apenas para tornar a série mais leve. E Fate/Stay Night não é uma obra leve em nenhum sentido.

Kinoko Nasu, roteirista da Type-Moon, é formado em filosofia, algo que ele faz questão de demonstrar em suas obras. Dos diálogos crípticos sobre almas e futuro de Kara no Kyoukai aos questionamentos sobre a mortalidade de Tsukihime, passando pela discussão sobre heroísmo e ideais de Fate/Stay Night, toda a obra do autor é recheada de complexas assumpções e referências a teorias filosóficas, sempre tentando por em xeque as noções comuns presentes em outros trabalhos de mídia.

Não é a toa que Gen Urobochi é tão amigo de Nasu. Ambos são, de longe, os escritores mais questionadores do universo das Novels japonesas com obras voltadas sempre a um público mais velho.  Obras violentas e duras, muitas vezes desesperançosas e com fortes tons de horror cósmico (para os interessados, leiam Angel Notes, escrita por Nasu e disponível em português nesse site). Obras que perdem boa parte de sua profundidade quando tais características pesadas são removidas.

E a única coisa que poderia vir de bom do processo de shonenficação de Fate/Stay Night, cenas de ação interessantes, jamais acontece. A única luta que realmente empolga é o combate entre Archer e Berserker, que acontece ao som da épica EMIYA.

Aliás, a trilha sonora é um dos pontos altos do anime. Toda ela foi composta por Kenji Kawaii e conta com remixagens de temas do próprio jogo que conseguem passar muito bem o sentimento de cenas que, de outro modo, não teriam impacto. Kishi ou no hokori carrega toda a tristeza e arrependimentos de um rei que viu tudo pelo que lutou ser destruído. Eiyuu Ou traz toda a sensação de poder e glória da babilônia antiga numa melodia tão ameaçadora quanto o próprio Gilgamesh. Yakusoku Sareta Shouri no Tsurugi brilha com a glória da revelação de uma arma lendária capaz de abrir os mares e queimar a terra. Mesmo que não gostem do anime, aconselho que ouçam a OST separadamente para que possam aproveitar esse ótimo trabalho. Pena que só isso não salva o anime.

E então vocês devem estar se perguntando: se Fate/Stay Night é tão ruim, por que você procurou mais sobre a Type-Moon depois? A resposta é simples, apesar de um tanto estranha, talvez: eu amo Fate/Stay Night.

Parece contraditório, não é? Apesar de todos os defeitos que a série possui e de tantas outras animações melhores que existem, alguém ainda dizer que a ama. Bem, se me permitem filosofar um pouco, talvez isso seja amar, conseguir ainda admirar e gostar de algo mesmo vendo todas as suas falhas. E devo dizer que, por mais falhas que tenha, Fate/Stay Night ainda consegue ter certo encanto singelo e mágico que impele a tentar procurar por uma resposta para uma pergunta que pode nem mesmo estar lá.

Talvez não seja assim para todos, mas foi para mim. E por mais animes que eu veja e por mais defeitos que eu encontre a cada vez que assistir essa série, Fate ainda ocupará um lugar especial para mim, pois foi a história da Guerra do Graal que com todos os seus pontos baixos e enredos mal aproveitados me fez querer contar minhas próprias histórias. E a cada episódio eu ansiava mais e mais para poder fazer isso e quando o anime acabou e descobri a novel. A cada revelação, a cada grande batalha, a cada vitória e cada morte, esse desejo crescia e crescia até o ponto em que contar uma história que despertasse nas pessoas o mesmo sentimento de encanto que Fate despertou em mim se tornou minha razão de ser. Pode-se dizer, então, que foi esse anime que me fez sonhar. E se algo faz isso com alguém, não são perdoáveis todas as falhas?

Sei que falei muito mal de alguns animes por aqui (ganhei até haters por causa do texto de HotD :D), mas peço que se lembrem que em nenhum momento disse que tais animes não deveriam ser assistidos, limitando-me apenas a dar a minha visão sobre eles (menos no caso de Chaos;Head que escrevi só para poder falar com decência de Steins;Gate).

Meu objetivo com essa coluna sempre foi e sempre será apresentar obras pouco conhecidas (como R.O.D.) e comentar a razão do sucesso dos grandes fenômenos (como Death Note, que me fez ganhar mais haters :D). Ao apontar falhas e pontos fortes, tento me manter o mais técnico o possível, embora temo que falhe algumas vezes. Ainda assim, se alguém me perguntasse se deveria ou não assistir um anime, eu falaria sobre ele e deixaria a pessoa decidir, pois nenhuma história é tão ruim que não adicione nada ao espectador e nenhum espectador é tão bom que não possa aprender nada com uma história. Nem que seja a como não fazer uma história, não é, Sr. Ed Wood?

E agora peço desculpas por me ter prologando tanto falando sobre mim mesmo. Mas acho que é algo que deveria ter dito antes.

Fate/Stay Night foi um grande sucesso no Japão e no mundo todo e colocou a Type-Moon numa posição de destaque na indústria de jogos japoneses (para se ter uma noção, Hideo Kojima tem um exemplar autografado da edição da Kodansha Kara no Kyoukai), permitindo que o Nasuverso se expandisse e, em 2007, começasse o projeto Kara no Kyoukai.

Foram lançados diversos jogos baseados na série, uma adaptação para mangá, um filme baseado na segunda rota do jogo, centenas de figuras (algumas das quais eu tenho :D), duas Light Novels Spin-off (Fate/Zero por Gen Urobochi e Fate/Apocrypha por Yuichiro Higashide), uma das quais  virou anime pela Ufotable e garantiu até mesmo que a série passasse por aqui no falecido Animax (com uma dublagem que virou piada até na comunidade anglófona…). Sem dúvidas, um fenômeno.

Enfim, Fate/Stay Night é um anime tecnicamente ruim que adapta porcamente uma das melhores obras com que já tive contato. O que é bem triste, já que nunca é bom ver potencial desperdiçado. Ainda assim, deem uma olhada. Quem sabe não ficarão tão encantados com esse universo quanto eu?

Bem, até a próxima.  Espero que nenhum de nós seja assassinado pelas nossas versões do futuro.

Título: Fate/Stay Night
Estúdio: DEEN
Direção: Yuji Yamaguchi
Trilha Sonora: Kenji Kawai
Número de Episódios: 24

Publicidade
close