Otaku Neoclássico #24: Fate/Stay Night – Unlimited Blade Works

Somente um amontoado de cenas de ação?

“De espadas seu corpo é feito, de ferro seu sangue, de vidro seu coração. A incontáveis batalhas sobreviveu, sem jamais recuar, sem jamais ser compreendido. Ele sempre esteve só, intoxicado pela vitória na colina de espadas. Assim, essa vida não teve significado. Sem dúvidas, de espadas esse corpo é feito”

“Fate de novo?”. É por uma boa causa, juro.

Da última vez, falamos sobre o TV Anime de Fate/Stay Night e em como ele falhou ao tentar adaptar em uma só série todos os elementos da Visual Novel. Mas, independente de todas as falhas, Fate foi um sucesso e seis anos após a estreia do anime, chega aos cinemas japoneses Fate/Stay Night: Unlimited Blade Works.

Adaptação da rota Unlimited Blade Works, a segunda da Visual Novel, a história gira em torno da Guerra do Santo Graal, um conflito em que sete Mestres invocam sete heróis lendários como seus Servos para lutar pelo Santo Graal, uma relíquia milagrosa capaz de realizar qualquer pedido. Emiya Shirou está nessa Guerra, porém sua maior preocupação não são os outros Mestres, mas Archer, um misterioso Servo que tenta a todo custo matá-lo. Aliado a Rin Tohsaka, a Mestra do rebelde Archer, ele deve sobreviver e tentar impedir que a tragédia de dez anos atrás se repita.

Várias vezes comentei que a maior dificuldade em se adaptar uma Visual Novel está na multiplicidade de rotas e possibilidades do gênero.  Então, seria a melhor escolha de todas adaptar apenas uma rota de uma Visual Novel num filme? Honestamente, não acho que esse seja o caso. Mas vamos por partes.

O primeiro grande problema da escolha do formato filme é sua brevidade. Cada rota de Fate/Stay Night tem por volta de 15 horas de duração (Fate/Stay Night completo é mais longo que toda a trilogia do Senhor dos Anéis). E como resumir isso em cerca de 105 minutos? Fazendo cenas extremamente rápidas e deixando muitas informações de fora, é o que disse o estúdio DEEN.

Se já foi difícil de entender o TV anime, imaginem tentar fazer o mesmo quando cerca de 80% dos fatos relevantes não são mostrados. E não estou brincando com essa estatística, podem ter certeza disso.

O segundo grande problema é que Unlimited Blade Works depende demais do contexto dado por Fate (a rota inicial da Visual Novel) e sem esse torna-se impossível entender muito do que está acontecendo na tela. Os dois minutos iniciais do filme, por exemplo, resumem muito mal o que no TV anime dura um episódio. E apesar da interessante trilha sonora de Kenji Kawai ajudando a cena, o resultado não deixa de ser catastrófico. E isso não é sequer o pior momento do filme.

O fato é que Unlimited Blade Works é menos um filme do que um enorme fanservice para aqueles que leram a Visual Novel. É como as ilustrações das edições especiais de livros que estão lá apenas para ser vistas, mas que, no fundo, não adicionam absolutamente nada ao enredo em si. E nem sequer o fandom mais fervoroso da Type-Moon se agradou do filme, que era aguardado com muita ansiedade por todos (mas não tanto quantos Heaven’s Feel). A situação chega ao ponto de muitos negarem a existência do anime (o que parece bem comum com adaptações das obras da Type-Moon…).

Entretanto, o filme não é um desperdício completo de dinheiro. Com bastante tempo para trabalhar e uma verba relativamente alta, o estúdio caprichou na animação. Algumas das lutas ficaram extremamente fluídas e empolgantes (algo que faltou em Fate/Stay Night) e a trilha sonora está ainda melhor do que antes. O simbolismo de alguns momentos, herança da literatura de Kinoko Nasu, autor da Visual Novel, é interessante também, ainda que não tenha a força que tem na obra original.

A climática batalha entre Archer e Shirou, em que os dois se confrontam com espadas num duelo que é, acima de tudo, de ideais, brilha de um modo especial, pois ilustra muito bem o conflito central de todo universo de Fate: ideais e esperança contra cinismo e estoicismo.

E que lugar melhor para se explorar isso que numa guerra entre os maiores e mais nobres heróis do mundo? E se na rota Fate o idealismo venceu, em Unlimited Blade Works tal vitória se repete, mas é muito mais custosa e prenuncia o que vem a seguir, quando as verdades são reveladas e a muralha de idealismos desmorona diante de um mundo manchado por um mal que não pode ser eliminado. E então se deve escolher entre perseguir a utopia sonhada (a Avalon de Arthur) ou viver na realidade que, ainda que despida de todo o manto da glória, possui dentro de si uma magia própria.

No fundo, talvez a mensagem maior de toda a franquia seja de que, acima de tudo, a vida é feita para ser vivida como é e não como uma busca desesperada por algo que sequer se sabe que existe. E então os instantes passageiros de alegria tola, os sorrisos trocados e os momentos em que simplesmente estamos com quem queremos estar, tranquilamente cozinhando ou simplesmente ficando junto, tornam-se o mais valioso dos tesouros.

Esse tema da valorização apaixonada do dia-a-dia é recorrente nas histórias de Nasu e um elemento definidor de sua obra. Estamos, afinal, falando do homem que acredita que “a vida cotidiana não pode ser mostrada em menos de trinta dias”. E, novamente, Unlimited Blade Works falha em captar esse sentimento, tornando uma reflexão sobre a vida numa simples sequência de cenas de ação.

O filme vendeu bem, tanto nos cinemas quanto em Home Video, e recentemente foi lançado com áudio em inglês nos Estados Unidos pela Sentai Filmworks. Mas não esperem que isso signifique nada, já que Kara no Kyoukai saiu em versão dublada na Alemanha, França e Itália (países onde o Nasuverso é bem popular, estranhamente…), mas jamais chegou ao Brasil. No fim, essa é mais uma daquelas obras que só se encontra em fansubs ou em barraquinhas de “divulgação”.

No geral, Unlimited Blade Works não é um filme que eu aconselharia exceto para aquelas pessoas que leram Fate/Stay Night e gostariam de ver suas cenas favoritas animadas, pois qualquer outro passaria a ter aversão pelo universo de Fate (e até pelo Nasuverso) após o filme. E isso não é bom, afinal, existe algo muito bom baseado nesse universo, não é?

E para fechar essa nossa pequena saga por Fate, da próxima vez iremos de volta ao zero!

Título: Fate/Stay Night: Unlimited Blade Works
Estúdio: DEEN
Direção: Yuji Yamaguchi
Trilha Sonora: Kenji Kawai
Duração: 105 minutos

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