Otaku Neoclássico #25: Fate/Zero

A melhor animação da franquia?

“Deixe-me contar a história de um certo homem. A história de um homem que, mais que qualquer outra pessoa, acreditava em seus ideais, e por eles foi levado ao desespero”

Fate/Stay Night é, sem dúvidas, uma das franquias baseadas em Visual Novels mais bem sucedidas da atualidade. Vários spin-offs surgiram a partir da obra original, desde a continuação-de-certo-modo Fate/Hollow Ataraxia até o interessante mangá Fate/kaleid liner PRISMA ILYA. Dentre esses spin offs está um que alguns consideram maior até que a obra original: Fate/Zero.

Baseado na Light Novel homônima escrita por Gen Urobuchi (Mahou Shoujo Madoka Magica, Phantom: Requiem for the Phantom, Saya no Uta), Fate/Zero conta a história da Quarta Guerra do Santo Graal, um combate entre Sete Magos controlando sete Espíritos Heroicos pelo direito de obter o Santo Graal, um artefato capaz de realizar qualquer desejo.

Lutando nessa guerra está Kiritsugu Emiya, o Matador de Magus, um homem cuja vida foi dedicada a matar pessoas para evitar catástrofes. Nessa guerra, porém, está também Kirei Kotomine, um membro da Igreja que busca sua razão de ser. E é o conflito entre esses dois homens irá definir os rumos da guerra.

Antes de mais nada, creio que uma coisa deve ser deixada clara. Apesar do questionável trabalho do estúdio DEEN no anime Fate/Stay Night, é impossível não apontar que adaptar uma Light Novel, uma mídia estática, é uma tarefa extremamente mais simples que adaptar uma Visual Novel, uma mídia interativa. Não que isso tire qualquer brilho do trabalho do Ufotable, mas fatos são fatos.

Aliás, na primeira coluna que escrevi para cá, tive a chance de falar desse que é um dos mais elogiados estúdios da atualidade. E, interessantemente, a equipe que trabalhou na adaptação de Fate/Zero conta com muitos nomes de peso que trabalharam também na adaptação Kara no Kyoukai.

Yuki Kajiuraretorna para fazer a trilha sonora de mais uma adaptação de uma obra da Type-Moon (a mulher está virando o John Williams da Type-Moon) e Ei Aoki volta ao Nasuverso após dirigir o primeiro filme de Kara no Kyoukai. Há outros nomes menos conhecidos como Seiji Matsuda na fotografia, mas isso é algo natural, afinal as equipes dos estúdios não mudam muito em tão pouco tempo.

Ainda assim, é interessante notar o número imenso de similaridades existentes na execução técnica de ambas as obras.  A fotografia noturna, o brilho e os efeitos especiais são quase indiscerníveis de um anime para o outro. Tanto é que os backgrounds do décimo episódio de Fate/Zero poderiam ser utilizados tranquilamente em qualquer um dos filmes de Kara no Kyoukai e ninguém notaria diferença alguma.

Alguns efeitos especiais, especialmente o 3D usado nos prédios, também traz à mente a memória de Kara no Kyoukai, assim como alguns ângulos de câmera (o giro ao redor de dois personagens, a câmera que se aproxima de uma personagem…).

A trilha sonora de Yuki Kajiura também está bastante similar àquela de Kara no Kyoukai. Novamente, como se tornou sua marca desde Noir, temos coros femininos cantando em Kajiurago (entenda-se, falando um monte de palavras que, segunda a própria compositora, não têm significado algum), cordas psicóticas, cítaras, flautas e uma mistura esquizoide de romantismo alemão e pop pós-modernista experimental. Naturalmente, esse segundo fator estava mais presente em Kara no Kyoukai já que essa tratava de bipolaridades. Aqui o uso de instrumentos reais é maior, porém a marca não-generalista de Kajiura continua forte, como se vê em The Battle is to the Strong, o tema de batalha da série.

O tratamento visual também é ímpar com qualquer outro TV Anime. Da iluminação fenomenal à animação fluída e sempre precisa (exceto em alguns momentos…). Isso sem contar o fantástico uso do 3D que permitiu cenas como o belíssimo Ionian Heitaroi e o combate entre Rider e Archer. Tamanha é a qualidade da série que ela teve de ser dividida em duas temporadas para que o estúdio pudesse manter o nível até o final. Houve deslizes, é fato, mas no geral a execução técnica foi memorável. Exceto pelo Berserker.

Uma das grandes reclamações dos espectadores quanto à adaptação foi o visual estranho do Berserker. Feito totalmente em CG e coberto por uma névoa negra, sua movimentação e iluminação saltavam às vistas e se destacavam demais de todo o resto. Duas vertentes surgiram para tentar explicar isso. A primeira argumentava que tal efeito foi feito para simular as descrições do Servo feitas na Light Novel enquanto a segunda simplesmente defende que tal tática foi utilizada apenas para evitar usar gráficos 2D junto à névoa 3D, o que resultaria em algo visualmente ainda mais desagradável. Qual dos dois está certo, quem sabe?

AVISO: A partir daqui começam os spoilers. Se você não assistiu o anime, pare AGORA.

O maior mérito de Fate/Zero, ainda assim, é conseguir ser uma das melhores adaptações recentes. Houve, de fato, vários problemas com cenas cortadas ou reduzidas, chegando ao ponto de em alguns episódios a abertura e fechamento não serem exibidos e ainda assim material ficar de fora. O que se torna um grande problema numa obra como Fate/Zero, onde cada cena tem relevância para o todo.

O exemplo mais gritante foi o confronto entre Saber e Berserker, no final do anime. A luta, que na Light Novel carregava todo o peso emocional do combate entre Artur e seu mais leal companheiro e amigo, Lancelot, foi reduzida para que fosse mantido o foco no não menos importante combate entre Kirei e Kiritsugu. E apesar dessa ser a decisão mais acertada para termos de uma obra fechada, o combate dos Servos carregava mais peso para o universo de Fate, pois é o que acarreta as decisões de Saber em Fate/Stay Night.

Outras cenas, por outro lado, foram extremamente bem executadas, até melhor do que no material original, como toda a destruição da ilha onde Kiritsugu viveu quando criança (o que me fez querer mais ainda um anime de Tsukihime pela Ufotable, diga-se de passagem) e o belíssimo estrangulamento de Aoi por Kariya, um dos mais belos momentos de que me recordo num anime. Aliás, apesar de suas cenas de ação brilhantes, como o estonteante duelo aéreo entre Berserker e Gilgamesh, é nas cenas mais sentimentais que Fate/Zero se mostra grandioso.

Toda a história é uma série de tragédias que se juntam, de pessoas que arriscaram tudo por um objetivo e que mais e mais foram perdendo tudo. E quando os sentimentos extrapolavam e cada personagem perdia o controle de si mesmo, seus dubladores tratavam de fazer seus melhores trabalhos. O grito de Kiritsugu após derrubar o avião onde sua mãe adotiva/instrutora estava foi um choque tremendo, pois sequer parecia que era o mesmo dublador estoico que estava trabalhando até ali.

Joji Nakata, reprisando seu papel de Kotomine Kirei, mostra o porquê de ser considerado um dos melhores dubladores do Japão e ser chamado para tantos vilões (ele também é o Araya de Kaya no Kyoukai, o Nero de Melty Blood e o Wesker de Resident Evil). Ayako Kawasumi se entrega mais uma vez à Saber e dá vida à garota que abandonou seus sentimentos para se tornar rei e no momento final, após matar seu melhor amigo e ser comandada por seu mestre a destruir aquilo pelo que tanta lutara, é impossível não ter uma pontinha de dúvida se Kawasumi não É a própria Saber.

A maior parte do elenco estava excelente e os que não estavam ao menos fizeram um bom trabalho. Ajuda o fato de que todos já haviam passado por esse texto antes quando fizeram o Drama CD.

Mas nem toda a direção e nem toda atuação salvaria uma obra que não tivesse um roteiro bom o bastante para manter tudo unido. E aí Fate/Zero também se sustenta.

Embora não seja tão pessoal quanto Saya no Uta, é impossível não ver as marcas de Gen Urobuchi na obra (mesmo que boa parte das ideias, segundo ele, já fossem do próprio Nasu). Desde detalhes como o monstro Lovecraftiano invocado por Caster à toda a subtrama de Kariya e sua vã cruzada pelo amor de Aoi travestida de um altruísmo tolo, vê-se que esse é o mesmo autor de Madoka Magica e Phantom: Requiem for the Phantom.

Toda a tragédia, toda a morte e toda a paixão pela vida estão aqui. E ainda que, diferente de Madoka Magica, essa não seja uma obra original do autor, Urobuchi se encontrou no universo de Fate. Tanto é que alguns até mesmo dizem que ele superou o próprio Nasu (embora eu pessoalmente discorde disso, afinal, Heaven’s Feel, né, gente?). E, convenhamos, não é sem argumentos. Ainda que muita da beleza de Fate/Zero se deva a Ei Aoki e Ufotable, é difícil negar a qualidade do trabalho de Urobuchi.

Sendo um spin off de Fate, Zero naturalmente fez um grande sucesso tanto com o público geral quanto com os, diga-se de passagem, chatos fãs da Type-Moon. Os BDs foram lançados pela Aniplex USA (que também lançou boxes Kara no Kyoukai e Madoka Magica) em uma de qualidade ridiculamente alta e preço tão absurdo quanto, como é costume da Ufotable fazer.

Em alguns fóruns, especula-se até que o anime será dublado para lançamento nos Estados Unidos. E considerando que Fate/Stay Night veio para o Brasil e a popularidade de Zero em todo o mundo, não é impossível achar que a série pode chegar ao Brasil, não é? Não é? Não custa sonhar…

E com isso termino a nossa curta saga pelo universo animado de Fate: uma franquia cheia de altos e baixos, mas indiscutivelmente popular e influente no universo dos animes. Em breve, porém, acontecerá o Type-Moon FES, evento em comemoração aos 10 anos da Type-Moon, e restando apenas uma adaptação para que Fate/Stay Night seja completamente animado, as apostas estão altas de que em duas semanas algo será anunciado. Assim, quem sabe, possamos ter uma Sensação do Paraíso.

Título: Fate/Zero
Estúdio: 
Ufotable
Direção: 
Ei Aoki
Trilha Sonora: Yuki Kajiura
Roteiro Original: Gen Urobuchi
Número de Episódios:
 25

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