Otaku Neoclássico #29: K-On! e o Fetichismo

Você sabe o que é Moe?

Esse texto deveria ter sido lançado há duas semanas, mas por motivos de força maior, não tive como terminá-lo a tempo.

Para os que não leram a coluna passada, comecei uma série de posts que irão tratar do papel da mulher no anime, partindo de três séries e tentando explicar alguns fenômenos. No final do texto, fiquei de tratar do Fetichismo Moe. Confesso que fiquei em dúvidas quanto a que série utilizar para exemplificar esse caso, até que me decidi por uma que acredito sintetizar muito bem todos os traços desse movimento: K-On!.

Baseado na série de yonkoma (tirinhas de quatro quadros) homônima escrita pelo mangaka que atende pelo pseudônimo de Kakifly, K-On! é a história de um grupo de garotas, membros de clube de música leve de sua escola e suas aventuras em que comem chá e tomam bolo. Ou algo assim.

Antes de mais nada, talvez seja necessário falar um pouco do que é o Moe que tantos amam e odeiam.

O termo de origem obviamente japonesa cuja própria etimologia é desconhecida, representa um conceito extremamente abstrato e, como tal, difícil de definir. Alguns usam “fofo” como tradução possível de Moe, porém além de carregar grandes ambiguidades, tal tradução falha em captar a totalidade do significado desse termo.

Implícito por trás da fofura, está uma espécie de efeito empático causado pela personagem no espectador que passa então a não apenas ter certo laço afetivo com a personagem como também a desejar protegê-la. O problema de tal conceito é óbvio — o efeito empático é, por excelência, subjetivo — todavia esse é possivelmente o máximo que consigo me aproximar do significado de Moe sem acabar escrevendo dezenas de páginas.

De certo modo, o Moe sempre existiu no anime, algo que deriva da própria inspiração original da mídia — as animações de Walt Disney. Todavia, apenas com o lançamento de Shin Seiki Evangelion o conceito começa a ganhar uma forma, iniciando o processo de desenvolvimento de se cristalizar naquilo que hoje se entende (?) como Moe.

O fenômeno passou a crescer rapidamente a partir da década de 2000, com o lançamento de obras da Kyoto Animation, com as adaptações de Air e Suzumiya Haruhi no Yuutsu, esse segundo ganhando uma enorme popularidade, e outros marcos importantes do movimento, como Lyrical Nanoha e Shakugan no Shana.

Em 2007, a Kyoto Animation adapta a série o manga Lucky Star, cuja narrativa se centra na vida de um grupo de garotas colegiais, algo que se tornaria muito popular desde então. E enfim, em 2009, é lançado K-On!.

Até então, o Moe era apenas um fator (embora em alguns casos um fator central) nas séries, estando presente em maior ou menor grau em praticamente todos os animes produzidos, desde os Shounens (Orihime em Bleach, Levi em Fairy Tail, Hinata em Naruto) até em Seinens (Azaka em Kara no Kyoukai, Yomiko em Read or Die).

Porém com K-On! o Moe se tornou não apenas mais uma variável, mas a própria razão da existência de personagens e séries inteiras. Sem uma trama central ou combates (dois fatores que, no Ocidente, ainda diferenciam o “anime” do “desenho”), K-On! se resume a mostrar garotas fofas fazendo coisas fofas. E embora Lucky Star já houvesse feito isso, diferentemente e K-On! esse ainda tinha como foco central a paródia. Vemos então uma série que, em tese, não haveria como dar certo.

Mas deu certo. Ah, e como deu certo.

A série cresceu astronomicamente em popularidade, ganhando diversos produtos e colocando suas músicas em primeiro lugar das paradas, se espalhando pelo mundo e ganhando uma continuação.

Como explicar tal fenômeno?

Ao menos no tocante ao Japão, talvez seja fácil entender tamanho sucesso. A cultura japonesa, extremamente capitalista e forjada a partir de um forte código tradicional, apresenta num grau espantoso algo que existe em todo o mundo: a exigência de adaptação social.

Desde cedo se exige dos jovens uma conduta regrada por padrões sociais estritos, condicionando o indivíduo a acreditar na infalibilidade da estrutura social. E embora tenha permitido ao país se tornar uma potência econômica e mantido os índices de violência baixos, isso também impôs uma pressão gigantesca na juventude. Tal realidade, retratada caricatamente em Battle Royale e de modo especialmente genial no mangá Aku no Hana, cria jovens cada vez mais depressivos fazendo com que o país com um dos menores números de homicídios em todo o mundo ostente o título de país com o maior número de suicídio de jovens do planeta.

O Moe assume então um caráter muito mais complexo. A fragilidade, inocência e aceitação das personagens Moe nutrem o indivíduo rechaçado com uma ilusão de necessidade. Aproveitando-se disso, a indústria cultural inunda o mercado de material desse tipo, enquanto as prateleiras se enchem de produtos baseados em tais personagens.

E talvez nenhum desses produtos exemplifique tão bem a relação entre o Moe e o escapismo que os dakimakuras, travesseiros ilustrados com imagens de personagens feitos para que o indivíduo possa dormir abraçado a ele. Basta uma busca rápida na internet para se encontrar fotos de jovens em metrôs e ruas andando abraçados a tais objetos.

A mulher então se torna um objeto de fetiche, mero compensador dos desejos de pessoas excluídas de uma sociedade decadente. Histórias centradas apenas em garotas jovens se tornam cada vez mais comuns. A adoração a tais personagens, resultado do próprio fetichismo, chega ao ponto de manifestações ocorrerem quando uma delas corta o cabelo (como aconteceu ao final de K-On!) ou, em casos mais graves, ameaças de morte serem feitas a uma dubladora por ela ter sido fotografada após fazer sexo (caso de Aya Hirano, dubladora da protagonista de Suzumiya Haruhi).

E nesse ponto onde realidade e fantasia se misturam, surgem as Idols, jovens cantoras não de todo diferentes das cantoras pop ocidentais, e sua aparência que mimetiza a estética do anime. A imitação torna-se o original e o original a imitação. A situação chega a um ponto em que, em alguns imageboards, haja movimentos de ódio contra toda a realidade tridimensional.

E como todo movimento de grande impacto, o Moe gerou respostas na forma de séries como Madoka Magica ou de todo um movimento, o Superflat.

Por esse ângulo, torna-se compreensível o sucesso de K-On! no Japão, mas e quanto ao Ocidente? Talvez a resposta, nesse caso, seja a mesma. Enquanto nos Estados Unidos a série goze de uma popularidade avassaladora, no Brasil ela não chega nem de longe tão perto. Isso reflete o próprio peso aplicado pela cultura de cada país em seus jovens, pois enquanto no Estados Unidos ainda impera, ainda que num trono aquebrantado, a exigência de sucesso, o Brasil é um país marcado pelo conformismo e pelo derrotismo. E numa sociedade assim, K-On! jamais poderia alcançar toda a força que possui em sua terra Natal.

Lembrando que o mangá é publicado aqui aos trancos e barrancos pela NewPOP e atualmente encontra-se no volume 3.

E antes que divague ainda mais em pensamentos sociológicos, termino aqui a segunda parte da série sobre o papel da mulher no anime. Se nada der errado, em duas semanas iremos tratar do último tópico: a mulher como Par Romântico.

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