Otaku Neoclássico #30 – Shakugan no Shana

Mulheres: mais que um par romântico?

E aqui estamos nós. Esse é o último texto da série sobre as mulheres no universo do anime. No primeiro, tratamos de mulheres como protagonistas, em seguida partimos para o fenômeno moe e agora é hora de falar de um dos papéis mais clássicos e controversos ocupados por mulheres em qualquer mídia: o par romântico. E para isso, usarei como exemplo a primeira temporada de Shakugan no Shana.

Antes de mais nada, quero dizer que nesse primeiro momento não tratei de Shoujos. Sim, sei disso e sei que isso limita muito o alcance da (já limitada) visão apresentada aqui. Pretendo tratar de Shoujos no futuro (e agradeceria se alguém pudesse sugerir algum, já que não sou o maior especialista que existe sobre esse asssunto). Agora vamos ao que interessa.

Talvez a pergunta inicial sobre esse assunto seja exatamente o porquê do conceito de Par Romântico ser tão intrinsecamente ligado ao gênero feminino. As instâncias mais antigas desse fato datam desde as mais antigas narrativas humanas de que se tem registro e é algo extremamente forte hoje em dia. Sempre existiu uma mentalidade patriarcal extremamente forte na cultura mundial sendo que em alguns países, como a China, por exemplo, chegou-se ao ponto de haver abortos de primogênitas. Nesse contexto, a secundarização, e em muitos casos a objetificação da mulher se tornou algo assustadoramente comum.

“Monte de palavra bonita e pseudo-intelectualidade, a gente sabe. Mas o que tem Shana a ver com isso?”. Certo, certo. Vamos a isso.

Shakugan no Shana é a adaptação das Light Novels homônimas de Yashichiro Takahashi (e eu já falei antes de toda a questão de Light Novels) e segue Yuji Sakai, um adolescente normal que um dia se encontra com uma garota que se apresenta como uma Flame Haze, um indivíduo que mantém o equilíbrio do mundo, e que revela que Yuji já está morto, pois sua existência foi devorada por um Guze no Tomogara. Porém Yuji possui dentro de si o Reiji Maigo, um tesouro raro que o manterá vivo. Yuji e a garota, Shana, passam então a lutar juntos para proteger a cidade dos Guze no Tomogara.

Algo que se pode notar com esse — tosco — resumo da série é que ele segue a fórmula padrão do subgênero chamado “Namorada Mística”. Nesse tipo de série, é comum um desenvolvimento onde o protagonista masculino se encontra com uma personagem feminina mais forte que ele, descobre um poder, passa a lutar para defender a garota que se torna cada vez mais dependente dele. Essa é uma fórmula incrivelmente comum e popular, estando presente em incontáveis obras, como Rosario + Vampire, Yumekui Merry, o recente Campione! e um sem número de outras. Vamos ignorar as tentativas de explicação psico-sociais desse fenômeno e nos ater somente ao papel da mulher.

Em Shakugan no Shana, Shana é a típica tsudenre (personagens que fingem ser duronas, mas que no fundo são frágeis) superpoderosa, não diferente da Tohsaka de Fate/Stay Night, que resiste ao protagonista no começo, porém logo se apaixona por ele e vai ficando cada vez mais dependente da proteção dos protagonistas.

É interessante até mesmo notar o quão comum é que protagonistas falem “eu quero protegê-la”, como se existisse algum tipo de dependência natural de mulheres de alguém que a proteja. Shana é especialmente interessante nesse ponto, pois foi um dos primeiros exemplos desse tipo de obra (e uma das mais populares também), além de apresentar um twist na forma de que a inversão não é completa e Shana ainda permanece relativamente independente. Outros casos apresentam personagens que deveriam ser competentes, mas que, no fundo, se tornam só aquilo que o protagonista quer proteger ou um objeto para mover o roteiro.

E isso sem nem mesmo entrarmos na questão do harém, séries onde um único protagonista tem várias personagens correndo atrás dele. Ao mesmo tempo, se uma série fizer o caminho oposto e colocar uma mulher perseguida por vários homens, as fãs serão tratadas por muitos como fujoshis (termo que define mulheres que gostam de séries com relacionamento homossexual entre homens).

E não é só no casal central que isso ocorre. Outras personagens também acabam surgindo e funcionando como pouco mais que fetiches. Em Shana temos Wilhelmina (a meido), Margery Daw (a estrangeira) e Kazumi (a garota-fofa-mas-inutil). Mas se aqui apenas Kazumi quer o protagonista, o mesmo não vale para outras séries onde praticamente todo o elenco feminino está caído pelo herói e acaba tendo de ser salva por ele. E tudo isso é natural e até mesmo esperado.

E esse tipo de série se torna cada vez mais comum. Basta olhar os lançamentos de cada temporada e contar quantas são uma variação do mesmo conceito geral de um protagonista perseguido por várias garotas. A situação chegou ao ponto em que a mera existência de uma série séria protagonizada por uma mulher que não é dependente de um homem se tornou surpreendente, como foi o caso de Rinne no Lagrange. E isso numa época em que existe até certa paranóia feminista em alguns círculos.

Não obstante, existe mesmo certo preconceito no Brasil quanto à pessoas que gostam de séries protagonizadas por garotas, sejam Shounens, Shoujos, Joseis ou Seinens, em especial por alguns fãs mais antigos. Ninguém em nenhum momento questionou a presença de Shiina no Saint Seiya original, porém muitos fãs levantaram a voz quando apareceu entre os Saints de Bronze uma mulher.

Por que isso? Por que parece ser tão difícil de aceitar que uma mulher possa ser mais que um par romântico ou sidekick? Por que desde a Grécia antiga vivemos numa sociedade tão fortemente patriarcal? Por que é tão difícil hoje em dia que uma série, digamos, de ação, protagonizada por uma mulher, faça sucesso? Alguns citarão Canaan, Elfen Lied ou Queen’s Blade (embora o motivo do enorme sucesso da última seja outro), mas esses são casos isolados e cada vez mais raros.

Por quê?

Eu poderia dizer que tem algo com a maneira como a sociedade funciona ou com algum tipo de mentalidade fetichista, mas não acredito que seja isso (ou ao menos não apenas isso). A questão, porém, é muito mais complicada. Trata-se de algo tão inerente à narrativa que chega a ser difícil imaginar algo diferente. Não é algo que eu consiga sequer tentar explicar sem cair em teorizações extremas (mais extremas do que o normal).

Fica no fim o convite a cada um tentar achar uma resposta.

Concluo assim minha primeira tentativa de fazer uma série temática de textos, com altos e baixos e algumas discussões extremamente acaloradas no meio. Depois disso voltarei aos textos normais. Espero que tenham gostado do passeio.

Nos vemos por aí.

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