Otaku Neoclássico #31: Sakamichi no Apollon

O anime que fala com música.

Após um hiato digno de Hunter X Hunter, hora de voltar com o Otaku Neoclássico. E nessa reestreia, antes de partirmos para as bizarrices e polêmicas tão características, vamos para algo mais leve — Sakamichi no Apollon.

Adaptado da obra homônima de Yuki Kodama, o anime conta a história de Kaoru Nishimi, um garoto da cidade que é forçado a se mudar para o interior. Com extremas dificuldades de se relacionar com outras pessoas, Kaoru rapidamente chama a atenção de Sentaro Kawabuchi, o aluno mais temido da sala. Com o tempo, porém, uma amizade entre os dois se forma sob a força do Jazz, enquanto os dois enfrentam os problemas da adolescência.

Acho que é extremamente natural que surjam comparações com BECK. Na verdade, após assistir Apollon é quase impossível não fazer esse paralelo. Em ambos temos jovens reclusos se transformando pela música, se juntando a um garoto problemático, se apaixonando por uma garota próxima ao garoto problemático e tem suas atitudes questionadas.

Porém, enquanto BECK usa esse questionamento e essa revolta contra o sistema imposto como sua principal força motriz, Apollon segue o caminho oposto. De certo modo, isso poderia ser previsto desde o começo, pois se o Rock’n Roll é a música de revolta por excelência (óbvio, isso pode, sim, ser questionado, mas isso não é uma coluna sobre música, OK?) o Jazz é a música de melancolia por excelência (o que também pode ser questionado). De fato, esse posicionamento é definitivamente marcado no momento em que Sentaro recusa os Beatles como “música por qual garotas gritam”. Essa diferença básica guia as escolhas e soluções selecionadas por ambas as séries e, no fim, é o que torna cada uma delas única a despeito de suas semelhanças.

Com isso de lado, hora de falar do anime em si. A primeira coisa que se deve-se destacar é que essa série é a reunião de dois nomes que muitos aqui conhecem de outra série: Shinichiro Watanabe e Yoko Kanno, diretor e compositora de Cowboy Bebop. E isso pode ser visto com facilidade em Apollon, desde seu ritmo cadenciado (e lento demais em alguns momentos, vale dizer) até o clima melancólico de muitas cenas.

Outro ponto de semelhança entre os dois é a força que a música tem sobre a série. Se em Cowboy Bebop isso era algo importante, aqui se poderia dizer que a trilha sonora é a própria alma da série. Em muitos momentos sequer há falas, apenas ações e músicas no fundo. Como dito em um review do ANN, “O que não consegue expressar em palavras, Sakamichi no Apollon fala com música”. E isso não seria possível se não houvesse uma compreensão tão grande entre Watanabe e Kanno, algo adquirido de seu trabalho anterior juntos. Em certo sentido, Apollon é a evolução natural do trabalho conjunto dos dois.

Ainda falando da trilha sonora (seria possível NÃO falar dela em qualquer momento?), esse é, possivelmente, um dos melhores trabalhos de Kanno, o que é dizer muito já que estamos falando daquela que é considerada, ao lado de Yuki Kajiura, A compositora japonesa por excelência. A trilha sonora utiliza-se não só de composições originais, mas também de algumas das mais famosas músicas do Jazz americano, com músicas de Bill Evans, Miles Davis e Chris Connor. E mesmo as composições originais têm um feel que acaba remetendo ao cinema Noir. Em alguns momentos é quase possível se esquecer que o que se está vendo é um anime e não Onze Homens e um Segredo (o original).

Aliás, passada no período pós Segunda Guerra, pode-se ver o peso da influência americana no Japão, seja na música, seja nos marinheiros ou em alguns personagens. Isso é algo que sempre esteve presente na cultura nipônica e que, atualmente, com toda a polêmica das bases de Okinawa e os conflitos com a China pelas ilhas Senkaku (ou Diaoyu), está mais em voga do que nunca, com alguns grupos fundamentalistas lutando pelo reestabelecimento da cultura tradicional no país. MAS isso não vem ao caso hoje, então paremos a digressão por aqui.

A série, no geral, tem uma qualidade técnica boa para um TV Anime. O traço é limpo, embora o sombreamento por gradiente possa parecer estranho para alguns, em especial pelo modo como é usado nos cabelos, dando um aspecto um tanto plástico a eles.

A animação em alguns momentos pode também parecer desconfortavelmente mecânica, mas são apenas momentos. A direção, em geral, é sutil e usa muito tempo para construir o clima certo, o que pode ser uma grande desvantagem para os fãs de séries mais rápidas. Algumas passagens, porém, são extremamente… exageradas ao ponto de parecerem saídas de uma novela Mexicana (eu ficava imaginando a Gabriela Spanic dublando isso de vez em quando…).

Sakamichi no Apollon é uma boa série com um clima agradável e uma história leve, ideal para aqueles que queiram ver algo descompromissado ou simplesmente que gostem de jazz. Enquanto não estiverem esperando genialidade, Apollon irá ser uma experiência, no mínimo, agradável.

Número de Episódios: 12
Estúdio
: MAPPA, Tezuka Productions
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