Otaku Neoclássico #33: Fractale

Poderia ter sido beeeem melhor…

Ficção Científica sempre foi um gênero capaz de gerar debates filosóficos complexos. A distância entre humanos e máquinas, o que é a vida e a morte, o que é liberdade, o que é justiça. Todas essas e outras questões já foram levantadas por diversas obras em diversos gêneros. Animes inclusive. Mas, embora sejam extremamente importantes, as questões filosóficas, se não encaixadas num bom roteiro, acabam devorando uma obra.

E, infelizmente, isso é o que acontece no nosso assunto de hoje: Fractale, um dos poucos animes que conseguiram ser quase universalmente considerados medíocres. Mas, realmente é tão ruim assim? Vamos lá…

Fractale se passa num mundo futuro onde a sociedade se tornou dependente do Fractale, um sistema computadorizado que conecta todos os aparelhos eletrônicos e cria doppels, avatares sólidos de um indivíduo utilizados para todos os fins sociais. Nesse mundo vive nosso protagonista, Clain Necran, que um dia encontra-se com uma garota, Phryne, que fica em sua casa e vai embora no dia seguinte, deixando para trás um pingente que contém uma doppel chamada Nessa. Começa então uma aventura que irá levar Clain, Nessa e Phryne a se envolverem com uma rebelião e com os segredos por trás do Sistema Fractale.

Desde o primeiro episódio, Fractale revela seu tom Ghibliesco. As cores, o traço, a fotografia, as enormes paisagens verdes, imagens abertas e até uma certa simplicidade em tom aliam-se a relações promissoras, uma paródia da sociedade distanciada pela tecnologia e a dualidade de uma civilização que poderia fazer tudo, mas que não faz nada. A personalidade das protagonistas é apresentada de uma maneira satisfatória e a trama vai se montando. De fato, o primeiro capítulo foi excepcionalmente bom. O problema veio daí em diante…

Existem algumas regras quando se está desenvolvendo uma história. Uma delas é nunca apresentar elementos ou ideias demais. Enquanto colocar conteúdo de menos pode resultar numa obra vazia, colocar conteúdo demais deixa tudo confuso e acaba por não explorar nada. Infelizmente, foi o que acabou acontecendo com Fractale.

De início temos um núcleo central focado em Clain e Nessa e sua busca por Phryne. Logo são inseridos na história o governo de Fractale e o culto ao sistema, além de vários grupos revolucionários que lutam contra o sistema Fractale e sociedades que sobrevivem num mundo de ilusões. Tudo isso enquanto no fundo temos as tensões do relacionamento triangular entre Phryne, Clain e Nessa. Num anime de 11 episódios.

Há tanta coisa acontecendo que mal se pode explorar todas elas, algo similar ao que aconteceu com [C], exibido na temporada seguinte, também no bloco noitaminA. Na verdade, é até uma tradição do noitaminA ter séries com boas premissas que acabam desperdiçadas pela sua curta duração.

Mas e quanto ao ponto de vista técnico? Bem, Fractale tem visuais extremamente agradáveis e alguns episódios são verdadeiramente incríveis, como o sétimo, com sua cidade de luzes e cores. O uso de um traço simplificado permitiu uma movimentação mais suave (algo similar ao que é feito pelo estúdio Ghibli, embora numa escala bem menor). O character design também é relativamente simples, o que pode não agradar aos fãs de coisas mais rebuscadas.

A trilha sonora é boa e encaixa muito bem no clima da série, com destaque para o fechamento, uma versão de Down by the salley gardens cantada por Hitomi Azuma. Falando em fechamentos, não posso deixar de mencionar a criativa abertura da série, feita completamente com fractais. Vale a pena conferir. Mas, apesar de tudo isso, não se pode dizer que Fractale é mais que mediano quanto à execução técnica.

Mas a série é realmente tão ruim quanto muitos pintam? Isso é uma questão de ponto de vista.

Fractale tem sim falhas de roteiro e direção e ideias mal apresentadas, entretanto é inquestionável que a série tem muitas ideias boas e uma crítica que merece atenção. Algo que poderia ser, talvez, resumida numa pergunta: “Se a tecnologia foi feita para aproximar pessoas, porque todos estão tão distantes?”.

A relação entre Phryne, Nessa e Clain é feita para questionar uma sociedade onde todas as pessoas se veem apenas como avatares, rostos falsos de personalidades que podem não ser reais. A distância entre o real e o virtual, entre a complexidade da cidade e a simplicitude do campo, são imagens pintadas claramente por Fractale e que são refletidas por suas escolhas artísticas (designs simples para personagens “reais” e designs rebuscados para aqueles da “cidade”).

Entretanto, apesar de parecer apontar como solução uma retomada da vida campestre, Fractale é um anime e como tal uma obra que apenas pode existir graças ao sistema que denuncia. De certo modo é irônico que uma obra que vai contra sua própria existência acabe engolida por seus próprios questionamentos morais.

Talvez tivesse ouvido à sua própria mensagem e sido menos pretensioso, Fractale poderia ter alcançado seu objetivo e sido mais que um anime mediano. De um modo ou de outro, é difícil aconselhar essa série, pois, por mais interessante que seja como uma tentativa de estudo sobre uma sociedade em processo de mecanização, há inúmeras obras que fazem isso de uma forma mais convincente. No fim fica aquela sensação de “poderia ter sido melhor”.

Número de Episódios: 11
Estúdio
: A-1 Pictures
Vamos:
 Nessa

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