Otaku Neoclássico #34: Jinrui wa Suitai Shimashita

Saúde!!

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Comédia é sempre algo complicado de se abordar, especialmente quando se trata de animes. Se por um lado é impossível criar um ideal universal de algo que possa ser “divertido”, por outro o humor asiático é bastante diferente. O que normalmente se vê são gag series, paródias, nonsense ou piadas que os mais conservadores considerariam de péssimo gosto. Porém, nem toda série de comédia funciona assim.

E hoje nosso assunto é uma cujo humor se aproxima muito mais de Douglas Adams do que de Takeshi Kitano. Com vocês, Jinrui wa Suitai Shimashita.

A história se passa num mundo onde a humanidade está beirando a extinção e uma nova espécie, as fadas, surge como a dominante. Nossa protagonista que jamais tem seu nome revelado trabalha como Mediadora da ONU entre humanos e fadas e nesse trabalho ela acabará encontrando uma fábrica de itens mágicos, pães que falam e sangram e uma conspiração feita por… comida. E isso só nos dois primeiros episódios.

Ali em cima, comparei Jinrui a um trabalho de Douglas Adams, o mais famoso dos quais é O Guia do Mochileiro das Galáxias (leiam se tiverem uma chance). Para quem não conhece, Douglas Adams é famoso por seu humor negro e ácido, suas paródias sociais, pelo seu nonsense e por ter escrito episódios de Doctor Who.

E é exatamente esse o tipo de história que Jinrui é: uma intrincada crítica social lotada de surrealismo, sarcasmo e alguns conceitos extremamente complexos. Como suas fadas, o anime esconde por trás de um sorriso uma mentalidade complicada.

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Aqui darei destaque a dois arcos, apenas como modo de demonstrar o que estou dizendo. Os episódios 3 e 4 são o arco da Subcultura, durante o qual  Y, uma amiga da mediadora começa a produzir dojinshi (a grosso modo, o equivalente japonês a fanzines) yaoi. O mangá rapidamente ganha popularidade até que uma febre começa e surgem convenções voltadas apenas para essas obras. Mas isso é só a introdução.

A história realmente começa quando a Mediadora, seu Assistente e Y são transportados para dentro de um mangá, onde têm que fazer cada quadro ser interessante para assim evitarem serem canceladas.

Em suma, todo o arco é uma enorme sátira da maneira como funciona a indústria de mangás (os paralelos com a Weekly Shonen Jump estão por toda parte).

O episódio 9, As Habilidades de Sobrevivência das Fadas, prende a Mediadora e um grupo de fadas numa ilha, onde as pequenas criaturas nomeiam a heroína sem nome sua Rainha e iniciam o desenvolvimento de uma nação. Do início da agricultura aos erros de governo e à produção de plantas transgênicas, surge uma deliciosa alfinetada no sistema social que nos rege. Tudo temperado com os comentários sarcásticos da Mediadora.

O resultado é uma das mais insanas e surreais comédias dos últimos anos, algo ao nível dos trabalhos de Hiroyuki Imaishi. Óbvio, não é um humor para qualquer um. Existem muitas pessoas que não iriam se interessar por uma série em que pães se suicidam rasgando-se ao meio, fazendo jorrar um gêiser de sangue. Na verdade, o humor negro da série chega a passar do bizarro e ir direto ao medonho em algumas situações.

Talvez seja válido dizer que Jinrui é menos uma comédia negra do que um misto entre comédia e horror… com uma quantidade absurda de açúcar junto na mistura. Só falta o Elemento X para se conseguir tirar as meninas superpoderosas…

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Outro ponto que vale destaque quando se fala de Jinrui é quanto a série se esforça em se manter visualmente simples enquanto desenvolve tramas inacreditavelmente absurdas. O traço é muito limpo e usa de pouca sombra para permitir uma animação fluída. Os cenários são desenhados de modo que parecem aquarelas tiradas de um livro infantil, o que realmente dá um charme extra a uma série sobre fadas… mesmo que essas fadas não sejam bem como as fadas que se vê normalmente. Some isso a uma trilha sonora leve que parece se fundir com as cenas e você tem um clima incrível.

Mas apesar de tudo isso, Jinrui consegue ainda ter momentos extremamente sutis que refletem os efeitos da sociedade na vida das pessoas. Não são coisas extremamente dramáticas e que pareceriam terríveis a princípio, mas detalhes que mostram que, apesar de todo o humor, a humanidade realmente está entrando em declínio (o título da série pode ser traduzido como “A Humanidade Decaiu”). Coisas como um robô que continuamente bate numa parede tentando cruzar um corredor que não existe mais, ou o fato de alguém perder a capacidade de sequer saber quem é por jamais ter encontrado ninguém.

O tempo e o isolamento são os temas mais recorrentes por toda a duração da série. É irônico que por trás de toda a sátira pesada seja nos seus momentos mais lentos e melancólicos que Jinrui consiga mandar com mais força sua mensagem: a humanidade está se perdendo em sua própria ambição. Porém, por mais que diga isso, a série não esquece a esperança, pois mesmo à beira da destruição, só basta um pouco de boa vontade para que tudo melhore.

No fim, o que importa é a diversão. Talvez seja essa a verdadeira mensagem de Jinrui.

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