Resenha: Rurouni Kenshin #1 – Editora JBC – Parte 2

Retalharam o retalhador!

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Ao invés de fazer um texto só e confundir os leitores, decidimos fazer duas partes e nos completarmos. Afinal, cada um vê um pouquinho mais que o outro não, não é verdade? Por isso, não deixem de ler a parte 1 do Dudu.

Como você deve saber, esta é a segunda versão de Rurouni Kenshin da JBC, não confundir com o Rurouni Kenshin – Tokuhitsuban, que é uma requentada da história no estilo mais atual do autor lançado atualmente no Japão.

As diferenças entre as versões da JBC vão além do formato maior, houve a tradução de pedaços antes ignorados, novas notas, manutenção de termos antes apagados e reedição. Até porque a versão 1 era toda cheia de quadros brancos para todo lado e falta de tradução, uma maravilha.

Diga-se de passagem, o fato de ter sido necessário tanta alteração mostra que a qualidade original era… Se tivesse sido feito decentemente desde o começo, tudo que seria necessário era revisar e bam, prontinho. (Como a maioria das editoras fazem.) A JBC está tendo o mesmo custo de produção que teve com o primeiro (descontando, é claro, mudança de salário e inflação). Não é a toa que ficou caro.

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Mas, já vejo em uns 10 anos a versão 3 rerevisada, porque a versão tão “caprichada” deixa a desejar em vários pontos. A impressão que tive ao ler o volume 1 foi que faltou atenção, choveu erros bobinhos que não dá para entender como que passou pelos tantos revisores e profissionais.

Ok, que tipo de erro? Como disse, erros bestas, como os de formatação. Uma reticência aqui de 4 pontos (na página 59); vários e vários balãozinhos de oro sem pontuação ali; uma ou outra plaquinha não traduzida; onomatopeias não traduzidas (na 18, 23, 29, 51, 53, 55, 69, 85 e por aí vai); na maioria dos casos os textos iniciados com reticência tem um espaçamento entre a reticência e a palavra a seguir, mas uma vez ou outra isso não ocorre; na 16 tem um “argh!” quase ilegível de tão minúsculo que está no balão…

Falta de padronização nos capítulos. Exemplo, os capítulos aparecem no índice como “Ato 1 Kenshin — Battousai Himura” (usando travessão), você vira a página tá “Ato 1 – Kenshin — Battousai Himura” (agora com um hífen a mais e um travessão), vire de novo “Ato 1 Kenshin – Battousai Himura” (dessa vez com hífen). Ainda tem uns sem nada, tipo “Ato 5 O Homem da Briga”. Se eles fizeram caquinha com as pontuações, será que fizeram nos títulos? É claro que sim! Ato 4, índice “Um novo recomeço” e dentro do volume “Um novo começo”.

Já que comentei do índice… Me diz qual a utilidade de um índice com as páginas se no resto do volume todo praticalmente não existe numeração? Sabe quantas páginas tem o número? Uma. Apenas a página 50 tem o número. Falta de espaço? De jeito nenhum, essa é uma obra possui bastante borda, e mesmo contando que muita delas viram quilos de notas, isso não justifica a total falta de numeração. É diferente de um título como Hitman que não tem absolutamente nenhum espaço e acabou com apenas 3 páginas numeradas.

Com tantas bobeiras de formatação, me vejo questionando o “capricho” e “revisão” da versão. Não quero dizer que as coisas acima deixam o volume “ilegível” ou você não deveria comprar. A questão é que passa a ideia de ter sido feito na pressa algo que a editora afirmou ser “edição especial”.

E outra, se as pessoas encarregadas não conseguem perceber essa quantidade de erros, que outras coisas elas deixaram passar que não conseguimos ver, como má tradução, alguma fala apagada, etc? Acho difícil acreditar que uma pessoa que deixa passar erro “besta” não deixe passar um “complexo”. Antes tivesse sido só 1 ou 2, mas mais de duas dúzias de erros pequenos…

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Existem outros detalhes e erros, também, recorrentes relacionados aos aspectos físicos:

Páginas cortadas. Quase todas as páginas tem uma margem branca grande no miolo (o que ajuda já que não temos que arregaçar o mangá pra ler o que está ali) e que é assim na versão japa também, mas na outra lateral não, o formato adotado cortou muitas falas e desenhos do original. Abaixo alguns exemplos da imagem perdida na versão da JBC.

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(Clique para ver a imagem maior e mais detalhada.)

Isso geralmente ocorre em várias versões inclusive japonesas, por exemplo, o kanzenban de Kenshin corta o topo, compare as imagens com a da JBC e você vai perceber isso. Vale a pena comentar que além do corte lateral existe um levíssimo corte na base da versão brasileira, de algo como 1~2 milímetros que nunca cortou nada de importante.

A questão toda aqui é ter certeza que o formato que você (como editora) elegeu não vai cortar coisa importante. Volte nas imagens, os cortes matam onomatopeias, por exemplo, e trucidam balões deixando-os extremamente finos. Mais que isso, pedaços relativamente importantes vão embora, na segunda imagem (aí embaixo), você vê um cigarro flutuando no canto da página, não dá para ver o personagem ou a emoção dele de bravo.

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(Clique para ver a imagem maior e mais detalhada.)

É responsabilidade da editora garantir que isso não aconteça, os modos de corrigir isso são muitos, você pode diminuir a imagem para que sua totalidade se encaixe na página formando bordas em alguma lateral (a versão 1 era assim), ou você pode arrastar a imagem para o miolo se aquele lado não sofrer com o corte, ou desde o início adote um padrão diferente, ou qualquer outra solução que você imaginar.

Além dos cortes provocados pelo formato adotado, existe os provocados por várias razões juntas, incluindo a finalização gráfica. Isso é fácil de ver quando pedaços da adaptação da editora são cortados. É claro que o formato inicial influencia, por causa do espaço deixado, mas é culpa do editor e da gráfica se alguma fala, nota ou onomatopeia em português for cortada. E isso aconteceu em 8 páginas do meu volume, mas pode mudar de edição para edição, já que não é possível saber quem cometeu o “erro”.

Seja como for, a quantidade de balão e texto nos cantos é imensa, ao ponto de se mover o dedo em certas falas para se ler aquele cantinho, a causa principal disso é exatamente o formato adotado. Por isso mesmo que muitos dos balões foram deliberadamente descentralizados ou a fonte do texto foi diminuída (às vezes ao máximo possível) para garantir que não sejam cortados (e mesmo assim alguns foram).

Geralmente essa “descentralização” e “diminuição” de propósito ocorre normalmente em todos os títulos de qualquer editora, o que incomoda é que cortaram tanto que 65 páginas sofreram esse fenômeno (sim, eu contei), ou seja 30% do volume.

O caso mais “extremo” foi uma das últimas páginas do extra (que reproduzo abaixo), onde o balão está quase 100% cortado e a tradução foi arrastada para cima da imagem. Sendo esta uma série longa de 28 volumes, quantas mais vezes você aposta que isso acontecerá?

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Tem mais um pequeno detalhe em toda a essa questão, lembra que isso é uma versão 2, certo? Bem, a primeira versão era (proporcionalmente) mais fina que a atual (de 13,5 x 20,5 cm). Mas, esse primeiro continha borda e não apresenta nenhum corte em nenhum dos 4 lados. Então como é que uma versão mais larga corta??

Bem, usando a versão brasileira (edição 1), a versão americana e a versão kanzenban para cálculos, a imagem completa na edição 2 tem as medidas 14,2 x 20,7 cm, ou seja a imagem original é 0,2 cm mais alta e 0,7 cm mais larga que o formato adotado. Isso significa que você perde quase 6% de conteúdo, o que podia ser nada, puro branco, mas como comentamos acima, é 6% de conteúdo relativamente importante que está causando cortes e deformação na adaptação.

Por que a empresa faz isso? Qual a lógica de tanto corte e tanta deformação do textos? Se a editora tivesse lançado no formato de BT’X (12,5 x 18 cm) não haveriam cortes algum e devia sair até um pouco mais em conta, ou quem sabe no formato 14,5 x 21. Particularmente me incomoda que a versão especial seja cortada e tenha que se dar vários “jeitinhos” para que a adaptação caiba no espacinho restante, enquanto a antiga nunca tenha sofrido isso.

Um último adendo, caso alguém se pergunte, os kanzenbans tem 14,75 x 21,1 cm e os tankoubons tem 11,18 x 17,53 cm no Japão.

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Textos descentralizados. Bem, vou ignorar os que são causados pelo formato e que comentei acima. Em geral os balões com apenas pontuação estão descentralizados (não todos), o motivo é óbvio, porque não foram editados. No Japão os textos não são centralizados, mas alinhados no topo e na direita do balão, caindo como uma cascata. Sendo assim, todos os balões com apenas pontuação que não foram editados (em geral as reticências) estão encostados no topo e/ou na direita ao invés de centralizados. Nada que mate nós, leitores, mas algo que mostra um pouco de “preguiça” por parte da editora.

Fonts. A quantidade de fonts usada neste versão é grande, especialmente se considerarmos que a versão 1 tinha apenas 1 mesma para todo o mangá. Além das diferentes, foi usado tamanhos diferentes, negrito e itálico; cores e bordas diferentes também (tipo borda preta e cor branca). Tudo na tentativa de imitar o original o que é louvável.

E é claro, não podia faltar os  problemas nas reconstruções e edições. Até “kanji” perdido no volume tem! A quantidade de erros é frustrante, especialmente quando você percebe que este não é um título recheado de reconstruções, e dessas um punhado são mais complicadas. No volume 1 são umas 6 complicadas e é nessas que a JBC mostra suas… habilidades. Mesmo as mais simples têm erros, não foram reconstruídas (apenas apagadas) ou têm borrões, você pode encontrar algumas nas páginas 5, 22, 55, 58, 61, 169, 199, etc.

Alguns exemplos, começando com a página 6, a abertura do capítulo 1. Aqui os erros estariam bem camuflados se não fosse pelo formato de kanji ali no finalzinho. Ali é o kanji de “sai” (de Battousai), acima dele ainda tem a legenda (ou resto dela) escrito “usai” em hiragana (um pedaço do “i” está apagado) e, se você tiver olho para isso, dá para enxergar um pedaço do traço de “tou”.

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(Versão simplificada da imagem, clique para ver mais exemplos de erros num tamanho grande e detalhado.)

Outro exemplo, na página 168, tem uns rabiscos da Kaoru, se você olhar a parte superior do desenho é possível perceber duas linhas brancas imperfeitas (onde antes estavam o texto em japonês) e, no meio da mais embaixo, aparece um “n” em katakana esquecido. (Só depois me toquei que tem mais uma terceira linha na esquerda, vamos ver se vocês acham! =D)

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(Clique para ver a imagem maior e mais detalhada.)

Ou seja, antes a JBC (e outras editoras… *cof* Conrad *cof*) colocavam um quadro branco por cima de tudo, agora (olha a evolução) eles apenas passam branco nas letras (ou fazem uma reconstrução de qualquer jeito). A boa aqui é que a grande maioria nem vai perceber, afinal poucos tem aquela noção de que aquela linha branca que você está vendo ali era uma linha de texto. E poucos tem a sensibilidade de perceber ao ver o desenho que o artista não desenharia algo deixando uma mancha branca no meio.

Apagar ao invés de reconstruir é algo que a empresa tem feito desde sempre, quadros brancos são exatamente isso numa escala maior. Enquanto a Panini contrata pessoas que sabem desenhar e se descabelam com a edições cansativas, a JBC apaga e conta com o fato de que você leitor provavelmente não verá. Não é atoa que ficam todos irritadinhos quando a gente mostra o serviço porco.

E sabe o que mais? Depois de apenas apagar tudo, você ainda paga o mesmo ou mais caro por um serviço de menor qualidade. Será que os “reponsáveis” não percebem que aqueles pagos para fazer o serviço não o estão fazendo? Ou, talvez, não tenha ninguém mesmo, só o tiozinho ali passando a borrachinha… Ou, quem sabe ainda, eles simplesmente não dão a mínima.

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O irônico é que as belas páginas brancas da JBC (nunca achei que diria JBC e Branco numa mesma frase) e a tinta boa e bem definida da impressão, na verdade, destacaram ainda mais a edição meia-boca, que há anos perde para o trabalho das meninas (e meninos) do Planet Mangá.

Em questão de acabamento, a JBC ainda não é a melhor, mesmo com todas as mudanças. Comparando aos volumes da NewPOP, por quase o mesmo preço, a edição tem o mesmo tipo de papel off-set, mesma espessura. Mas, as capas da concorrente são mais duras e possuem o verso colorido (que é imitação da Panini), as da JBC continuam molengonas, só perde para as capas da Sampa (que mesmo mole é colorida no verso) e as da Online (que é a piada do mercado). A primeira versão, o Samurai X, tem uma capa mais forte do que a nova…

Os produtos deles também continuam sendo colados, por isso o volume não tem cantos de exatamente 90º, mas aparentemente é uma boa cola. E tomara que seja, porque a brochura deles é do tipo que descola página por página (igual ao da Panini e da Sampa; a NewPOP é a única diferenciada). Mas, questão de tempo para sabermos se é boa mesmo, cruze os dedinhos.

E as imagens das capas? Até que ficou interessante, eles pegaram as imagens originais dos tankoubons, tiraram os fundos super coloridos, deram um reorganizada e voilà! Para algo tão reciclado, até que ficou bem original, não é verdade?

Devo dizer que achei meio estranho o design do título, mas até que dá para entender a ideia. De todo jeito, é um dos melhores que a editora já criou, então estou satisfeita.

E, tá bom, tá bom, vocês conseguiram, fizeram uma capa bonita, parabéns, mas não precisa colocá-la em dobro!!! Essa é a única editora que continua com essa palhaçada nos novos lançamentos. E outra, cadê os resumos de capa? A introdução para aquela pessoa que nunca viu? Depois temos que ouvir das editoras que título X não vende…

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Quanto ao custo, os volumes estão saindo por R$13,90. O preço praticado é “alto”, mas será que está “caro”? Podemos usar as edições de outras editoras para comparar: As novas edições da NewPOP com essas características giram em torno de 12 a 16 reais. Red Garden de 176 páginas, Off-set 90g, 12,7  x 18,89 cm é exatamente R$12,00, mas Kenshin tem algumas páginas a mais e um formato maior, o que aumenta o preço. Os da Conrad, que eram um pouco maior e 184 páginas, mas possuiam páginas bem finas, custava R$12,90 alguns anos atrás.

Por outro lado, Rurouni Kenshin é uma licença mais cara e, como comentei, houve muito trabalho feito nesse volume, reedição (ou melhor, borrachação), rerevisão, retradução, etc. Se fosse realmente apenas uma nova edição do mesmo material anterior, o preço poderia ficar mais diluído (como é o caso de Naruto e Naruto Pocket da Panini). Se pelo menos a editora fizesse um trabalho impecável…

Para quem nunca teve a chance de ler a obra, não é uma chance para se desperdiçar. Mas, vale a pena comprar novamente se você já leu ou adquiriu da primeira vez?

Essa versão com certeza deve durar mais na sua pratileira com o passar dos anos, mas vale a pena desembolsar 390 reais para comprar uma nova coleção? Entre os erros bestas em abundância, a falta de recontruções, a quantidade de corte e perda do novo formato, a falta de mimos como páginas coloridas… A versão 1 não é perfeita (longe disso), mas gastar tanto dinheiro para adquirir mais uma edição falha…?

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E, se era para refazer tanto e com um preço mais alto, por que não trazer a versão Kanzenban ou algo diferenciado? Algo que atraísse aqueles que já possuiam a versão anterior.

Nos Estados Unidos, por exemplo, eles lançaram o “Viz Big”.Uma coleção revisada com 9 volumes e um acabamento padrão, voltado para livrarias, o que diminuiu o preço total de distribuição e produção, embora unitariamente mais caro, a coleção completa sairia mais barata para o consumidor. Oferecendo uma opção para aqueles que nunca tiveram a obra ou que desejavam comprá-la novamente. Mesmo no Japão, as segundas versões lançadas são sempre diferenciadas, tankoubon só é relançado depois de muito tempo, se for.

Há quem vá dizer que não vende, que a Conrad tentou e quebrou a cara. Se não vendesse, a editora não teria lançado 14 edições de Vagabond e 16 de Dragon Ball durante mais de dois anos (gente, até a Conrad não pode ser tão tapada).

Não só a Conrad vendeu coisas assim, a L&PM tem lançado  Peanuts Completo (não é mangá, eu sei, mas é quadrinho) em edições absurdamente luxuosas por 70~75 reais, já são 5 volumes e a editora continua a lançar periodicamente; duvido que a empresa iria continuar a lançar algo que encalhou, inclusive pode ser complicado achar um ou outro por ter esgotado em certas lojas.

Outras editoras do passado também fizeram relançamentos em volumes grandes, como a Globo que após os 38 volumes de Akira, relançou em 5 edições entre 1992 e 1993; e a Mythos que relançou Dark Angel em 2003. A própria Panini vem soltando dicas de que está interessada e relançar Berserk e outros em um formato menos “lixuoso”.

Enquanto isso, na JBC, lançar volumes em formato tankoubon e qualidade similar (ou até inferiores) a das outras editora é “edição especial“.

Infelizmente, se quiser mesmo comprar coisas especiais dos títulos da JBC, só apelando para outras línguas.

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