Crítica | Ilha dos Cachorros

Com história ambientada no Japão, filme de Wes Anderson retrata temas atuais com sensibilidade em uma animação belíssima.

Deixe para Wes Anderson tornar uma história que se passa em uma ilha cheia de lixo e cujos personagens principais são cães abandonados, linda. Começando pelo sentido óbvio da palavra, “Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs), novo filme do diretor que estreou em cinemas do Brasil nesta quinta (19), é visualmente maravilhoso. Toda a obsessão de Anderson com simetria, paletas de cores estonteantes e detalhes minimamente calculados está lá, com encantos a mais proporcionados pela técnica de stop motion, utilizada pela segunda vez por Anderson em um longa (a primeira foi com o, igualmente belo, “Fantástico Sr Raposo”, de 2009), e pelas referências estéticas japonesas.

Já adiantamos, aliás, que a representação da cultura nipônica por Anderson gerou algumas polêmicas, mas não vamos entrar nesse mérito nesta crítica – pra quem quiser entender, recomendamos este texto do Los Angeles Times, em inglês.

Ilha dos Cachorros” se passa na cidade de Megasaki, no Japão e sua trama gira em torno de uma conspiração política que resulta no banimento dos cães do município para uma ilha, afastada e cheia de lixo, devido a uma doença misteriosa que contamina os animais. Na ilha, somos apresentados aos cães Chief, Rex, Duke, Boss e King, que lutam para sobreviver no ambiente hostil, até que conhecem Atari Kobayashi, um garoto de 12 anos que rouba um jato na cidade e voa até a ilha em busca de seu cão, Spots.

Não vamos falar mais da história para evitar alguns spoilers, mas podemos adiantar que os fãs de Anderson vão se deliciar com a trama envolvente, o humor característico do diretor e com os detalhes sutis que permitem que o espectador visite a alma desses personagens, ampliadas através da bela animação – em diversos momentos em que os olhos de brinquedo dos personagens começam a marejar com lágrimas, é bastante difícil reprimir as que surgem como reflexo em nossos próprios olhos.

A emoção, já que estamos nesse mérito, é garantida não apenas pelos esperados momentos de cumplicidade e entrega que representam a relação entre um ser humano e seu cachorro (ou outro animal de estimação), mas pelas metáforas atuais e pertinentes sobre questões políticas e sociais: ainda que o faça com pouca profundidade em alguns momentos, o filme traz luz para temas como a crise dos refugiados, os perigos do autoritarismo, e reflexões sobre nossa capacidade humana (ou falta dela) de nos relacionarmos e compreendermos outras culturas ao nosso redor.

Em termos de narrativa, “Ilha dos Cachorros” até demora um pouco para engatar, mas termina com gosto de quero mais: é imediata a vontade de assistir de novo, apreciar com mais calma as nuances de cada personagem (o time de vozes originais, aliás, conta com Bill Murray, Scarlett Johansson, Frances McDormand e, por que não, Yoko Ono) e visitar todas as referências cinematográficas japonesas que ajudaram Anderson a compor sua, novamente magnífica, obra. Independente de polêmicas sobre essas mesmas referências e suas apropriações, passar algumas horas em companhia dos amáveis amigos caninos e seu inesperado amigo humano nos faz pensar sobre a nossa própria humanidade e alguns dos valores básicos que nos unem, independente de idiomas, culturas ou, no caso do filme, espécies: amizade, solidariedade e confiança.


SERVIÇO

Ilha dos Cachorros está em cartaz apenas em São Paulo e Rio de Janeiro, em cinemas das redes Cinemark, Kinoplex, Itaú e Estação NET. Todas as sessões são legendadas.

RIO DE JANEIRO

Cinemark Barra Downtown
Sessões às 15h30 E 20h20
Espaço Itaú de Cinema – Botafogo
Sessões às 16h, 18h, 20h e 22h
Estação NET Botafogo
Sessões às 14h20 e 19h
Estação NET Rio
Sessões às 16h50 e 21h20
Kinoplex São Luiz
Sessões às 19h e 21h40

SÃO PAULO

Cinemark Shopping Metrô Santa Cruz
Sessões às 17h40, 22h25 e 23h50 (sábado)
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca
Sessões às 14h30, 16h50, 19h e 21h
Kinoplex Itaim
Sessões às 16h10, 18h30 e 20h50

Publicidade
close