Crítica | Re:Zero – Um Dia na Capital: Volumes 1 e 2 (primeiro arco)

Com pitadas de vários elementos, 1º arco em mangá de Re:Zero não encontra um “sabor definido”.

Re:Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu, ou só Re:Zero mesmo, é uma light novel publicada inicialmente em formato online a partir de 2012 no Japão, escrita por Tappei Nagatsuki e ilustrada por Shinichirou Otsuka. No Brasil, o primeiro arco adaptado em mangá, subintitulado de Um Dia na Capital, foi concluído em 2 volumes (a versão que serve de base para a crítica deste texto) pela Panini, enquanto a novel é publicada pela NewPOP, com 5 edições até o momento (um artbook também já foi confirmado pela mesma editora). A arte para a versão em quadrinhos foi desenvolvida por Daichi Matsune, com base no design original.

Caso você ainda não tenha lido, eis a sinopse disponibilizada pela Panini: Subaru Natsuki é um colegial que, repentinamente, é invocado para outro mundo. Sem saber como chegou lá, ele é atacado por bandidos, mas é salvo por Satela, uma misteriosa e bela garota de cabelos prateados. Para retribuir, Subaru ajuda a garota a encontrar um objeto perdido, mas, ao se deparar com uma pista, os dois são atacados por algo e perdem suas vidas! Porém, um poder para fazer o tempo voltar com sua morte dá início a uma história de caminhos reescritos, repetindo sempre o primeiro dia. Qual será o destino de Subaru?

Em suma, sendo bem superficial, Re:Zero é um Isekai [1] medieval basicão, com magias, equipamentos, seres diferentes, etc. Esse primeiro arco não se preocupa muito em conceituar seu universo nem explorar os personagens, focando bastante num certo viés humorístico e no romance do protagonista. O modelo da história segue bem o padrão de caminho do herói, mostrando obstáculos clássicos e como o protagonista faz para superar tais.

ATENÇÃO: A partir deste ponto, o texto apresenta spoilers da história


A princípio, Re:Zero pareceu-me como um suco em pó, tipo aqueles Tang/Trink. Não tem muita substância, mas é gostoso e fácil de assimilar, tem muito açúcar (romance) e no fim das contas não passa de uma imitação pouco apurada da realidade. Pensei que essa metáfora encaixaria como uma luva assim que comecei a ler, mas aos poucos percebi que na verdade Re:Zero é um mangá/suco bem aguado.

A consciência do protagonista de que ele estava em um “Isekai [1]” foi algo que me pareceu extremamente interessante e provocativo, mas ao mesmo tempo se tornou uma preocupação. Enquanto posicionado como uma “crítica” a esse gênero tão repetitivo e clichê, Re:Zero parecia propor andar na contramão disso, mas a medida que a obra avança, essa construção é simplesmente esquecida e ironicamente acaba caindo nos mesmos vícios e clichês do gênero.

Os dois primeiros capítulos (o primeiro arco) da história, não se preocupam muito em nos dar justificativas ou razões para tudo aquilo que está acontecendo. Muito menos nos mostrar quem é o protagonista ou de onde ele veio de forma mais ampla do que apenas uma ficha de personagem. Não que isso seja necessário, mas a partir do momento em que uma história não proporciona, desde o início, uma fundamentação bem estruturada do seu universo e das pessoas inseridas nele, tal deve compensar em outros elementos.

O primeiro elemento ao qual julgo fundamental para histórias que não querem adentrar na esfera conceitual do seu próprio universo, é a interação, ou seja, os diálogos. E no caso específico de Re:Zero, a grande parte deles é extremamente simples, óbvio e sem muita graça. Resumem-se em frases de efeito, piadocas, pensamentos expositivos, flertes e gritos de esperança/coragem/motivação. Isso é bem comum para mangás com um público alvo voltado a pré-adolescentes/crianças, entretanto, resumir-se apenas a isso, acaba deixando, como disse no primeiro parágrafo, o mangá bem aguado e sem muito o que oferecer mesmo para esse público alvo. Não chega a ser incômodo, mas é bem insuficiente.

Já que nos diálogos Re:Zero não compensa a sua falta de construção conceitual, creio que na climática isso deveria ser consertado. Não é incomum obras conseguirem um resultado muito bom controlando o timing e o desenho para construir uma atmosfera que, mesmo com diálogos pobres, conseguisse transmitir sensações e sentimentos fortes. A grande parte dos Shonens, arrisco até citar Naruto, consegue nesse “malabarismo” narrativo, transmitir uma certa veracidade e consistência em seus momentos. Infelizmente com Re:Zero não acontece algo do tipo. Os acontecimentos e epifanias previsíveis do protagonista são colocadas em cena com um clima tão despreocupado e simplório, que tudo acaba passando batido. Sem falar das “quebras de expectativas” que não possuem grande impacto na história, só efetuam um alívio cômico e deixam a história mais arrastada. Algumas até incomodam bastante, tipo a Elsa não morrer. Pra que isso?

Então, já que Re:Zero é um pouco sem substância e não transmite muita coisa, como eu pude mostrar nos parágrafos anteriores, bom, o que sobra são as questões estruturais. E infelizmente, em estrutura, Re:Zero é muito arrastado. Várias coisas são colocadas repetidamente, raciocínios desnecessários, falas que declaram o óbvio, focos em expressões faciais sem necessidade e o pior e talvez imperdoável: lutinhas muito, mas muito sem graça. Senti-me muito decepcionado quando o Reinhard apareceu para salvar o Subaru (segundo a nossa outra crítica, Dayara Franco, um “anagrama para suruba”), porque pensei que ia rolar, finalmente, uma luta massa, mas no fim das contas foi um acumulado de clichês que resultaram na fuga da antagonista.

Agora, falando especificamente dos personagens em si, da sua estrutura e construção, acaba piorando mais ainda a situação de Re:Zero, já que todos os personagens são estereótipos. O protagonista é o clássico “garoto comum de colegial”, Emilia, a co-protagonista é a clássica figura feminina sonsa, simpática, inocente, humilde e poderosa (mas não o suficiente), Felt é clássica garota das ruas desbocada e obstinada que quer fazer de tudo para mudar de vida, mas é muito sensível por dentro e por aí vai. Todas as personalidades facilmente reduzíveis em frases e, consequentemente, previsíveis.

E isso, no fim das contas, é bem decepcionante, já que na essência (o suco em pó), Re:Zero poderia dar muito certo. A proposta do protagonista voltar no tempo a partir de sua morte (meio parecidinho com Steins;Gate, mas vamos ignorar isso), poderia invocar temas interessantíssimos e construções incríveis, já que ninguém, por assim dizer, voltou da morte para contar como foi essa experiência. Mas no fim das contas a história acaba se apegando em vários outros pontos desinteressantes e piegas, finalizando esse primeiro arco com a “revelação” de que Subaru só salvou todos eles porque queria ver mais uma vez o sorriso de Emilia. (Internal Scream).


Glossário:
[1] Isekai é o termo em japonês que define histórias na qual o protagonista é transportado para um mundo diferente do seu.


Concluído em 2 volumes, Re:Zero – Um Dia na Capital tem miolo em papel pisabrite (jornal) e preço de capa de R$ 15,90. A tradução ficou a cargo de Fernando Mucioli, com edição de Diógenes Diogo.

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