Crítica | Goblin Slayer [Episódios 1 ao 9]

O que poderia ser um anime implacável em ideia e execução é prejudicado por uma porção de escolhas narrativas bobocas para adolescentes.

O review a seguir pode conter spoilers dos episódios 1 ao 9 de Goblin Slayer. Esteja ciente antes da leitura.


Goblin Slayer toma algumas decisões narrativas tão bobocas.

Sendo um dos títulos mais populares desta temporada, o anime apresenta uma série de conceitos bastante interessantes. São utilizados diversos signos remetentes a partidas de RPGs de fantasia medieval, sempre amarrados dentro de uma fórmula onde a experiência de contar a história seja a mais orgânica possível. Os arquétipos selecionáveis, com suas personalidades condizentes, estão lá (o herói estoico, a sacerdotisa ingênua, o anão bonachão, a elfa espevitada, os NPCs genéricos e por aí vai), supercaricatos, mas servindo como motores para tocar o que é contado para frente, sendo desenvolvidos e crescendo arco a arco.

O modo como esses “arcos” são dispostos também pega muito da experiência de partidas de RPGs. As missões começam em níveis mais fáceis, adquirindo dificuldade conforme são contadas e piorando a cada novo início, seja na quantidade de inimigos ou no nível de poder deles – só goblins, um goblin shamã, um hobgoblin, um ogro, um campeão goblin, um beholder etc. E ainda outros easter eggs são adicionados aqui e ali, como num momento onde alguns dos personagens falam sobre o quão fácil ser para um aventureiro passar de “justo” e “bom” para “caótico” e “mau”, ou nas narrações em off e na abertura, explicando que “deuses rolam dados” para decidir o destino daquele lugar.

E essas aventuras são bem propícias a divertir, emocionar e prender a atenção. Somadas ao carisma dos personagens envolvidos e ao sem número de possibilidades exploráveis em jogos do tipo, quando corretamente adaptadas ao estilo da narrativa, fariam desse um anime implacável em ideia e execução.

O destino é decidido através do rolar de dados…

Mas Goblin Slayer toma algumas decisões narrativas tão bobocas. Fica difícil curtir de verdade sem ser retirado completamente da experiência quando algumas delas aparecem.

A pior – e mais comentada pela galera que produz conteúdo sobre esse nicho aqui no Brasil e fora – é a estranha tara dos envolvidos na produção em explorar graficamente a violência com personagens femininas, mas optar por deixar isso implícito quando ocorre com os masculinos. Isso acontece em diferentes momentos. No primeiro episódio, uma das protagonistas (a que encarna a sacerdotisa ingênua) acompanha em sua primeira missão um grupo de exploradores inexperientes que quer assassinar goblins numa caverna próxima. As coisas dão errado e os quatro são encurralados.

O único rapaz da equipe é morto e dão a entender que ele foi fatiado pelas criaturinhas verdes, mas a câmera poupa os espectadores dessa visão. O mesmo não ocorre com as meninas. Na vez delas, vemos não só ataques diretos (uma facada na barriga, uma perna quebrando de maneira brutal), como as coisas vão ainda prum nível mais sombrio, com os monstros despindo-as e tocando-as, estuprando uma, tudo bem gráfico.

Em outra ocasião, mais para frente, com o time de cinco protagonistas completo, numa outra missão, eles quase são derrotados pelos inimigos. De novo, os momentos mais gráficos são deixados apenas para as personagens femininas em tela. Uma se mija de medo e tem um pedaço do braço arrancado por uma mordida. Outra, no chão, é despida e apalpada pelos goblins.

Na verdade, todos os momentos mais “sexuais” (atenção para as aspas) são montados apenas com as mulheres. Cenas de banho com seios fartos, cenas matutinas com elas acordando jogando seus seios fartos pela janela, conversas casuais com seios fartos colocados na mesa. Não que isso não possa acontecer, não sejamos pudicos. Afinal, a obra é uma “dark fantasy”, não é para crianças e cada autor trabalha tais “erotismos” da maneira que achar melhor. Mas convenhamos: são decisões bem bobocas.

Os diferentes arquétipos selecionáveis num RPG de fantasia medieval.

Esse conteúdo adulto propositalmente delimitado não, na falta de uma expressão melhor, “adultiza” corretamente Goblin Slayer. Pelo contrário, deixa o anime naquele patamar de obra para adolescentes que querem pagar de maduros, mas sem consumir algo que realmente vá além dos limites. Essa sensualidade poderia ser usada também com os caras, que, em sua maioria, utilizam trajes completos. Rola até um segmento onde ficaria bem condizente colocar o protagonista (o “goblin slayer” do título, um guerreiro que usa armadura e elmo o tempo todo) totalmente despido: quando ele passa por um processo de cura e acorda com a sacerdotisa numa cama. Ela, completamente nua, ele, de cueca.

Goblin Slayer fica num limbo incômodo de observar. Seria perfeito se seguisse 100% a vibe aventuresca mais infantil e positiva que parece ditar seu tom na maior parte do tempo (o primeiro episódio, de fato, é bem sombrio, brutal como alguns disseram, agressivo aos personagens física e psicologicamente, mas do segundo em diante o que comanda é o bom e velho estilo shonenzão onde finais felizes são fitados). Assim como, provavelmente, seria bem interessante se mergulhassem de verdade nessa proposta cinematográfica setentista “suja”, com não só as meninas, mas todos os personagens com quem fosse possível criar laços afetivos sofrendo em tela, num gore erradamente prazeroso de assistir, explorando sexualmente os corpos masculinos como fazem com os femininos (produções violentas para adultos fazem isso).

Infelizmente, isso não ocorre. Os que estão à frente do anime optam por fazer dele algo bem boboca de assistir. Divertidinho, com certa personalidade, que até entretém, mas muito boboca de assistir. Daqueles que, curtir ou não, fica mais a cargo do quão tolerante o espectador é para seus defeitos em comparação ao quanto de aproveitamento seus pontos positivos trarão ao final. Ainda há paciência para algo estupidamente adolescente, mas disfarçado de adulto? Vai fundo. Não? Outros animes numa temática parecida, mas com propostas melhor assumidas estão disponíveis por aí, como KonoSuba, Ragnarok e Re:Zero, citando só três infinitamente melhores que tal bobagem.


Goblin Slayer está sendo exibido simultaneamente com o Japão através da Crunchyroll (assista aqui). Esse texto foi feito com base nos seus 9 primeiros episódios.

 

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