Crítica | Erased – Volume 1 (Editora JBC)

Os assuntos mal resolvidos sempre voltam para te assombrar…

Erased – A Cidade Onde Só Eu não Existo (Boku Dake ga Inai Machi) é um mangá seinen escrito e ilustrado por Kei Sanbe, publicado originalmente entre 2012 e 2016 na revista Young Ace (a mesma de Another e Bungo Stray Dogs), finalizado em 9 volumes encadernados, tendo o volume 1 lançado recentemente no Brasil pela Editora JBC.

Dando um breve resumo, Erased inicia sua trama com a apresentação de seu protagonista Satoru Fujinuma tendo que lidar com a constante frustração de não alcançar o seu sonho de ser mangaká. Trabalhando como entregador de pizza, sua rotina é um ciclo solitário entre a desistência e perseverança, por um lado tendo que aceitar que tem 29 anos e por outro tentando permanecer com algum tipo de esperança acesa de um futuro onde ele possa de fato ser, parafraseando-o, “relevante ao mundo”. O ponto fora da curva é o fenômeno que ocorre com ele, ao qual ele mesmo dá o nome de “revival”, onde em momentos específicos ele volta no tempo repetidamente até fazer algo que muda a vida de alguém.

A trama é bem bacana, com moldes evidentes do gênero “investigação criminal”, com temas recorrentemente reforçados em torno do passado, assuntos mal resolvidos e a tentativa constante de consertar aquilo que gera remorso e ressentimento. O fenômeno que ocorre com o protagonista, o revival, é um desses reforços, deixando fixo e objetivo o caminho que a trama percorre e avança até o final deste primeiro volume. A utilização do revival é um reforço narrativo interessante enquanto ponto de redenção do protagonista, sendo constantemente utilizado ao longo desse primeiro volume, trazendo outros aspectos às problemáticas centrais da trama. É um elemento que enriquece bastante a história, pois em vez de ser uma habilidade especial, algo positivo que estabelece um questionamento apenas moral de uso, é na verdade uma responsabilidade, um peso.

Os problemas (tá pra nascer uma obra perfeita) de narrativa, infelizmente, são muitos. A constante utilização de balões de “pensamento” como forma de reforçar o arquétipo de “garoto solitário e reflexivo” ao protagonista, constroem uma personalidade extremamente artificial e pouco verossímil. É incômodo e desnecessária essa utilização, pois toda a sutileza e ambiguidade que uma personalidade orgânica possui, se esvai nessas determinações extremamente específicas expostas nesse tipo de balão. Assim como esse excesso de balões de pensamento, existe uma má administração do uso dos balões em geral: os personagens se veem, em momentos, completamente “esmagados” entre balões de pensamento de diálogos, bem como a repetição verbal daquilo que já está sendo exposto em forma figurativa, no desenho.

Erased não consegue construir uma narrativa fluida e balanceada, com uma cadência interessante e imersiva. Os enquadramentos são repetitivos e não possuem dinâmica, as expressões faciais não conseguem convencer por si só e os artifícios narrativos mais sutis, como os balões de fala em momentos de tensão ou o desenho “negativo”, mesmo tendo uma utilização bem bacana, não conseguem carregar nas costas as demais falhas. Fazendo um paralelo, é visível que não há muito domínio na comunicação visual, por isso quase tudo recai na escrita.

Os arquétipos, mesmo sendo um erro menos grave, também incomodam bastante. É extremamente fácil enquadrar todos os personagens em arquétipos como “o solitário reflexivo”, “a durona impiedosa”, “a fofinha sincera”, etc. Isso prejudica muito uma história que tenta contar o drama existencial de uma pessoa situada, mesmo que com contrapontos de fenômenos paranormais, na vida real. É o acerto do “horóscopo”, por exemplo, que torna uma personalidade extremamente genérica para fazer com que uma grande quantia de pessoas se sinta enquadrada e compreendida.

Em suma, a grande falha de Erased é tentar deixar tudo específico e claro demais. Não há espaço para questionamento, interpretação ou até mesmo interação emocional um pouco mais profunda com os personagens. Essa utilização indiscriminada de arquétipos é uma fórmula boba, um atalho, que em vez de agregar, a fim de tornar mais fácil a empatia com os personagens, apenas dá menos credibilidade ao fator “drama” que é representado na história. Enquanto a narrativa, com estruturação mal pensada e desequilibrada, torna a leitura cansativa, pouco imersiva e pobre visualmente. A trama é legal, mas a história é contada de um jeito bem torto.


Essa resenha foi feita tendo como base o volume 1 do mangá de Erased – A Cidade Onde Só Eu não Existo, publicado no Brasil pela Editora JBC em dezembro de 2018, em formato 21 x 14 x 2 cm, capa cartonada, miolo em papel luxcream, em torno de 180 páginas, custando R$23,90 em seu preço de capa. Ele é de autoria do mangaká Kei Sanbe, tendo sua finalização em 9 volumes no Japão. A tradução foi feita por Denis Kei Kimura.