Mangás Digitais, Parte 2: Analisando a versão Pipoca e Nanquim

Conferimos os produtos da mais nova editora a entrar no mercado de mangás em ebook.

Em um artigo no começo do ano, cobrimos algumas características dos ebooks da JBC e da Panini em diferentes lojas, onde foram citados vários detalhes e diferenças dos materiais das duas editoras.

Com a consolidação do selo de mangás do Pipoca e Nanquim, é interessante uma nova análise similar aos seus ebooks. A empresa foi criada pelo pessoal do canal Pipoca e Nanquim do YouTube, que decidiu abrir mão de seus cargos de editores na Mythos (que cuida da produção de muitos dos quadrinhos da Panini), para se focar apenas no canal e na própria editora, especializada em edições com acabamentos de luxo.

Durante as negociações para a criação do selo, a Amazon ficou responsável pela distribuição exclusiva de suas obras (excluindo-se apenas o site da própria editora e lojas físicas especializadas em quadrinhos), dessa forma, os ebooks do Pipoca estão disponíveis apenas através da loja Kindle – por isso vamos comparar apenas com as edições da JBC e Panini para essa plataforma.

 

Tamanho do arquivo / Qualidade da imagem

Guardiões do Louvre tem um total de 136 páginas, sendo que todas elas são coloridas. Em sua versão ebook, o arquivo do mangá possui apenas cerca de 50MB.

Para fins de comparação, um mangá comum de 200 páginas em preto e branco da JBC possui cerca de 120MB. Já os arquivos da Panini possuem cerca de 160MB na Kobo (na loja Kindle os mangás da Panini possuem a característica do envio de uma versão de baixa qualidade para a maioria de aparelhos).

No caso de Guardiões do Louvre, essa compactação infelizmente acaba transparecendo na leitura, pois o mangá como um todo fica com um aspecto mais borrado que os das outras editoras, principalmente nos balões com os textos.

Guardiões do Louvre (Pipoca e Nanquim) / Fire Punch #1 (JBC)
Screenshot via iPad, sem redimensionamento. Arquivo PNG sem compressão adicional, no link.

No caso de Virgem Depois dos 30, com 240 páginas em preto e branco, o tamanho do arquivo passou para cerca de 126MB, mas ainda assim as compactações nos cantos das letras continuam aparentes, além de um forte moiré afetando as páginas, que não está presente na edição física do mangá.

Mas o que seria esse tal moiré? Neste caso seria uma deformação ocorrida nas retículas (aqueles pontinhos usados para “pintar” boa parte dos desenhos). Originalmente eram para ser pontinhos bem definidos, mas com a ocorrência do moiré, elas acabam ficando com uma espécie de “textura xadrezada”. Isso era algo bem recorrente dos mangás impressos da década passada, mas com o tempo tanto Panini quanto JBC conseguiram acertar a mão em seus processos editoriais e o problema normalmente não se repete nessas editoras – porém boa parte das publicações da NewPOP continuam sofrendo com a incidência de moirés em lançamentos recentes (como Happiness, por exemplo).

Voltando, apesar de também existente no preview do site da editora, o moiré na versão disponibilizada pela Amazon é bem maior (Kindle / site / volume impresso).

Em tempo, os ruídos de compactação ao redor das letras também não estão presentes no preview, mas isso se deve pelo fato dele ser em PDF, com o letreiramento estando “solto” em uma camada separada. Vale lembrar, no entanto, que os lançamentos normais de outras editoras costumam não possuir esses ruídos de compactação, mesmo com as letras estando embutidas nas imagens.

E por fim, O Preço da Desonra possui cerca de 180MB para quase 400 páginas. Neste caso, não há uma incidência de moiré como no caso anterior, porém o aspecto borrado e sinais de alta compactação continuam presentes.

 

Ordem de leitura

Pouco tempo depois do lançamento de Guardiões do Louvre, houve certa polêmica em relação ao relato de uma devolução feita à Amazon com a reclamação de que a revista estava com a “encadernação invertida”.

Como a editora não havia colocado nenhum tipo de aviso de que aquilo era um mangá e a leitura deveria ser feita da direita para a esquerda, o leitor que acabou comprando sem conhecimento tentou ler seguindo a maneira ocidental e ficou completamente perdido.

Já no caso dos três ebooks de mangá já lançados pela editora, parece que o responsável pela diagramação está na mesma situação que o tal leitor da devolução, pois todos foram editados seguindo a ordem ocidental de leitura, ou seja, é preciso tocar no canto direito da página para que sejamos enviados para a página seguinte, ao invés de tocar no lado esquerdo.

Então, você precisa ler os quadros e balões da direita para a esquerda, mas a mudança de páginas deve ser feita da esquerda para a direita. Sim, completamente confuso.

Tanto os mangás da JBC quanto os da Panini seguem exatamente a ordem oriental, com os toques no canto esquerdo da tela para ir para a página seguinte, e os toques do lado direito para voltar para a página anterior.

 

 

Modo Paisagem

Tanto na JBC quanto na Panini, ao deitarmos o tablet na posição horizontal, a visualização muda para que sejam mostradas duas páginas por vez, muito útil para que possamos ver as cenas que utilizam páginas duplas.

Na JBC tudo ocorre de acordo, porém no caso dos mangás da Panini disponíveis na loja Kindle, por algum erro grotesco na hora da conversão, é incluída a capa do título uma segunda vez, que faz com que o caseamento das páginas fique quebrado por todo o ebook.

Já o caso do Pipoca, ao mudar para a posição horizontal, ele não mostra duas páginas, apenas fazendo com que a imagem dê um zoom, de forma que a página preencha a tela de lado a lado.

 

Visualização Guiada

Para uma melhor leitura de revistas em quadrinhos em dispositivos de tela pequena, existe uma função que ajuda a guiar o usuário a ler um quadrinho por vez.

Guia oficial do Kindle, mostrado ao abrir um livro com suporte à função

Até então, nenhuma editora brasileira havia feito a implementação correta da ferramenta nos mangás publicados por aqui.

No caso da JBC, ao dar um toque duplo nas páginas, o modo ativa uma espécie de zoom, que mostra 1/4 da página por vez. Tocando para ir para a parte seguinte, ele mostrará o segundo quarto da página, até que as quatro partes sejam mostradas e depois disso segue para a próxima página.

 

Já a Panini oferece uma implementação bastante bizarra. Em celulares (com sistema Android; pode ser diferente no iPhone) não é possível usar o movimento de pinça para dar zoom, mas ao dar o toque duplo será aberta a imagem em modo exclusivo e dessa forma a função de zoom passa a funcionar. Porém, para mudar de página, é preciso toda vez sair manualmente do modo exclusivo usando o pequeno X no topo da tela. No iPad não há esse modo exclusivo, funcionando o zoom normalmente.

 

E quanto aos mangás do Pipoca, eles usaram a função da maneira correta? Sim… e não.

Sim porque ao dar o clique duplo na tela, o aplicativo passa a mostrar apenas um único quadrinho por vez, seguindo exatamente o que é o conceito original da função. O problema é que assim como aconteceu com a ordem das páginas, a visualização guiada também está seguindo o sentido ocidental de leitura, fazendo com que os quadrinhos sejam mostrados na ordem invertida, tornando todo esse trabalho em algo completamente inútil. Infelizmente.

 

Preços

A versão digital de Guardiões do Louvre está saindo por R$29,90, contra R$59,90 do valor de capa da edição física.

Mangá-Documentário: Virgem Depois dos 30, tem o preço de R$34,90 para o ebook, sendo R$49,90 no valor de capa do volume físico.

O Preço da Desonra – Kubidai Hikiukenin custa R$49,90 na versão digital, enquanto a versão física tem o preço de capa de R$59,90.

O Último Voo das Borboletas, até o momento não teve uma entrada de versão digital adicionada na Amazon, mas a edição impressa possui um preço de capa de R$44,90.

Em todos os casos, apesar de os volumes físicos terem esses preços de capa, são grandes as chances de estarem sendo vendidos com alguns descontos adicionais. Já no caso dos digitais da editora, tais descontos costumam não acontecer.

 

Finalizando

Apesar de a editora do Pipoca e Nanquim ter uma grande preocupação com a qualidade de seus produtos físicos, infelizmente as edições em formato digital parecem não receber o mesmo cuidado, pois logo nos primeiros segundos após abrir o ebook já daria para perceber que algo estava errado.

Ainda existe a possibilidade de que haja uma atualização nos arquivos, corrigindo principalmente a ordem de leitura (mas um aumento na qualidade de imagem, diminuindo a alta compressão, também seria muitíssimo bem vindo), para que quem optou pela versão digital não acabe ficando com um produto defeituoso em suas estantes virtuais.

Uma pena que no caso dos mangás da Panini, por exemplo, uma correção para o problema das páginas duplas não ocorreu até hoje e esperamos que ela não seja tomada como exemplo.

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