Crítica: The Flower Pot | JBC

Mesmo com trama simples sem nenhuma grande surpresa, história de Amanda Freitas cativa na leitura e cria expectativa por uma continuidade.

Um encontro ao acaso numa pequena floricultura. Dois jovens adultos prestes a se conhecer. Uma cidadezinha litorânea de arquitetura italiana. Esses são os principais componentes da fábula de The Flower Pot, de Amanda Freitas. Por detrás de toda a simplicidade, o que haveria de especial no mais novo boys love nacional da JBC? Talvez a própria simplicidade.

A trama de The Flower Pot acompanha Pio, um jovem cozinheiro que ajuda Marco e Pia com o trabalho num restaurante. Hadrian, uma espécie de segundo protagonista, trabalha na floricultura que empresta o nome à história. A proprietária deste estabelecimento é sua avó, Aurora, com quem Pio tem longínqua amizade. A relação entre o garoto e a senhorinha rende a ambos encontros rotineiros para tomar chá e colocar o assunto em dia, sempre na presença de Ume, o gato que Pio faz questão de levar nas visitas à Aurora. Certo dia, Pio vai até a The Flower Pot à procura da amiga, mas acaba por descobrir que ela está hospitalizada: nesse ínterim é que conhece Hadrian, pessoa pela qual o garoto logo se interessa.

Imagem: Reprodução/Editora JBC

Apesar de escolher por evitar os spoilers, é de se comentar que os eventos que compõem a trama não trazem nenhuma complicação ao desfecho que se desenha já nas primeiras páginas da HQ. O que você, leitor, acabou de imaginar após passar pela breve descrição da ação inicial feita no parágrafo anterior, seja você um leitor assíduo do gênero boys love ou um gaiato de primeira viagem, muito provavelmente é o que irá acontecer ao longo dos capítulos de The Flower Pot: a história de amor entre dois garotos. É interessante, no entanto, os episódios da vida desses dois jovens que o recorte autoral escolhe para melhor retratar o desenrolar desse relacionamento, que surge, como costuma acontecer nas histórias de amor por aí, da ficção ao mundo real, a partir de um encontro despretensioso entre duas pessoas desconhecidas. Na linguagem do clichê romântico, o entrelaçamento de duas vidas aproximadas pelo destino.

Dos aspectos que valem destacar, menciono de saída o que parece reger a obra. A forma da narrativa preza por uma concisão que organiza todos os elementos apresentados (personagens, diálogos, cenários, quadros etc.). A constituição das páginas da HQ privilegiam essa concisão ao estabelecer uma harmonia completa entre a leveza dos diálogos, a coesão das cores e formas, o destacamento das personagens nas situações cotidianas em que são apresentados e a ação propriamente dita. Cada elemento compõe um verdadeiro e belo uníssono de delicadeza, sem qualquer exuberância ou excesso. Nada escapa ou se sobrepõe ao ato narrado no decorrer de The Flower Pot – antes corroboram para a ressoar o que está sendo transmitido pela interação das personagens.

Imagem: Reprodução/Editora JBC

O que melhor representa a harmonia entre os detalhes e o todo da obra são as formas geométricas que estampam as páginas. Os triângulos e quadriláteros de diversas medidas resumem por a+b o movimento geral da ação: ao mesmo tempo em que apontam para a fixação do contorno geral da história, denotam também sua variabilidade. Embora todo quadrilátero tenha necessariamente quatro lados, eles podem variar de acordo com a extensão das retas que o configuram. O mesmo acontece com as cores: sua variação é praticamente delimitada em tons de amarelo e rosa, o que não significa um empobrecimento da experiência visual – pelo contrário, a belíssima profusão de tons de duas cores apenas acaba por jogar em favor do mencionado tom harmônico que rege toda a narrativa.

Após um olhar mais atento a todos esses detalhes, pode-se sugerir que há relações estreitas entre eles. O fato de termos duas cores preponderantes, duas formas geométricas em torno dos quadros, duas personagens principais. Também os balões de diálogo se dividem em dois tipos: os que veiculam as falas possuem contorno branco e preenchimento lilás, enquanto os que revelam os pensamentos de Pio e companhia são contornados de lilás e preenchido por um tom mais claro, amarelo-creme. Não parece forçoso portanto imaginar que tais elementos estejam intimamente associados… Tudo parece gravitar em volta de duplos.

Imagem: Reprodução/Editora JBC

Se cabe pinçar um problema em The Flower Pot, diria que o principal é a falta de um conflito para dar mais tempero à narrativa. Até se esboça um nos últimos capítulos em relação a um dos protagonistas, mas que se resolve em poucas páginas rumo ao final previsto. Deve se levar em conta, entretanto, questões que ultrapassam o texto. A falta de um retorno financeiro é determinante para determinar o trabalho de um artista. A autora publicou a história originalmente em inglês, via Tapas e Webtoon, duas plataformas para veiculação de quadrinhos digitais (os chamados webcomics).

Sendo assim, a criadora não recebeu nada além de incentivo dos seus (muitos) leitores, quando da publicação no meio digital. Agora, com a edição da JBC, além de ganhar nova projeção no mercado de HQs nacionais, há também o efetivo ganho em cima do trabalho, algo fundamental para uma possível continuação. Isso é importante porque a sensação que fica ao término da leitura é justamente a de que há um enorme potencial para o desenvolvimento de uma história mais longa, com maiores possibilidades para a trama e seus personagens. Se a editora e a autora assim entenderem, teremos um quadrinho brasileiro para se olhar com muito carinho, pois o trabalho de Amanda Freitas é mais do que promissor.


Imagem: Reprodução/Editora JBC

Sobre a edição

Alguns comentários são necessários acerca da edição de The Flower Pot. O primeiro deles é que a história está disponível nos formatos físico e digital. A obra é de volume único e a edição impressa tem o formato 14 x 21 cm, com 192 páginas totalmente coloridas, saindo pelo preço de R$ 54,90 – é possível comprá-lo na Japorama Store, loja da JBC, além de sites como Amazon e Submarino. Há também a edição digital, pelo valor de R$ 24,90, disponível nas plataformas Kindle, Apple Books e Kobo. Um detalhe importante é que a versão física é distribuída pelos sites mencionados através da Um Livro, empresa do ramo de impressão sob demanda (P.O.D, do inglês print on demand).

A análise do material feita aqui teve como base a edição digital, cedida ao JBox pela JBC. Nela, assim como no encadernado impresso, estão presentes os 12 capítulos da história principal (cerca de 180 p.), bem como 4 páginas com micronarrativas, uma outra dedicada a uma pequena descrição dos 8 personagens da trama e o restante com detalhes relacionados ao processo criativo da autora. Vale lembrar que o sentido da leitura é ocidental.

O trabalho editorial está quase impecável, com exceção de um pequeno deslize nos extras: nas páginas 189 e 190 do ebook há uma representação do passo a passo da criadora, mostrando as etapas de acabamento de três páginas da HQ, do rascunho até a arte final; numa dessas páginas, as amostras dos rascunhos estão repetidas, mostrando o esboço da página exibida anteriormente. Fora isso, nenhum outro problema saltou aos olhos.

Pode-se dizer que a JBC inaugurou seu novo selo Start! com o pé direito. Fica a dúvida se este terá uma identidade mais bem definida e uma melhor sorte que o descontinuado Ink Comics, que nasceu com uma proposta um pouco semelhante, quando editava o Henshin Mangá (publicação de histórias originais de autores brasileiros) mas acabou virando um puxadinho do selo padrão, com mangás (japoneses) como To Love Ru e Bullet Armors, por exemplo. Torçamos para que a ideia de uma “incubadora” para quadrinhos nacionais de artistas independentes já publicados em plataformas digitais resista aos imprevistos do mercado. Os próximos lançamentos previstos são Contos Tupi-Guarani: Irupé, de Vinícius Galhardo; Teera & Windy, de Cah Poszar; Blackout, de Chris Tex e Santtos; e um novo Henshin Mangá, com os vencedores do concurso Brazil Manga Awards, organizado pela editora.

Publicidade
close