Transtorno de múltiplas vozes | Coluna Se Localizando #3

As particularidades que moram em algumas das trocas de elenco mais famosas na dublagem brasileira de animês.

Poucas coisas são mais frustrantes para fãs de dublagem do que a troca de vozes. É praticamente inevitável, na verdade: disputas de pagamento, trocas de estúdio, aposentadoria, falecimento, além de coisas ainda piores que a morte, dificultam o processo de manter um elenco de atores consistente, ainda mais quando a série em questão é longa ou muito espaçada entre lançamentos. Ninguém gosta disso – os atores não gostam por se sentirem desrespeitados e substituíveis, e os fãs não gostam da dissonância quando a voz é trocada e a inconsistência que isso traz para o “feel” da série. É sempre um saco, cara. É uma droga. Pior defeito possível de uma localização.

E… eu sinceramente acho elas super interessantes.

Ei, abaixem essas tochas, deixem eu me explicar! Sim, eu concordo com todos os sentimentos que listei em cima – dissonância da voz trocada, é desrespeito com os atores etc. –, e em uma série só, acho que o ideal seria ninguém trocar de voz jamais, especialmente se for contra os desejos do intérprete. Dito isso, eu não sou muito de achar que a voz do personagem é o personagem, que parece ser o grande sentimento expressado por todo mundo quando uma troca ocorre. Para mim, assim como não existe só um Peter Pan ou só uma Lady Macbeth, personagens de animê também têm esse espaço para serem representados por diversas pessoas. E assim como Peter Pan ou Lady Macbeth, parte da magia disso é que cada ator traz uma coisa bem própria para esses personagens pré-estabelecidos. E para mim, é muito divertido analisar o que são essas “coisas bem próprias”.

Serena/Usagi | Reprodução/Toei Animation

Vamos usar um exemplo… e começar com um dos mais infames. A primeira temporada do imensuravelmente icônico animê de garotas mágicas Sailor Moon foi dublada nos estúdios da Gota Mágica, de São Paulo, e exibida pela Rede Manchete durante os anos 1990, enquanto que as demais foram dubladas nos estúdios da BKS e exibidas no Cartoon Network (e na Record, por um rápido momento) no começo dos anos 2000. Durante essa troca de estúdios, o elenco inteiro foi trocado e, como os fãs de Sailor Moon jamais nos deixarão esquecer, a troca mais discutida é a da própria protagonista, com a heroína que dá título à série sendo interpretada por Marli Bortoletto na primeira dublagem, e por Daniela Piquet na segunda. Muita saliva e tinta (e até um pouco de sangue… credo!) já foram derramados em discussões em cima de qual das duas é a “melhor” Sailor Moon, mas eu particularmente acho interessante como, ao meu ver, as duas ressaltam aspectos diferentes da personagem. Apesar de ser conhecida por interpretar a pequena Mônica, a Marli tem uma voz bem imponente e “adulta”, que é perfeitamente apropriada para o lado “princesa da lua” da personagem, enquanto que a Daniela, que tem um timbre bem mais agudo, representa bem o lado “garota infantil que tira notas baixas” da personagem. E, literalmente, esses são os dois extremos da jovem Usagi/Serena (escolha seu favorito) – a dualidade da personagem, a dualidade das vozes… é quase artístico, sabe?

Ash Ketchum em diferentes gerações | Reprodução/ShoPro

Outro exemplo um pouco menos claro se dá nas múltiplas vozes que Ash Ketchum, protagonista das inúmeras encarnações de Pokémon, teve até hoje. Por maior parte da série ele foi interpretado pelo dublador paulista Fábio Lucindo, até o animê mudar de mãos e passar a ser dublado no Rio de Janeiro, onde o papel foi transferido para Charles Emmanuel por algumas temporadas, depois sendo passado para Matheus Périssé, sua voz atual. Eu digo que esse é menos claro porque o personagem em si muda bastante de temporada para temporada, dependendo do tipo de protagonista que os produtores desejam para o tom da fase em questão. E com isso eu quero dizer que tanto o Lucindo quanto o Emmanuel fizeram versões diferentes do Ash, e é provável que no futuro o Matheus faça o mesmo. Em linhas gerais, eu diria que Fábio Lucindo acentuava a ingenuidade, sinceridade e o caráter desafiador do personagem, enquanto o Charles acentuava seu lado brincalhão, e o Matheus, até agora, acentua sua infantilidade. Todos esses lados compõem o eternamente jovem Ash Ketchum.

Não me apetece muito reciclar tópicos de uma matéria literalmente publicada mês passado, mas dá para observar isso forte também na redublagem de One Piece, inevitavelmente. O exemplo mais chamativo, obviamente, é o próprio Luffy, que foi interpretado por Vagner Fagundes na primeira dublagem, feita em cima da versão adaptada da 4Kids Entertainment, e Carol Valença nessa mais recente, sem cortes. Os dois ressaltam dois extremos do personagem, com o Vagner acentuando sua masculinidade, e a Carol, sua infantilidade. Roronoa Zoro é outro caso bem chamativo, e também outro bem claro – Marcelo Campos (1ª dublagem) acentuava o lado “guerreiro honrado” do personagem, enquanto Glauco Marques (2ª dublagem) acentua o lado mais bruto, mais “bronco” dele, e esses são basicamente os dois aspectos que melhor definem o personagem – um samurai não muito intelectual.

Ochaco Uraraka | Reprodução/Bones

Nos casos que listei até agora, todos os dubladores tiveram horas de animê para se adentrarem em seus personagens e criar suas identidades, mas também há casos em que certos intérpretes fazem o personagem por bem pouco tempo. My Hero Academia é um bom exemplo: no primeiro filme a ser lançado por aqui, Dois Heróis, dublado pela Unidub, a personagem Ochaco Uraraka foi dublada por Priscila Concepción, sendo trocada por Bianca Alencar na dublagem do segundo filme, A Ascenção dos Heróis, no estúdio Dublavídeo. Como todo filme baseado em séries longas, ele não dá muitos holofotes para não-protagonistas e não-personagens originais do longa, então a verdade é que nenhuma das duas dubladoras teve muito tempo para realmente se fixarem na personagem (aposto que se elas tivessem, as pessoas não reclamariam tanto da Priscila! Mas isso é uma revolta pessoal, releve). Nesse sentido, se isso fosse uma competição – e não é! Este é um espaço de paz! –, Luísa Horta, que assumiu o papel quando as várias temporadas do animê foram dubladas nos estúdios da Dubrasil pela recém-chegada Funimation, teria uma enorme “vantagem”. Eu diria que todas passam a personalidade da Ochaco bem, pessoalmente.

Quem me conhece do YouTube sabe que eu depositei mais tempo do que é saudável em Yu-Gi-Oh! – especificamente no animê de 2000 feito pelo Studio Gallop, Yu-Gi-Oh! Duel Monsters, que passou aqui pela Globo, Nickelodeon, e streaming – então, nada mais justo que fechar com um exemplo interessante dele, ainda mais porque foi ele a obra que mais me fez ficar interessado em dublagem quando eu era mais novo – um feito notável, vendo que a dublagem sempre foi meio bagunçada. Apesar do elenco ter se mantido notavelmente constante considerando a troca de estúdios e vários problemas internos, houve, sim, algumas trocas no decorrer dos anos. Acho que a mais chocante foi a do próprio protagonista, Yugi Muto: apesar do previamente citado Marcelo Campos fornecer a voz do adolescente encostado em mais ou menos todas as suas aparições (que não foram puladas no Ocidente), o cargo foi realocado no filme crossover de 2010 da franquia, Vínculos Através do Tempo, para Marco Aurélio Campos.

 

Yami Yugi | Reprodução/Studio Gallop/NAS/Konami

Eu digo que é chocante porque enquanto o primeiro Campos enfatiza o caráter heroico do personagem – compreensível, afinal, ele é o protagonista –, o segundo Campos o retrata como um personagem bem mais agressivo, quase dando a impressão de que o nosso herói do cabelo estranho é um vilão. À primeira vista, isso parece muito errado… mas qualquer fã de Yu-Gi-Oh! antenado nas origens da série sabe que, na verdade, um Yugi (ou melhor, seu alter ego, Yami Yugi) maldoso funciona bem com as origens do personagem, que começou como um espírito vingativo que se manifestava para punir os valentões da semana na primeira fase do mangá. Talvez não funcione com o personagem como ele está no filme, mas funcionaria bem com uma versão anterior dele! Fascinante, não é mesmo? E imagino que alguém deva ter achado o mesmo, já que no filme seguinte, O Lado Negro das Dimensões, Marco Aurélio foi escalado como Aigami, o antagonista do Yugi no longa. Loucura as voltas que a vida dá, não é mesmo?

Certamente isso foi um completo acidente, mas eu diria que muitos dos exemplos listados também foram – é sempre bom lembrar que nem toda dublagem envolve um grande estudo de personagem e suas origens, mas sim uma avaliação geral, e diretores diferentes avaliam de formas diferentes. E para mim, isso só serve para mostrar como determinados títulos, e determinados personagens, são ricos e multifacetados, permitindo a eles terem vários de seus aspectos enfatizados por atores diferentes.

Como eu disse no começo, claro que o ideal seria que nenhum papel fosse trocado por motivos exclusivamente financeiros (só artísticos e pessoais dos atores), mas não vivemos em um mundo perfeito, então gosto de ver o que posso tirar da realidade. E aqui seria quando eu perguntaria para vocês algo tipo: “quem são seus dubladores favoritos de personagens que foram dublados por múltiplos dubladores”, mas sinceramente, isso é clichê. Então, ao invés disso vou perguntar: qual troca de dublador você gostou? Tem algum personagem que você achou que teve múltiplas vozes ótimas? Vamos fomentar essa positividade aí nos comentários e nos vemos numa próxima coluna!


O texto presente nesta coluna é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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