Crítica | Usagi Drop (animê) – a fofura que esconde sérios problemas

As diferentes facetas da construção dos significados de amor e família.

Hoje vamos viajar um pouco em direção ao passado (usando um microondas) para relembrar um animê lançado há quase 10 anos. Baseado na primeira metade do homônimo mangá de Yumi Unita, Usagi Drop é uma animação dividida em 11 episódios disponibilizados ao longo do ano de 2011, sendo produzida pelo Production I.G. (Ghost in the Shell, Psycho-Pass, Haikyu!!, FLCL, etc) e dirigido pelo não tão conhecido Kamei Kanta. A obra conta o drama de um luto recente e a brincadeira de batata quente que acaba acontecendo quando Kaga Rin, filha do falecido, se vê sem um guardião legal. É uma história anedótica, cujo dia-a-dia não é plano de fundo, mas o próprio tema que encapsula a preocupação em falar, de forma fragmentária, sobre a ação audaciosa do outro protagonista: Kawachi Daikichi, neto solteirão do falecido, assume para si a responsabilidade de cuidar de uma criança.

Por mais que o primeiro episódio já trate sobre morte, o clima das cenas fica bem longe do lúgubre. Com tons pastéis e estilo “aquarelado”, a animação localiza esse evento tão poderoso numa espécie de lugar etéreo e pacífico. Daikichi afirma que o seu avô foi embora sorrindo, em paz, e tudo parece apontar para uma espécie de fim natural de um ciclo. A única coisa que destoa dessa atmosfera contemplativa é a saltitante Rin que, com suas perninhas ligeiras, espia e foge, esgueirando-se pelas frestas, tentando entender a gravidade da situação, ao mesmo tempo em que tenta identificar esse até então desconhecido Daikichi. O contraste entre repouso e movimento é o contraste entre morte e vida, o fim pacífico e o início conflitante de dois ciclos.

Imagem: Reprodução/Crunchyroll

Assim que o fim pacífico vai terminando sua transição para o reduto da lembrança, o início conflitante cada vez mais toma a atenção das pessoas envolvidas nessa trama controversa: Kaga Rin é uma filha ilegítima (fora do casamento), cuja mãe é desconhecida e o pai (avô de Daikichi) recém faleceu. Ela é uma herança indesejada que acaba sendo empurrada insensivelmente de um lado para o outro na partilha dos bens. Ninguém quer assumir a responsabilidade de lidar com uma criança praticamente desconhecida cujas origens já remontam à negligência e o abandono. A criança é tratada como um estorvo, um problema a ser resolvido e a solução que é sugerida pelos membros da família é entrega-la para a adoção.

Esse momento é muito significativo porque, insisto, a atmosfera geral da situação permanece com o mesmo teor estético, a aquarela resiste em determinar o aspecto leve e espaçoso, o que afasta a possibilidade de um fim tão cruel para a garota. Sendo assim, todo o falatório serve apenas como forma de construir as circunstâncias que motivam a atitude inesperada de Daikichi que, num rompante de audácia assume o rojão de ter que cuidar do estorvo. E assim, de forma “inesperada”, se inicia a odisseia de Daikichi que vai ter que aprender como funcionam os mecanismos que operam a atividade de criar uma criança. As logísticas materiais e sentimentais são mistérios que aos poucos vão sendo desvelados pelo próprio exercício dessa não muito ortodoxa paternidade.

O que se segue após o primeiro episódio é um prosseguimento natural dos temas apresentados previamente. O desenvolvimento da intimidade e confiança, as várias descobertas que Daikichi vai fazendo, os novos sentimentos que vão sendo nomeados e significados, os dilemas cotidianos que surgem espontaneamente, as interações confusas que decorrem do fato de Daikichi no fim das contas não ser o pai de Rin, enfim, uma coleção de causos que ocorrem num eixo onde o ponto fixo é a construção dos personagens Rin e Daikichi, conjuntamente, na sua relação, e individualmente, nos seus caracteres próprios. A diversidade de situações, entretanto, não impede a possibilidade de traçar algumas estruturas que definem certas inclinações no próprio projeto de exposição da experiência fraternal. Explicitar esses pontos chaves será o esforço que vou empreender a seguir.

O segundo episódio é preenchido com o primeiro impacto material do tornar-se responsável por uma criança: comprar roupas, matricular Rin numa creche e ainda por cima manter um ritmo acelerado e exigente de trabalho. Daikichi no fim de um dia exaustivo acaba se atrasando para buscar Rin na creche e ela, por sua vez, se vê bem decepcionada porque seu pai postiço lhe havia prometido que chegaria na hora combinada. Isso logo é resolvido, não sendo o real dilema da situação, mas apenas um singelo floreio sentimental que adere ao real objetivo desse episódio: Servir como o prelúdio que vai justificar, no seguinte episódio, a decisão de Daikichi de diminuir sua carga de trabalho para poder lidar com essas novas coisas que disputam sua atenção de cuidado.

Imagem: Reprodução/Crunchyroll

Cuidar de uma criança exige uma dose generosa de esforço, ainda mais se você cuida dela sozinho sendo um assalariado. E esse teor de sacrifício é repetido à exaustão em Usagi Drop. Daikichi tem que abrir mão de sua posição de comando, onde ganhava bem e tinha subalternos que o respeitavam, para em troca disso ser capaz de lidar saudavelmente com a labuta domiciliar. Esse aspecto do papel parental é algo que vai ser retomado em vários momentos do animê, com diferentes personagens e situações específicas, mas sempre com a mesma estrutura. Nitani é a mãe solteira de Kouki que tem que lidar com problemas parecidos com os de Daikichi, além de ter de viver com o próprio estigma de ser mãe solteira. Haruko é a mãe de Reina que aguenta o sufoco de ter um esposo que é um pai totalmente ausente. Nabe e Mi, que declaram sua completa falta de tempo para si mesmos depois de terem virado pais. E assim por diante.

Em suma tudo isso parece indicar certo teor de crueldade nesse retrato da constituição familiar. Funcionando quase como um alerta para aqueles que queiram se aventurar nos domínios da hereditariedade. Tal fator sendo seguido de outro assunto que vai ser tocado no episódio quatro, quando Daikichi finalmente inicia a busca da mãe desaparecida, a fim de, pelo menos, compreender melhor a dimensão desse afastamento tão misterioso, já que nada fora deixado para trás que pudesse contextualizar as condições onde essa decisão fora tomada. Masako, a mãe de Rin, fala ao telefone com o pseudo-padrasto e combinam o encontro num café, que ocorre no episódio cinco. A facilidade de alcançá-la é suspeita e mais confusa ainda é a completa complacência dela no diálogo que se deu no momento em questão. O constrangimento é sentido, mas mais latente ainda é uma certa negação da realidade. A mãe de Rin não se considera dessa forma, quem queria que a criança nascesse era Suichi, o pai falecido da menina.

Essa combinação de fatores parece culminar numa justificação do abandono de Rin, como uma forma de defender a pressão ou até mesmo imposição feita pelo avô de Daikichi em relação ao nascimento da menina. Masako não queria ser mãe, a decisão de ter a criança lhe foi externa, sendo dessa forma apenas aquela que pariu a criança, como uma modalidade já bem conhecida de “barriga de aluguel”. Entretanto a estética mais uma vez parece tirar o foco do animê nesses assuntos mais espinhosos e realocá-lo mais uma vez num lugar mais “positivo”. Esse dilema não se torna no fim das contas algo fundamental, cuja série se dispõe a executar um aprofundamento mais exaustivo. É apenas outro aspecto paralelo do eixo Daikichi-Rin já definido desde o primeiro episódio.

Masako, dessa forma, contrariamente ao que parece, não é instrumentalizada na história como um catalisador de assuntos cabeludos, pelo contrário, ela serve na verdade como uma espécie de lembrete. Essas várias situações e diálogos onde o exercício de ser pai se assemelha quase a um martírio servem como forma de demonstrar a dureza da paternidade. A obstinação de Daikichi nesse caminho tortuoso e cheio de obstáculos contrasta com abandono deliberado de Masako. Usagi Drop assim tenta convencer de que de um lado temos alguém corajoso e honrado que abriu mão de muita coisa e se dispôs a aguentar circunstâncias que não era obrigado a aguentar por causa de uma criança; de outro, alguém covarde e egoísta que na primeira oportunidade se livrou de uma ligação afetiva para se dedicar aos seus próprios fins.

Existe então uma complementariedade entre a representação das dores e dos amores da posição daquele que cria. E a compensação da dor não se dá apenas com os sorrisos e alegrias proporcionadas pelo convívio com Rin, mas o próprio ato de sacrificar-se por alguém anonimamente, sem que a própria pessoa beneficiada tenha consciência disso, é dado no animê como algo de enorme valor. O amor, em Usagi Drop, é, no fim das contas, um amor muito peculiar, que em última instância é bem egotista, pois a posição do outro nesse sentimento é totalmente secundário. No lugar de Rin poderia estar qualquer outra pessoa, desde que o ato do sacrifício acontecesse.

Rin é uma criança extremamente bem comportada e que, ao longo dos 11 episódios que totalizam algo em torno de três horas e meia, raramente faz qualquer tipo de pirraça. Tampouco questiona continuamente sobre algum assunto espinhento, coisa comum dessa fase. Muito menos faz bagunça, nem quebra coisas da casa, nem fala alguma coisa cruel, etc., pelo contrário, ela é uma criança exemplar e, além disso, ajuda Daikichi nas tarefas domésticas. Ela basicamente não é uma criança, mas sim uma ideia muito cruel de criança perfeita que não dá trabalho. E seu pseudo-pai é justamente isso, falso, porque em nenhum momento sequer ele diz um “não” para sua protegida. O que ocorre neste animê não é uma relação familiar, mas sim uma coletânea de apêndices atrelados a um conceito de amor, no mínimo, questionável.

Imagem: Reprodução/Crunchyroll

Não apenas a relação entre Rin e Daikichi é fundada pelo desejo de Daikichi de se sentir melhor consigo mesmo, sacrificando-se como forma de se colocar numa posição de elevação moral. “Eu sou alguém bom porque me sacrifico pelos outros”. Todas as famílias apresentadas na série adotam esse mesmo conceito de amor fraternal nas suas relações parentais. Estabelecendo assim uma visão generalizada de um sentimento muito particular que, longe de ser natural, está muito associado a uma forma como as relações familiares são construídas num determinado contexto social.

Engels, no seu famoso livro “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, demonstra as diversas formas como os núcleos familiares vão sendo modificados e acomodados de acordo com as diferentes formas de sociabilidade. Levando em conta a compreensão da importância do social no familiar, Engels percebe que a determinação de uma família fixa, após o advento da agricultura, se mostrou crucial, pois na medida em que as pessoas nessa fase do desenvolvimento humano já determinavam suas posses individuais e não mais viviam numa espécie de comunidade onde tudo era de todos, surge a necessidade de determinar as pessoas a herdarem essas propriedades. Determinar de quem eram os filhos, por meio de um laço matrimonial, não apenas se afigurava nessa situação como um laço de amor, mas também um acordo de interesse material.

Nesse sentido, a forma como a família é estruturada é fundamentalmente condicionada pela forma como a sociedade se organiza. A ideia de família não surge e nem se desenvolve isoladamente das outras interações que ocorrem entre as pessoas. Isso, evidentemente, não é uma associação simples de se fazer, e nem é pretensão minha iniciar aqui uma empresa com objetivos de alcançar com maior profundidade a compreensão do que é uma “família”. Apesar disso, utilizarei esse prisma disponibilizado por Engels para esboçar pelo menos uma introdução de uma proposta interpretativa do conceito de família em Usagi Drop. A partir daquilo que já foi evidenciado durante o exame da ideia de “amor”, a partir do caso particular da relação dos protagonistas, a ideia social de “família”, poderá colaborar para amplificar e clarificar a dimensão do sentido implícito que essa ideia carrega.

Na sociedade contemporânea o assalariado comum possui um tempo livre muito restrito. Considerando as, na melhor das hipóteses, 8 horas de trabalho, mais o tempo de deslocamento da casa ao trabalho, os intervalos para fazer refeições, os momentos reservados para a manutenção do próprio domicílio, o tempo gasto em compras necessárias no dia-a-dia, além de outras coisas menores que preenchem o nosso cotidiano de atividades inquestionavelmente necessárias, não é raro que o tempo dedicado para alguma atividade além dessa rotina seja extremamente enxuto. O uso do tempo varia bastante e não é minha intenção cristalizar uma estimativa muito precisa, mas acredito que o leitor consiga abstrair com suficiente generosidade o cenário que estou tentando criar. Levando isso em conta, a inserção de uma criança nesse cronograma não parece ser algo possível ou no mínimo prudente, pois toda a logística que envolve cuidar de uma criança, independentemente da idade, é vasta, complexa e cansativa. E mesmo assim é o que acontece já que, no fim das contas, famílias continuam existindo e pessoas continuam tendo filhos.

De que maneira é possível conciliar ao mesmo tempo a imposição de um modelo de vida exaustivo e a manutenção da taxa de natalidade em um nível que, se não é crescente, pelo menos não é deficitária? Ou, para ser mais conservador ainda, como é possível que nesse mundo de “correria” a boa reputação do exercício de se gerar herdeiros resista, talvez não com tanta força quanto antes, mas ainda sim com certa intrepidez? Bom, claro que sempre há o acidente, que não deixa de ser um fator muito poderoso, mas por outro lado também temos a solução bem conhecida e sugerida, que até hoje obtém sucesso na conservação desse modo de vida: a esposa empregada. Se o assalariado sozinho não consegue dar conta de tudo o que exige ser pai, então uma mãe que efetua o trabalho doméstico sem remuneração (pois o assalariado comum não poderia pagar por uma empregada em tempo integral) é a responsável por dar conta daquilo que o pai não pode e, não raramente, daquilo que o pai simplesmente não quer dar conta. Assim, a solução do dilema do tempo é a criação da ideia de um núcleo familiar onde uma pessoa explorada tem aval moral e jurídico para explorar uma outra pessoa.

Mesmo assim isso não parece estar totalmente de acordo com o que acontece em Usagi Drop, pois Daikichi no fim das contas é solteiro. Para chegar à caracterização dessa relação devemos lembrar da forma como o amor é definido na série: amar alguém é efetuar um esforço contínuo e anônimo de sacrifício pessoal. Daikichi, assim como os outros pais do animê, só conseguem organizar a sua vida porque abrem mão de qualquer tempo para si mesmos, e não apenas isso, deixando de lado quaisquer objetivos pessoais, justificando esse ato justamente pela satisfação própria que resulta da visão de si mesmos como mártires. Ou seja, a completa fadiga física e emocional acarretada pelas condições precárias que a sociedade impõe à vida do assalariado comum é, em Usagi Drop, pintada em tons pastéis, cujas cores tentam mascarar as imensas contradições da instrumentalização de um conceito de família que frequentemente culmina em violência e conflito, com a ideia de que, como se isso já não bastasse, é sinal de virtuosidade aceitar tudo isso em silêncio e segredo.


No momento de publicação desta resenha, o animê de Usagi Drop não está disponível oficialmente em português. No entanto, para este texto, foi usada a versão com legendas em inglês no aplicativo da Crunchyroll. A série pode ser acessada pelo celular normalmente no Brasil buscando pelo título no catálogo (no sistema específico de busca, o animê não aparece).

A obra original foi publicada no Brasil pela NewPOP Editora, enquanto uma adaptação em live-action (sob o título Bunny Drop – Surpresas da Vida), até o momento, está disponível pelo Amazon Prime Video.

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