Como a coluna já vem discutindo há algumas edições, o cenário nacional de animês anda mudando bastante. O aumento da oferta de animês é uma boa novidade com a chegada da Funimation, sem desmerecer a Crunchyroll, que já está por aqui há um tempão. Mas, como tudo na vida, há ainda alguns desafios importantes vindo por aí.

Já discutimos uma vez que o modelo de streaming traz consigo um problema de continuidade: não é tão incomum a primeira temporada sair em um serviço e a segunda, em outro. Caso tenha interesse, esse assunto é abordado em mais detalhes aqui, pois vamos conversar agora sobre outras questões.

A edição dessa quinzena propõe olhar esse cenário que parece cada vez mais aquecido – e Demon Slayer está aí dublado para provar – e entender quais são ainda alguns dos desafios com relação aos lançamentos simultâneos. Afinal, eu gosto de divagar sobre mercado nacional.


Hoje (08), das 57 estreias de “animês episódicos” (seriados na TV ou streaming semanalmente) no Japão, apenas 7 não estão, até o momento, confirmadas no Brasil. São elas: Itazura Guma no Gloomy, Mazica Party, Motto! Majime ni Fumajime Kaiketsu Zorori (T2), Shikaruneko, Shinkalion Z, Yo-kai Watch ♪ e Yuki Yuna is a Hero: Churutto.

Desses, Gloomy parece um projeto experimental, mas teve um trailer promocional com legendas em inglês, levando a crer que pode até ficar disponível por aqui de alguma forma. Yuki Yuna original está na Crunchyroll; produções posteriores chegaram pela Amazon, mas não estão mais lá. Parece difícil que ainda venha, mas não é de todo impossível.

Mazica Party, Shinkalion Z e Yo-kai Watch ♪ são franquias infantis produzidas pelo estúdio OLM, feitas para vender brinquedos de criança, voltados ao comércio doméstico. Pelo peso mundial, Yo-kai Watch ♪ pode acabar chegando eventualmente via Disney ou Netflix (ou alguma outra opção não cogitada).

Mazica já parece bem difícil, mas Shinkalion é provavelmente impossível. Além de não ter o mesmo apelo com o nosso público, produções anteriores incluem crossovers com Hatsune Miku, Evangelion e até um Godzilla – o licenciamento deve custar uma fortuna. Tão caro que, em meio a esses tantos atrativos, nenhum serviço americano comprou a série.

Imagem: Shinji Ikari sorrindo em 'Shinkalion'.

O Shinji em Shinkalion. | Reprodução: OLM.

Kaiketsu Zorori é outra franquia para crianças pequenas, produzida pelos estúdios Aijado e BNP, inspirada em uma série japonesa de livros infantis. A temporada 1 não saiu nem nos EUA, dificilmente haverá grande interesse internacional nos novos episódios. É um produto doméstico, talvez sem muito apelo para o consumidor otaku “de nicho”. Por fim, Shikaruneko parece ser uma produção com poucas pretensões.

O ponto em levantar tudo isso é: temos uma oferta muito grande animês chegando, todos os animês quentes estão chegando por aqui e muitas séries mornas e frias também. Aquilo que não vem são coisas aparentemente bem mais difíceis de vir, que mal chegam no mercado americano, maior que o nosso em poder econômico.

Já tivemos algo parecido há uns anos atrás, quando a Funimation e a Crunchyroll tinham uma parceria, encerrada após a compra da Crunchyroll pela AT&T em 2018 (e as ironias do destino agora colocam o serviço quase nas mãos da Sony) – é provavelmente nas cláusulas desses contratos “rasgados” que a Crunchyroll adquiriu os direitos de exibir as novas temporada de My Hero Academia e Attack on Titan e a Funimation produz a dublagem americana de Dr. STONE.

Nosso primeiro problema são as séries da Sentai Filmworks, elas chegam teoricamente por aqui pelo Hidive, mas o streaming já desistiu de legendá-las em português. Muitas são “escoadas” para a Crunchyroll e, posteriormente, para a Netflix (como é o caso de Shokugeki).

Imagem: Personagens de 'Revue Starlight'.

Eu daria muita coisa para acessar Revue Starlight com facilidade… | Divulgação: Bushiroad, Nelke Planning, Kinema Citrus.

A questão aqui é a disponibilidade delas depender apenas da vontade da Sentai em sublicenciá-las, mas, por enquanto, parece estar funcionando dentro do possível – talvez pare de funcionar se a Sony conseguir comprar a Crunchyroll. Bem, títulos da empresa de vez em quando também acabam saindo do catálogo do “streaming laranja”.

Contudo, a Sentai não é uma empresa grande e nem está ligada a grandes conglomerados e, na minha visão, eventualmente acabará “engolida” no meio da “guerra” entre Crunchyroll e Funimation – se as duas não virarem uma coisa só –, restrita a uma papel mais “secundário” com relação aos títulos quentes de temporada. Seria um tanto infeliz, mas as coisas parecem caminhar para uma “concentração” nas mãos de poucos.

Os licenciantes japoneses devem se interessar mais pelas oportunidades de expansão mundial hoje, mas a Sentai tem, por exemplo, dificuldades para manter um serviço de legendagem em português e, por isso, desistiu de oferecê-lo (como dito acima) frente à baixa receptividade por aqui … até porque com pagamento apenas em dólar, o streaming não é nada interessante para o público brasileiro.

O Brasil não é um país central na indústria mundial de animês, mas poder expandir para cá, e para outros países da periferia, não é desinteressante para os produtores japoneses, e isso eventualmente deve prejudicar os negócios da Sentai pois a vantagem ficará com os players que conseguem escoar as séries direto para cá, sem necessidade de sublicenças.

Imagem: Televisão com logo da NETLFIX.

Reprodução.

Com o claro e agressivo interesse da Netflix em expandir a oferta de animês, podemos esperar mais originais como Yasuke, que entram simultâneamente no serviço para todo o mundo, a caminho. Contudo, muitos produtores ainda preferem apostar também na exibição nas TVs no Japão. Então essas séries são exibidas por lá antes de serem disponibilizadas nos catálogos estrangeiros da Netflix.

Esse é o caso de Edens Zero e do remake de Shaman King, que estreiam agora por lá mas só devem chegar aqui pelo menos a partir do 2º semestre. Por isso, a Netflix funciona como uma faca de dois gumes nesse mercado: ela consegue popularizar títulos para muito além do alcance dos streamings focados apenas em animê, mas com atraso em relação à exibição original. Com isso, o público de nicho geralmente procura meios alternativos para acompanhar as séries junto ao lançamento japonês.

Ou seja, propositalmente ou não, o modelo da Netflix acaba “incentivando” o consumo pirata. Não que esse modelo em si seja problemático, aliás, ele nem é novo; quem cresceu nos anos 1990 ou 2000 bem sabe que antes levava anos para um animê chegar por aqui – isso quando chegava.

Não é também “culpa da Netflix”, a questão da pirataria é muito complexa e, provavelmente, nunca deixará de existir no nosso modelo econômico atual, porque não há serviço completamente acessível. Também não é só ela, a qualidade e acessibilidade (preço) dos serviços oferecidos também é importante para atrair ou afastar o potencial consumidor legal.

Imagem: Personagens da 'Shonen Jump' com chapéu de pirata.

Divulgação: VIZ/Shueisha.

De qualquer modo, aguardar uns seis meses para assistir na Netflix não é tanto, mas o comportamento dos consumidores é diferente. Com tudo tão acessível, o público hoje acha ruim se a legenda demora 48 horas para ficar pronta (deixo aqui a solidariedade aos tradutores que precisam lidar com esse tipo de pressão e condição no ambiente de trabalho, porque muitas séries certamente chegam no colo deles na boca do prazo).

O material “alternativo” é fácil de ser encontrado logo após sair no Japão e atende ao desejo do cliente – a oferta vem para atender à demanda, talvez diriam os economistas. A própria empresa provavelmente sabe disso e investir em dublagem acaba compensando o “atraso”. Se há um lado negativo na espera, a certeza de áudio em português certamente alegra muita gente.

Até há um tempo, o streaming era quase o único do qual poderíamos esperar animês dublados, mas o cenário vem mudando. A Crunchyroll começou há alguns anos a fazer uma dublagem aqui e outra ali, aumentando o investimento, mas ano passado tivemos um marco com a chegada das dublagens expressas, tanto por ela quanto pela Funimation. A VIZ também entrou no meio em uma dublagem de Yashahime, presente em ambos catálogos.

Na verdade, nossa primeira experiência com conteúdos dublados simultanêamente veio em 2018, pela Netflix, com Violet Evergarden. Novos episódios estreavam toda semana com áudio original e em português na plataforma – foi a primeira e única experiência do serviço com algo do tipo, ao menos com animês. Provavelmente a logística complicada impediu a continuidade do modelo.

Entrando no campo mais pessoal, esse tipo de estreia é algo que faz falta na Netflix. A empresa se foca em binge-watching, disponibilizando tudo de uma vez, mas fazem falta conteúdos com alimentação períodica. Sinto que a escolha em dividir temporadas em partes vai um pouco nessa linha, mas a inexistência de conteúdos mais “lineares” deixa uma marca. Não devo ser a única a sentir isso pois a empresa está fazendo testes com programação realmente linear.

Os streamings de nicho otaku não são exatamente lineares, eles não possuem uma programação rodando ao longo do dia como na TV (alguns streamings, como a Pluto TV, investem nisso), mas o fato das séries entrarem semanalmente no mesmo horário cria um hábito no consumidor, de forma um pouco parecida com os canais de televisão. Para um público acostumado com estreias semanais, talvez não fosse mau negócio testar o modelo de simulcast.

Enfim, a Netflix não é o único problema, aliás, como ela disponibiliza em algum momento as séries, não é exatamente um problema… Só um pouco inconveniente, talvez. Mas temos uma outra questão, que talvez piore agora, se olharmos o mercado japonês.

Imagem: Pôster de 'Mugen Train'.

Divulgação: Aniplex.

O filme de Demon Slayer fez muito sucesso. Apesar de filmes de animês existirem há tempos, fico com a impressão que o mercado agora vai investir mais em cinema, ao menos por um tempo, na expectativa de bons retornos.

Não vão investir em novos recordes de bilheteria doméstica – esses são raros –, mas em bons retornos, ao menos melhores do que antes.

Mas, diferente do padrão, o longa de Kimetsu é também uma sequência direta da história exibida na TV, não um “filler” ou uma história original, como costuma ser com animês famosos – séries menores até fazem filmes sequenciais, mas aqui é por outras questões.

A aposta poderia até ter sido por, na época do contrato, a série passar longe de qualquer estouro.

Aqui temos um problema porque se estamos agora resolvendo nosso acesso aos animês simultâneos, o acesso a filmes é muito difícil, mais ainda em salas de cinema. Para um streaming disponibilizar suas séries aqui, ele só precisa dar um jeito de vir para cá. Para botar um filme em cartaz, precisa também de cinemas interessados.

Cinema japonês animado chega às salas do Brasil, em geral, por meio de diretores renomados, “cults”, ou por febres. Grandes redes são abertas a nomes como “estúdio Ghibli”, “Hayao Miyazaki” e “Makoto Shinkai”, ou então séries de muito sucesso que passaram em TV aberta, como Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball e Naruto. O resto chega de forma muito restrita, com muita dificuldade.

O interesse de duas redes de cinema em Demon Slayer: Mugen Train – sendo uma delas a Cinemark – pode sinalizar o início de uma mudança, apesar de estarmos em um momento que cinemas, e muitos outros estabelecimentos, sequer deveriam estar abertos.

Enfim, se mais animês começarem a chegar aos grandes cinemas brasileiros (em um contexto de normalidade), o mais lógico é que sejam as séries mais quentes. Filme de Jujutsu talvez tenha alguma chance; mas séries com menor hype dificilmente chegam às nossas telonas.

Mesmo algo como Ride Your Wave, do Masaaki Yuasa, seguiria sendo uma estreia improvável ou extremamente restrita. Claro, existem algumas exceções meio ousadas, como a exibição do Love Live! Fest, de forma limitada em salas da Cinemark, mas, num geral, só coisas muito mainstream, ou muito renomadas, chegam por aqui.

Imagem: Pôster de 'Ride Your Wave'.

Divulgação: Science SARU.

Aí vocês podem dizer: mas esses filmes “mornos” poderiam chegar via streaming! Realmente, a possibilidade existe, alguns filmes de títulos menos populares até chegam.

Num futuro próximo, seria o caminho mais viável para o público brasileiro ter acesso. Mas há interesse? Grande produções feitas para cinema são caras e buscam compensar o investimento com faturamento em bilheteria. Ou seja, só chegariam ao streaming após saírem de cartaz.

Se pensar que muitos longas ganham estreias em países da Ásia e alguns nos EUA e Europa, também é mais interessante que entrem em streamings após essas exibições. Sabemos que a demanda por esses filmes nos “meios alternativos” é maior pelo arquivo em HD, as filmagens feitas de celulares no cinema são menos interessantes para o público.

Assim, via de regra, a pirataria só “domina” após o lançamento do home-vídeo pois é muito difícil o material HD vazar, ele é geralmente postado a partir dos arquivos no DVD ou Blu-ray. Isso implica que o streaming só conseguiria competir com os arquivos piratas com uma estreia anterior ou simultânea ao home-vídeo. Se vier depois, boa parte do público já viu e não vai querer ver de novo. Ou, ao menos, não vai ter o mesmo impacto.

Mas a falta de interesse de muitos estúdios em colocar esses filmes em streamings indica pouca aceitação dessa dinâmica. Talvez ela não ofereça, ou não aparente oferecer, um retorno vantajoso. Talvez o fato do filme certamente “cair na rede” após entrar nos streamings seja um problema.

Há exceções, os filmes de Digimon Tri chegaram à Crunchyroll no dia da estreia nas salas japonesas. Só que a própria Toei mudou de estratégia ao lançar Last Evolution Kizuna, colocando o longa inclusive nas salas de cinema dos EUA. No Brasil, permanece inédito.

Seja qual for o motivo, a falta de acesso por meios oficiais tende a fortalecer os meios piratas, então num cenário de alto investimento em cinema, o panorama nacional não parece capaz de oferecer esses conteúdos de forma relativamente rápida. Então, com a consolidação da oferta de animês simultâneos no mercado nacional (torcemos para não ocorrer nenhum grande revés), nossa maior questão agora deve ser com os filmes.

Se o mercado japonês inventar de seguir a “escola Kimetsu” e produzir longas que são continuidade do animê para TV, e não histórias “extras” como é o padrão, nós vamos ter problemas para acompanhar as novas produções de maneira legal. Vai ser um longo caminho.


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