Imagem: Zumbi de 'Resident Evil Village' em meio a névoa. Padrões de resenhas do JBox.

Crítica | Resident Evil Village: Competente no terror

Novo ‘Resident Evil’ não falha em mostrar terror e é um excelente jogo de survival horror. Bastante inspirado por ‘Resident Evil 4’, não é melhor que o game de 2005, mas competente o suficiente para sair de suas sombras e existir como ‘Resident Evil 8’.

O resultado comercial do primeiro Resident Evil trouxe a popularização dos jogos de survival horror, mas aquela fórmula de sucesso que dava forma aos primeiros jogos da série não duraria pra sempre, e quando as vendas começaram a cair (com Resident Evil “Remake” e Resident Evil 0 para GameCube vendendo abaixo do esperado), a Capcom entendeu que precisava mudar e apresentar ao público um game diferente.

Foi nessa mudança de planos que surgiu o Resident Evil 4, em 2005. O título acabou deixando o terror um pouco de lado para dar mais lugar a ação, mas as mudanças em câmera, jogabilidade e outras mecânicas trouxeram novos fãs, elogios de críticos e um importante espaço na história dos jogos eletrônicos, além de definir algo que passaria a estar muito presente nos jogos da franquia que viriam a seguir: a necessidade de sempre tentar inovar o modo como Resident Evil é feito. Claro que nem tudo deu certo, e vimos por algum tempo muitas tentativas dando errado — mas que por fim também a trouxe de volta para o gênero do terror.

Agora, Resident Evil Village chega com a promessa de suceder a história e repetir o horror de Resident Evil 7: Biohazard, ao mesmo tempo que claramente se inspira em Resident Evil 4. Será que ele cumpre bem o seu papel? É o que avalio a seguir.


Importante: Esta crítica não possui maiores spoilers do jogo, e qualquer menção a história e seus personagens traz apenas as informações já divulgadas pela Capcom; em site oficial ou trailers, por exemplo. Esta análise também foi escrita baseada em testes do jogo no PlayStation 4, portanto, alguns problemas relatados podem ocorrer somente nesta versão do game.


Ethan Winters está de volta

Imagem: Caminho de uma vila em 'Resident Evil Village'.
Reprodução/Capcom

Resident Evil Village começa por onde o 7º parou. Três anos após os acontecimentos na casa dos Bakers, Ethan agora vive em alguma parte da Europa com Mia e a filha (ainda bebê), Rosemary.

A família Winters tenta levar uma vida normal e esquecer os traumas do passado, mas os planos são arruinados quando a casa é atacada e Ethan acorda numa estranha região de um vilarejo em algum lugar do mesmo continente. Descobrindo que Rose também está lá, o protagonista começa a procurar por sua filha.

Embora Ethan não tenha recebido tanto desenvolvimento em Resident Evil 7 porque a ideia dos produtores era que, naquele jogo, o jogador se sentisse dentro da história, ou seja, o próprio personagem principal, Resident Evil Village é mais competente em dar personalidade e uma individualidade ao personagem. Agora, você é capaz de se sensibilizar com os traumas e angústias de Ethan, e torcer que ele encontre Rose.

Antes da metade do jogo, é muito possível que o jogador já tenha empatia pelo personagem, afinal, como não se sensibilizar com o drama de um pai com uma filha desaparecida? Ethan não tem o mesmo carisma de outros protagonistas da franquia, mas ele certamente ganhará um pouco mais de seu apreço em Village.

Outro que também estava em RE7 e está de volta é a perspectiva em 1ª pessoa (talvez o maior divisor de águas entre os fãs atualmente). No início era algo que me preocupava um pouco, pois já passei por problemas como enjoo e dor de cabeça (cinetose) em alguns jogos com câmera assim, mas Resident Evil Village é competente em equilibrar as transições entre momentos de maior tensão ou ação. Gosto bastante da “câmera sobre o ombro” presente nos outros jogos, mas a visão que segue o ponto de vista do personagem não é uma escolha desagradável, e na prática funciona muito bem.

Imagem: Zumbi de frente.
Reprodução/Capcom

Competente no terror

Em pouco mais de uma hora de jogo, eu já estava jogando Resident Evil Village realmente tenso e em pânico. A trama investe em muitos elementos de histórias de horror, e a execução de muitas ideias é bastante eficiente. Cada ambiente do jogo apresenta uma atmosfera e inimigos diferentes, como se cada nova área fizesse você entrar num filme de terror com uma temática diferente (lobisomens, bruxas, bonecas amaldiçoadas etc.), mas todos fazendo parte de uma mesma história.

Há sempre um medo diferente para enfrentar, e se naturalmente inimigos semelhantes a lobisomens não te assustam, há outros elementos para lhe trazerem pânico, incluindo terror psicológico, o próprio medo da morte e perseguições. Até o silêncio é motivo de aflição porque você sabe que alguma coisa não está certa e o jogo pode estar te preparando momentos piores pela frente. Prepare-se para eventos que certamente estão entre os mais amedrontadores de toda a franquia.

A ação também está presente e na maior parte do tempo é muito bem equilibrada com o terror, mas acaba ganhando mais espaço em partes do jogo mais próximos do final. É a partir daí que o terror deixa de ser o instrumento principal, e novas tentativas de assustá-lo perdem a força que tinham no início do game.

Imagem: Ethan (em 1ª pessoa) mirando, com pistola, em um zumbi.
Reprodução/Capcom

Jogabilidade e as semelhanças com Resident Evil 4

As semelhanças com Resident Evil 4 são bastante evidentes em todo o jogo, começando pela história que começa seus desdobramentos dentro de um vilarejo, do qual os aldeões são devotos de um culto religioso que adora a Mãe Miranda, a governante do local e líder de um grupo de quatro lordes. Para encontrar sua filha, Ethan adentra os diversos territórios ao redor da área (como o Castelo Dimitrescu), e em cada um deles acaba sendo confrontado por um lorde.

Todavia, as homenagens vão além da narrativa e estão até nos elementos mais simples, como o inventário de itens, inimigos e corvos que deixam dinheiro ou munição, tesouros escondidos ou os vasos, caixas e barris que guardam itens. Após 16 anos, um comerciante também está de volta.

Agora o vendedor é o Duque, e ele não somente é capaz de lhe vender upgrades para as armas, como também pode ajudar a melhorar as habilidades de Ethan, cozinhando um bom prato de comida se você for caçar e lhe trouxer carne de alguns animais. Diferente do mercador de RE4, o Duque também tem um papel mais importante na trama e lhe fornece informações para achar Rose.

O inventário pode ser expandido por mais de uma vez, e o salvamento automático existe, mas o progresso pode ser gravado numa máquina de escrever quantas vezes quiser. Há vários quebra-cabeças por todo o lado e o vilarejo vai te provar todo o tempo que algum lugar ainda falta ser explorado.

Imagem: Menu e botões do jogo.
Reprodução/Capcom

A franquia quase sempre tem vilões muito bons, e a maioria dos antagonistas de Resident Evil Village não desapontam. Eles são um dos pontos mais altos da história, em particular Alcina Dimitrescu. A vilã de 2 metros e 90 de altura conquistou o carinho da internet muito antes do lançamento do game, e até eu, que não era um dos mais entusiasmados pela personagem, acabei sendo conquistado enquanto jogava.

A vilã tem carisma mas também é assustadora, e persegue Ethan pelos principais caminhos do castelo como uma stalker elegante e furiosa. Suas “filhas” também não ficam atrás e cada embate direto com uma delas é bem feito, tornando o trecho do Castelo um dos meus favoritos.

A maioria dos confrontos contra os chefes também diverte (embora alguns sejam bem exagerados), mas teve um que para mim, infelizmente deixou muito a desejar. Apesar de estar no trecho mais assustador da campanha, o embate com o segundo chefe não empolga e nem exige que o jogador pense em estratégias. É tudo tão fácil e rápido que a brincadeira de encontrá-la fica até sem graça.

Imagem: Uma das filhas da Dimitrescu.
Reprodução/Capcom

Outro fruto de Resident Evil 4 que está de volta é o modo extra The Mercenaries (Os Mercenários), desbloqueado depois de terminar a campanha principal pela primeira vez. Nele você só pode jogar com Ethan, mas isto não se torna um ponto negativo, pois não faria diferença ter outros personagens (como Chris) se a perspectiva está sempre em primeira pessoa.

Dublagem e gráficos caprichados

A dublagem em Resident Evil tem tido acertos há muito tempo, com ótimas vozes em inglês, mas esta é a primeira vez que temos o lançamento de um jogo da série totalmente em português brasileiro. Com dublagem produzida pelo Maximal Studios, em São Paulo, Resident Evil Village teve escolhas de vozes muito boas, e em especial, gostaria de parabenizar a interpretação de Raphael Rossatto (o Senhor das Estrelas nos filmes cinematográficos da Marvel) como Ethan Winters.

Há pouquíssimas cenas de contato visual com o protagonista, que sempre são de costas; e também não é possível ver seu rosto em momento algum (como em Resident Evil 7), portanto, a única maneira de se conectar com o personagem e sentir suas emoções é através da fala e respiração. É muito simples reconhecer quando Ethan sente medo, raiva, desconfiança ou ansiedade, e isso só evidencia o quanto o trabalho de dublagem é competente.

Vale citar que Léo Rabelo (Satoru Gojo em Jujutsu Kaisen), dublador de Chris Redfield no filme animado Resident Evil: A Vingança, reprisa seu papel no jogo. Em resumo, a dublagem é muito boa e talvez só aqueles que tenham o hábito de preferir o áudio dos jogos em inglês não apreciem tanto.

Os gráficos são outro ponto forte, muito por conta da RE Engine, que utiliza o método de fotogrametria, possibilitando gráficos muito bonitos mesmo no PlayStation 4, e ambientações ricas em detalhes. Infelizmente, o Modo Foto acaba não sendo uma opção muito boa para o registo de imagens, visto que ele deixa as fotos numa qualidade inferior ao do gameplay, como você verifica no exemplo abaixo (função testada apenas num PS4, portanto, o problema pode não ocorrer em outras plataformas).

Imagem: Cena com e sem o Modo Foto.
Acima, um registro da imagem do jogo (no PlayStation 4) sem usar o Modo Foto; e em baixo uma imagem salva utilizando os recursos de registro de fotos do próprio jogo. Reprodução/Capcom.

Vale a pena?

Resident Evil Village não é tão marcante quanto o jogo de 2005 que homenageia em quase todo o tempo, mas é bom o suficiente para existir fora de qualquer sombra de um título passado e ser autossuficiente como o Resident Evil 8. Apesar da ação estar mais presente, não deixa de ser um survival horror e é muito competente quando a intenção é te assustar.

A história tem potencial e te prende por muito tempo, mas não está entre as melhores e a sequência de plot twists (mais bizarros que alguns roteiros tão criticados dos filmes de Paul W. S. Anderson) no final podem ter um sabor agridoce. No fim, senti que gostava muito mais do game pelo gameplay, do que as duas coisas (gameplay e história). O vilarejo e locais aos redores irão garantir muitos sustos e uma boa diversão.

Mesmo no PlayStation 4, o título tem gráficos muito bons e não há nenhum problema de performance (bugs) que atrapalhem sua experiência, muito menos pacotes gigantes de atualização logo no lançamento, como é bastante comum de acontecer. Embora possa vir a ser liberado alguma atualização para corrigir alguns problemas (como o Modo Foto no PS4), a sensação é de que Resident Evil Village realmente foi lançado pronto.

O tempo de duração da campanha principal também está na média da série, levando cerca de 13 horas para ser concluído, ou muito menos — eu completei em 14 horas e 40 minutos. Não é uma surpresa, visto que a maioria dos Resident Evil podem ser concluídos até em menos de 5 horas, entretanto, há tanto conteúdo e locais diferentes para explorar em Village então a sensação final é que você passou muito mais tempo.

O jogo também não acaba quando você termina a história, logo em seguida você desbloqueia um nível maior de dificuldade para encarar, e o modo extra “Os Mercenários”, lhe dando mais algumas horas com Ethan Winters. Mais vale um jogo bem feito com menos de 20 horas de duração, do que um título de 40 horas com muitos problemas de performance e missões ruins que servem apenas para prolongar o tempo.


Esta resenha foi feita com base em cópia gentilmente cedida ao JBox pela Capcom Brasil. O texto presente é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site.


Outras informações

Data de lançamento: 7 de maio de 2021.
Plataformas: PlayStation 5, PlayStation 4, Xbox Series X/S, Xbox One, PC e Google Stadia.
Desenvolvedora: Capcom.
Publicadora: Capcom.

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