Imagem: Takemichi apanhando em briga contra outro rapaz de gangue. Enquadramento de resenha do JBox.

Resenha | Tokyo Revengers: Quando uma idealização adolescente dá errado | Episódios 1 a 12

Em ‘Tokyo Revengers’, o mundo das gangues de delinquentes juvenis idealizado por um adolescente encontra a realidade perigosa da vida adulta.

A adolescência é um momento da vida onde comportamentos são idealizados. Em geral, com o intuito de buscar o respeito e a aceitação dos outros em volta. As pessoas começam a moldar o jeito como agem, suas aparências, suas opiniões acerca das coisas e a maneira como tratam os outros. Além de receberem influências externas do que é mais legal. E lutam tanto para se diferenciar que acabam se assemelhando a muitos outros.

Não que na vida adulta isso não exista. Acreditem, existe e muito! Mas na juventude as coisas são ampliadas e esses comportamentos, salvo exceções, acabam sendo os pontos principais do dia a dia. E Tokyo Revengers é um bom recorte disso – acrescido de ficção científica, roupas legais, cabelos irados e pessoas super fortes brigando na rua!

Esse é um animê do estúdio LIDENFILMS (do Berserk de 2016 e de Terra Formars), com direção do Koichi Hatsumi (de Deadman Wonderland) que adapta o mangá shounen da revista Shonen Magazine, da Kodansha, com 22 volumes já lançados.

Na trama, temos um jovem chamado Takemichi, que não deu muito certo profissionalmente ou socialmente após o fim do Ensino Médio. Ele mora sozinho num apartamento minúsculo e sujo, com uma vizinha implicante, tem um emprego terrível numa locadora de filmes e frequentemente é hostilizado por diferentes pessoas ao seu redor (incluindo crianças no meio da rua).

Imagem: Takemichi todo machucado dando "carona" para alguém provavelmente o Draken, líder da gangue.
Reprodução: Crunchyroll

Num dia, assistindo ao noticiário, ele descobre que sua ex-namorada de escola morreu num acidente causado por um grupo de bandidos num festival. Então, começa a pensar sobre o colégio e imaginar que aquele foi o seu apogeu social. Até que, numa estação de metrô, é empurrado nos trilhos por um estranho e, quando está prestes a ser atropelado, ele misteriosamente retorna 12 anos no passado e passa a viver novamente aquele período.

O problema é que sua imaginação estava fantasiando demais essa época e ele acaba se lembrando, das piores maneiras possíveis, do que ocorreu de verdade: ele e seus amigos, que se consideravam valentões, na verdade eram escravizados por uma gangue, forçados a brigar entre si por dinheiro e fazer outras coisas ruins.

Contudo, quando encontra seu cunhado, ainda criança nessa época, e o salva de outros marginais, eles apertam as mãos e Takemichi retorna ao futuro, descobrindo que consegue viajar no tempo quando encosta a mão do cunhado, que no futuro é um policial. Enquanto o tempo passa para ele no passado, seu corpo no futuro fica em estado de animação suspensa.

Imagem: Takemichi e seu cunhado.
Reprodução: Crunchyroll

Daí em diante, os dois colocam em ação um plano envolvendo investigações no presente e no passado para tentar impedir o avanço (ou a degradação, depende do ponto de vista) da gangue de marginais que domina a cidade. Para isso, Takemichi se torna amigo de Manjirou Sano, o líder da gangue, e Draken, o segundo no comando, a fim de impedir certos eventos aconteçam e o grupo de marginais “vá para o lado ruim da força”.

Tokyo Revengers tem uma relevância temática bem interessante. Histórias sobre gangues no Japão possuem um peso cultural quando levamos em conta que o crescimento de grupos delinquentes após a Segunda Guerra ainda influencia o país hoje em dia, afetando nos comportamentos sociais desde a moda até a segurança pública.

Boa parte do estereótipo fashion que observamos em animês, mangás, filmes, etc., são herdados de gangues dos anos 60 aos 80. Cabelos coloridos, aqueles penteados masculinos com um moicano enrolado no topo da cabeça, uniformes escolares estilizados com blusas abertas e calças ou saias bem mais largas, baixas ou curtas demais, tatuagens, piercings e o uso de muitas pulseiras, anéis e cordões.

Mesmo o uso de roupas mais específicas, com as cores significando algo. São vários os animês, por exemplo, onde personagens mais rebeldes e esquentados utilizam esse estilo visual:

Imagem: vários personagens de gangue de animês.
Yusuke e Kuwabara, de “Yu Yu Hakusho”, Roughtraff, de “Yo-Kai Watch”, Knuckle Bine, de “Hunter X Hunter” e a gangue das bicicletas, de “Pokémon”. | Imagem: Reprodução

Além disso, é possível reconhecer influências de gangues japonesas, por exemplo, naquilo de tramas onde um grupo de pessoas, geralmente um pouco colocadas de lado pela sociedade ou pela família por algum motivo, se juntam a partir de um ideal ou uma meta em comum para enfrentar tudo e todos até conquistar o que eles acham que lhes é de direito, sempre com um sentimento de irmandade durante esse percurso.

O que Tokyo Revengers faz narrativamente é trabalhar com os dois lados da moeda, tirando um pouco da glamourização do estilo de vida das gangues japonesas, mas também deixando no ar uma visão idealizada de que as coisas podem ser boas, honradas e felizes mesmo dentro de uma vida de crime – e para isso acontecer é preciso um investimento interno, com o controle de “bandidos de bom coração.” Afinal, a história é contada pelo ponto de vista de um deles.

Imagem: Valentões de 'Tóquio Revengers'.
Reprodução: Crunchyroll

São vários os momentos onde o que de pior pode existir nesse universo marginal é representado em tela. Como disse, logo ao voltar pro passado Takemichi se recorda dos horrores que ele viveu sendo escravizado por delinquentes de outra escola, mais velhos e fortes que ele e seus amigos. Esteticamente, esses vilões, ainda adolescentes, são caracterizados como adultos: eles têm cicatrizes, rugas, são meio sujos, tatuados, inchados, quebrados, faltam dentes, fumam, são cruéis com os outros.

E não carregam a “honra” dos verdadeiros delinquentes. Em dado episódio, para não lutar mano a mano com o Takemichi, um dos líderes menores de uma gangue, justamente o que escravizava o protagonista e seus amigos, pede um taco de beisebol para bater nele, que estava brigando só com as próprias mãos.

Enquanto os delinquentes “honrados” são representados de forma mais limpa, jovem, imaculada, asseada (mesmo o Draken, com uma tatuagem na cabeça). Quando vão para o presente, esse paralelo fica ainda mais evidente: Takemichi e seu cunhado, mesmo adultos, ainda preservam uma aparência jovem, como se ainda fossem adolescentes e as marcas da vida não tivessem se estabelecido sobre eles, enquanto um outro personagem, que se aprofundou na vida criminal, é retratado dum jeito bastante desgastado física e mentalmente.

Essa separação entre “bom” e “mau” dentro do mundo criado pelo animê é atrativa de assistir e combina bem com o estilo de história de ação que séries desse tipo costumam buscar. É uma interação “heróis vs vilões” simples, mas eficiente — um dos maiores destaques do animê.

Imagem: Takemichi apanhando em briga com Draken.
Reprodução: Crunchyroll

O trabalho de animação não é o mais detalhado de todos os tempos. Falta um pouco mais de fluidez nos movimentos dos personagens, tudo parece meio quadradão aos olhos, os cenários são um tiquinho limitados. Porém, é aceitável nos momentos de maior investimento. As partes de briga são bem montadas e nada chega a incomodar de verdade.

Pois Tokyo Revengers conquista pelos personagens. As interações entre eles, os laços que vão sendo construídos, as neuras de cada um afetando o desenvolvimento da história. No fim, é uma boa história sobre amizades, sobre famílias escolhidas, sobre o peso que a falta de maturidade na adolescência tem sobre as decisões idiotas tomadas ali.

Esse é um bom animê sobre a idealização de comportamentos quando somos mais novos e sobre como a vida real revela o quanto eles podem ser ruins a longo prazo. E sobre cabelos legais, não se esqueçam dos cabelos legais.


Tokyo Revengers está em exibição atualmente na Crunchyroll com opção de áudio dublado em português ou no idioma original com legendas. A série segue com novos episódios na temporada de verão. A Crunchyroll fornece ao JBox um acesso à plataforma.


O texto presente nessa resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

Publicidade
close