Imagem: Personagens de 'Reyaerth', 'Digimon 01', e 'Utena' em capa da edição 9 da coluna Se Localizando, por Marcelo Sahgo.

Nomes internacionais são sempre ruins? | Se Localizando #9

Pode ser bem-vindo a produtora sugerir um nome internacional, mas nem sempre funciona quando se trata de uma imposição.

Em 1996, estreou no canal SBT o animê Guerreiras Mágicas de Rayearth (Magic Knight Rayearth – e só pra constar, “Reyarth” não é o nome do mundo onde elas se aventuram), cativando tantas crianças e ganhando seu lugar no patamar nostálgico dos animês no Brasil.

De vez em quando, eu ouço conversas casuais sobre a adaptação da série, e quase sempre alguém solta algo tipo “que pena que a dublagem usou os nomes americanos para as personagens” (o trio Lucy, Anne e Marine, que na versão japonesa são conhecidas como Hikaru, Fuu e Umi).

Mas esses não são os nomes delas na dublagem americana da animação. Lá, elas são conhecidas como… “Hikaru”, “Fuu” e “Umi”. “Ué?”, talvez algum de vocês questione, “então quem mudou os nomes? Os mexicanos? Os franceses? Nós?”... Não, amigo(a); na verdade, foram os próprios japoneses!

Esses nomes foram escolhidos pela própria produtora, a TMS, como “nomes internacionais” para a exportação do animê. Eram os anos 1990, e naquele tempo havia muito medo de os “estranhos” nomes japoneses afugentarem os telespectadores – ou pior, as licenciadoras! Por esse motivo algumas empresas japonesas tinham nomes internacionais preparados para essas ocasiões, como “sugestões”.


Imagem: Ilustração promocional de 'Rayearth' com a protagonista.
Divulgação: Atsuko Ishida/TMS/Revista Animage.

No caso de Rayearth nos Estados Unidos, diga-se de passagem, a sugestão simplesmente foi ignorada – quem licenciou a série, a Media Blasters, mirava especificamente no público fã de animê, que não gosta de trocas de nomes.

Isso é diferente de como foi aqui, onde a série foi direto para o bloco de desenhos infantis do SBT, e em algum ponto do processo de compra, alguém deve ter achado que os nomes sugeridos seriam melhores.

Aliás, como curiosidade extra: quando a TMS começou a vender o animê para os Estados Unidos, eles gravaram uma dublagem-piloto para distribuição, com a esperança de exibir Rayerath na TV, mas tudo acabou rejeitado. Essa dublagem-piloto usava os nomes internacionais.

Eu adoro descobrir esses pequenos detalhes, essas precauções que os estúdios japoneses tomam ao exportar suas obras. Infelizmente, nem todos os casos são tão na cara quanto o de Rayearth; para os outros, eu só posso fazer “deduções embasadas”.

Por exemplo: tenho quase certeza de que a troca do termo “santo” por “cavaleiro” em Os Cavaleiros do Zodíaco foi uma sugestão da Toei. Pode até ter sido uma decisão dos localizadores na França – o primeiro país a exibir o animê nos lados de cá, em 1988 – mas considerando que até hoje a Toei apela para o “Cavaleiro” em certos projetos sem relação com a França, como o remake da Netflix… bom, se não foi uma sugestão dela em 1988, definitivamente é hoje.

Imagem: O Sr. Satan em 'Dragon Ball Z'.
Reprodução: Toei.

Outro caso parecido ocorreu com outra série da Toei: Dragon Ball Z. Acho que muitos já sabem disso, mas nos Estados Unidos, a versão do animê exibida na TV trocava o nome do personagem “Mr. Satan” para o menos religiosamente carregado “Hercule”; uma troca que também afetou os antigos jogos da série, direcionados a um público bem jovem.

Mas os EUA não foram o único país a usar “Hercule” para o personagem – a França também usou (não pela possível insensibilidade religiosa, mas porque lá já havia dois personagens com “Satan” no nome, esses sendo o Rei Cutelo, que era “Satanirus”, e Piccolo, que era “Satan Petit-Cœur”). Tudo indica que a Toei tinha esse nome como sugestão para esse tipo de situação, e que os americanos simplesmente aceitaram a sugestão.

E ainda no trem da Toei, temos o caso de Digimon Adventure – o nosso “Digimon 1”. Geralmente culpamos os americanos pelos “nomes apelidos” usados na dublagem (“Matt” no lugar de “Yamato”, “T.K.” no lugar de “Takeru” etc.), mas o mais provável é que tenha sido uma decisão conjunta das produtoras japonesas com a Bandai americana, e imposta sobre todas as línguas possíveis para facilitar a venda de brinquedos e merchandise. É muito mais fácil quando você não tem que mexer nos nomes que aparecem nas caixas!

Aqui vemos que, muitas vezes, a prática dos “nomes internacionais” é uma ação conjunta com estrangeiros, complicando um pouco a definição da prática. Por exemplo – os nomes de Digimon definitivamente são “internacionais” porque a própria Toei japonesa os utilizava quando era conveniente (em materiais de imprensa etc.).

Imagem: Os digiescolhidos e Digimons de 'Digimon Adventure 01'.
Divulgação: Toei.

Mas para dar um exemplo inverso, alguns dos nomes abrasileirados nas nossas velhas dublagens de animês de Captain Tsubasa (ou Super Campeões, como era conhecido na época), como o “Carlos” Misaki, não foram usados em nenhuma outra dublagem ao redor do globo; portanto, provavelmente são nomes locais, não internacionais.

Outro caso que eu acho interessante é o da Enoki Films. Essa é uma produtora japonesa criada em 1975 e que, nos anos 80, criou uma subsidiária internacional para distribuir animes internacionalmente – inclusive vários que vieram para o Brasil, como El-Hazard e Demon Lord Dante.

Imagem: Utena e Anthy, de 'Shoujo Kakumei Utena'.
Divulgação: J.C Staff.

Ela tinha nomes internacionais para alguns de seus produtos – mais infamemente, para o cultuado Utena – A Garota Revolucionária (Shoujo Kakumei Utena), que a empresa até hoje distribui com o título sugerido de Ursula’s Kiss (“O Beijo de Úrsula”).

Como o título sugere, o nome sugerido para a protagonista seria “Ursula”, “Juri” viraria “Julie”, “Touga” viraria “Tommy” etc. Poucas línguas parecem ter adotado esses nomes – com destaque dado ao espanhol.

Mas, como eu disse, nem toda mudança de nome é decisão japonesa; algumas são genuinamente domésticas. Um segundo exemplo super interessante é Zatch Bell!, chamado Konjiki no Gash Bell no Japão. A versão do animê que recebemos aqui no Brasil foi antes “retocada” pela americana VIZ Media, e contou com vários nomes trocados – “Gash“ para “Zatch”, “Suzume” para “Suzy” etc.

O parceiro do pequeno personagem-título do animê, Kiyomaro, teve seu nome encurtado para “Kiyo”… mas olha que curioso: no site da Toei (versão em inglês), na página da série, esse personagem não aparece nem como “Kiyomaro”, nem como “Kiyo”; mas sim, como “Kory”. Seria esse um nome internacional sugerido para o personagem? Seria um erro de digitação repetido? Talvez nunca saibamos!

Outro exemplo nesse estilo está em As Super Gatinhas (Tokyo Mew Mew). A versão exibida por aqui, pelo Cartoon Network, passou pelas mãos da infame 4Kids Entertainment, e, como esperado, teve vários nomes personagens trocados: “Ichigo” virou “Zoey”, “Keiichiro” virou “Wesley”, “Ryou” virou “Elliot”… e ao que tudo indica, esses nomes realmente foram escolhas americanas, sem intervenção japonesa.

Imagem: Ryou/Ryan de 'As Super Gatinhas'.
Divulgação: Pierrot.

Mas quando o animê foi inicialmente anunciado pela 4Kids, o personagem Ryou/Elliot era referido como “Ryan” – que, por coincidência, é o nome do mesmo personagem na dublagem italiana da série, adaptada direto do japonês. Achamos outro, amigos – “Ryan” muito provavelmente é o nome internacional sugerido desse personagem!

Até mesmo a grafia de um nome pode ser imposta como um “nome internacional”. Por exemplo: no Japão, os vários animês e jogos de Pokémon sempre foram publicados como “Pocket Monsters”. E a palavra “pokémon” sempre foi uma abreviação utilizada por eles, mas a grafia exata dessa abreviação não era fixa no começo; é por esse motivo que nos primeiros episódios do animê, é possível ver o nome escrito como “Pocke Mon”, “Pockemon”, “Poke-mon” etc.

Com o lançamento da franquia internacionalmente, finalmente foi decidido que a grafia seria “Pokémon”, e assim se mantém até hoje por todo o mundo, incluindo o Japão.

Mas todos esses são exemplos antigos, porque essa é uma prática antiga – agora que animês estão mainstream a ponto das Casas Bahia usá-los para fisgar os jovens (tsc, tsc), não há muito motivo para tomar essas precauções anti-pânico-de-estrangeirismos (a menos que estejam escondendo da gente!). Agora, títulos, por outro lado? Esses continuam uma mina de nomes internacionais escolhidos pelos japoneses. Na verdade, nessa área, a prática provavelmente se intensificou.

Imagem: Pôster promocional de 'SNAFU'.
Divulgação: Brain’s Base.

Vemos isso muito com títulos de animes baseados em light novels, que têm a fama de serem longos e explicativos.

Coisas como “My Teen Romantic Comedy SNAFU” e “That Time I Got Reincarnated as a Slime” não são títulos que os americanos escolheram; eles já vieram preestabelecidos do Japão (com o auxílio de algum gringo, provavelmente – eu duvido que tenha sido ideia de um japonês usar um termo tão específico quanto “SNAFU”) para uso fora do país.

Infelizmente, esses andam bem menos “sugestão” e muito mais “imposição”, com todos os países tendo que usá-los, seja na publicação de animações, mangás ou de light novels.

Um dos exemplos mais famosos disso é a obra “The Ancient Magus’ Bride” (Mahou Tsukai no Yome, no Japão; animê disponível dublado na Crunchyroll, mangá publicado pela Devir) – que mantém esse longo título em inglês em todos os países fora do Japão, ignorando o quão pouco acessível ele é em alguns desses países.

É uma consequência do mercado globalizado em que vivemos, mas não posso dizer que é a solução mais elegante que há. Sim, o inglês é muito falado mundialmente, inclusive aqui, mas não quer dizer que queiramos ver tantas palavras do idioma em obras da cultura japonesa, né?

Mas os nomes sugestões (não imposições)? Esses eu acho infinitamente fascinantes – e o caráter “escondido” deles os torna ainda mais interessantes, como um tesouro a encontrar, um segredo para desvendar. E a investigação continua: estou sempre disposto a descobrir mais deles! Desta vez, só tenho uma pergunta: para os fãs de Utena… “Ursula”: dez ou zero? É muito “vilã de novela mexicana”? Digam aí e até a próxima!


O texto presente nesta coluna é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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