Imagem: Kamen Rider Decade ne capa da edição 136 da Coluna do Daileon.

Os furos espaço-temporais dos crossovers da Toei | Coluna do Daileon #136

Nem Freud, Emmett Brown ou mesmo o produtor Shirakura conseguiriam explicar tamanhas loucuras, inconsistências, descontinuidades, coisa e tal e tal e coisa.

Sinceramente, eu não estou tão animado com o filme Kamen Rider Saber + Kikai Sentai Zenkaiger: Superhero Senki, que está em cartaz nos cinemas japoneses há exatos 15 dias. Com a honrosa exceção da série de filmes Space Squad, que reúne heróis das franquias Metal Hero e Super Sentai, esses crossovers da Toei costumam beirar o nonsense.

Alguém pode justificar dizendo que é apenas um fanservice e pronto. O problema não é ser ou não um fanservice, mas se a trama é convincente ou só mais um caça-níquel barato. Até acredito o último caso possa ser do novo filme, que ganhou um novo teaser neste fim de semana, apresentando o saudoso mangaká Shotaro Ishinomori como um personagem (veja aqui).

Desde que não fique o dito por não dito, eu não vejo problemas quando a Toei mostra heróis das séries Kamen Rider e Super Sentai coexistindo no mesmo universo. Até porque isso é bem comum, por exemplo, nos quadrinhos da DC Comics e da Marvel entre seus heróis, que de vez em quando promovem seus crossovers.

Confesso que eu não sou especialista em HQs, mas já ouvi falar que ambas as editoras já apresentaram tramas sobre mundos paralelos e coisas do tipo.

Imagem: Pôster promocional.
Pôster do filme JAKQ vs. Gorenger | Foto: Divulgação/Toei

Antigamente, quando a Toei era menos pretenciosa, ela apresentava uma certa coexistência entre as duas franquias. No filme JAKQ vs. Gorenger (de 1978), é mencionado que Kamen Rider V3, Kamen Rider Amazon e até o Kikaider estavam em diferentes partes do mundo, lutando contra os vassalos de CRIME, a organização maligna da série JAKQ.

Pra contextualizar, todos esses heróis são de Ishinomori. Gorenger e JAKQ ainda não eram considerados os pioneiros de Super Sentai, uma vez que a franquia só começou em 1979 com Battle Fever J, historicamente falando. Até o lançamento deste filme crossover, existia a aliança dos Sete Riders Lendários (do primeiro até o Stronger).

Só que o tempo passou e mostrou que, mesmo com a independência de cada série Kamen Rider e Super Sentai, havia sim uma coexistência entre os heróis de cada franquia. Na dúvida, basta ver Kamen Rider Black RX e Turboranger, por exemplo – onde cada encontro se elevou à décima potência (entendedores entenderão).

Imagem: Dois rangers vermelhos de tokusatsu distintos.
Ei, Red Racer. Se eu, Oh Red, sou de 1999, o que eu estou fazendo aqui… no passado, sem mais nem menos? | Foto: Reprodução/Toei

A partir de 1996, agora com Gorenger e JAKQ sendo considerados como os dois primeiros super esquadrões, quase sempre teve algum filme crossover entre o Super Sentai da vez (já na reta final) e seu antecessor. Quem abriu as portas foi o filme – de formato V-Cinema – Chouriki Sentai Ohranger: Ole vs Kakuranger.

Até aí, tudo bem. A trama de Ohranger, série de 1995, se passa em 1999. Pela lógica, a equipe liderada pela pequena notável Tsuruhime deveria se passar quatro anos após o final de Kakuranger. Só que a Toei parece não ligar muito pra cronologia, tanto que em 1997 rolou mais um crossover: Gekisou Sentai Carranger vs. Ohranger.

Aposto que você já notou um furo cronológico aí. Se Carranger é uma série de 1996 e que se passa no mesmo ano de produção, então como poderia se encontrar com uma equipe de 1999? 🤔 O primeiro episódio de Ohranger já confirmava a data de cara.

Ah, mesmo que Ohranger seja ambientado entre 1995 e 1996 (como deveria ser), o salto de seis meses que ocorre no penúltimo episódio não poderia ser justificado no filme crossover, uma vez que Baranoia dominou a Terra nesse espaço de tempo da série e o então novo Super Sentai já estaria enfrentando outro clã maligno que quer dominar a Terra . Já os eventos finais de Carranger se passaria entre o final de janeiro e início de fevereiro de 1997.

A melhor solução para reconectar Ohranger foi mesmo uma retcon (continuidade retroativa), um elemento que já foi usado, por exemplo, no mangá de Os Cavaleiros do Zodíaco. A trama originalmente se passaria em 1986, mas na saga de Hades foi dito que os eventos eram de 1990. Particularmente eu não curto muito esse recurso, pois acredito que a originalidade deveria ser mantida e furos como esse deveriam ser evitados, de maneira inteligente.

Pois bem, Ohranger teve seus eventos considerados como sendo da mesma época de exibição mesmo. Simples assim e dane-se o narrador que diz que a história se passava no futuro (não tem corretivo que apague essa assinatura escrita com caneta azul, azul caneta). Se era pra ficar mesmo no futuro, a melhor solução seria separar Ohranger da cronologia original quando era tempo, como a Toei faz com Kyuranger (série Super Sentai de 2017) desde o início. Mas o que está feito, está feito. 🤷‍♂️

O mesmo aconteceu nas séries Metal Hero, com Winspector. A trama se passava em 1999 (a série era de 1990), mas Solbrain, sua continuação, se passava em 1991 (sim, no mesmo ano de lançamento).

Furos do tipo aconteceram também — de propósito — em Kamen Rider Agito. A série se passava em 2001, ano de sua exibição, sendo que a trama se passa dois anos depois do final de Kamen Rider Kuuga (2000~01). Esse tipo de coisa é detalhe e não atrapalha a diversão, veja bem. Mas foi só chegar o ano de 2009 pra coisa ficar mais avacalhada um pouquinho. E culpa é de quem mesmo, hein? Ah, é do Decade.

Imagem: Kamen Rider Decade.
Maldito Decade! | Foto: Divulgação/Toei

Lembro que um dos assuntos daquele momento nos papos de roda sobre tokusatsu era sobre o conceito de mundos paralelos de Kamen Rider Decade.

Tinha muita confusão e achismos na época. Nem tudo foi explicado, mas se você ao menos tentar entender a meta-ficção da série, contextualizado pelo produtor Shinichiro Shirakura, já é meio caminho andado.

Um ponto relevante para essa reflexão é que os personagens que foram interpretados pelos seus atores de origem são versões alternativas dessa meta-ficção (exceto os de Kamen Rider Den-O e Shinkenger, por motivos óbvios).

O mesmo vale para as duas versões de Issamu Minami, que são alternativas e nada tem a ver com o personagem que vimos em Kamen Rider Black e Kamen Rider Black RX. E foi nessa brincadeira que tivemos a coexistência entre Black e Black RX, sendo que originalmente um só existe em detrimento do outro.

Há alguns furos que eu poderia me aprofundar como a possível retcon do último episódio de Kamen Rider W (pra justificar os dois encontros com o Eiji Hino/Kamen Rider OOO), os mundos paralelos de Kamen Rider Drive e Ninninger no especial da primavera de 2015 e por aí vai.

Só que o sinônimo de tamanha bagunça nos crossovers entre Kamen Rider e Super Sentai é, sem dúvida, a série de filmes Super Hero Taisen. Se tivemos um Gokaiger consistente em 2011, vimos os nossos Piratas Espaciais num roteiro chato, sem graça e sem nexo em 2012 com o filme Kamen Rider × Super Sentai: Super Hero Taisen.

Imagem: Diversos Kamen Riders e esquadrões Sentais.
A união da “ciência” e da “magia“, segundo Shirakura | Foto: Divulgação/Toei

A desculpa do produtor Shirakura (que é mestre nesse tipo de coisa) era de que “Rider é ciência, Sentai é magia“. A combinação foi catastrófica, em termos de embasamento, com muita enrolação e diálogos sonolentos pra juntar todos os heróis das duas franquias. E sem contar que foi a partir dali que a situação “enganar o aliado para enganar o inimigo” começou a ficar batida.

E a Toei acabou tendo que fazer uma retcon forçada com Gokaiger, jogando os eventos da série de TV para 2011 (ano de produção/exibição). E que a trama se passava pelos menos dois anos depois do final de Goseiger. Tanto é que no episódio 40 da série, quando os heróis viajam no tempo para o dia 2 de outubro de 2010, Gokai Silver diz que a Tokyo Skytree ainda estava em construção. Em tempo, as obras foram concluídas em 29 de fevereiro de 2012 e a inauguração da torre foi em 22 de maio do mesmo ano.

E por um acaso, Super Hero Taisen fez sucesso e rendeu uma sequência em 2013 chamada Kamen Rider × Super Sentai × Uchuu Keiji: Super Hero Taisen Z. Pelo título, até os novos Policiais do Espaço entraram na muvuca.

O filme tentou ser legal por mostrar os novos Gavan, Sharivan e Shaider em ação, mostrar uma inusitada aliança entre Leider e Shadow Moon, os vilões de Sharivan e Kamen Rider Black, respectivamente. Aliás, Shadow Moon se consagrou como o “saco-de-pacadas” desse tipo de produção (como se não bastasse a sua versão alternativa ter sido humilhado por Kamen Rider W no filme Kamen Rider Decade: All Riders vs. Dai-Shocker).

Imagem: Gavan segurando bonecos de Rangers.
Gavan Type-G e as Ranger Keys de alguns dos antigos Metal Heroes, incluindo Jiraiya e Jiban | Foto: Divulgação/Toei

E tanta expectativa para ver os Piratas do Espaço usando as Ranger Keys dos Metal Heroes para uma breve cena de ação e nada mais. Até hoje não se sabe de onde o Geki/Gavan Type-G as conseguiu e provavelmente nunca saberemos (tão misterioso quanto a pessoa que mora com o Chaves na casa de número 8 da vila).

Bem, acho que nem deveríamos levar isso tão a sério, pois neste filme Retsu, o Gavan original, era o comandante da Polícia Galática. Nos dois filmes da série Uchuu Keiji: Next Generation, o comandante é outro.

Só pra citar: os outros filmes da série Super Hero Taisen foram: Heisei Rider vs. Showa Rider: Kamen Rider Taisen feat. Super Sentai (2014), Super Hero Taisen GP: Kamen Rider 3 (2015) e Kamen Rider × Super Sentai: Chou Super Hero Taisen (2017).

E eu não posso deixar de mencionar aquela série que superou Kamen Rider Decade, por ser digno de uma premiação no Framboesa de Ouro. Kamen Rider Zi-O é uma série que deveria cair no vórtex do esquecimento eterno, pois, além de se mostrar uma espécie de “Decade 2.0”, acabou explodindo as mentes dos espectadores – do jeitinho que o Shirakura gosta. O que era pra ser uma viagem no tempo, virou outra coisa. Essa eu deixo pra vocês verem ou reverem a série no Prime Video ou quiçá numa maratona dessas no canal TokuSato, da Pluto TV para vocês tirarem suas próprias conclusões.

Nem Freud, Emmett Brown ou mesmo Shirakura conseguiriam explicar tamanhas loucuras, inconsistências, descontinuidades, coisa e tal e tal e coisa. Mas o que a gente quer mesmo é ver a saga do Space Squad de volta, que é muito melhor e minimamente coesa.


O texto presente nesta coluna é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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