Imagem: Tanjiro chorando perto de Kyojuro Rengoku em 'Mugen Train'.

Crítica | Demon Slayer – Mugen Train: O Filme

Filme de ‘Demon Slayer’ é um abacaxi que tem bem pouco de “cinematográfico”. É como se juntassem um punhado de episódios do animê para TV num arquivo só, mas com todos os defeitos acentuados pela tela grande.

A Funimation estreia hoje (13) em sua plataforma Mugen Train, primeiro filme derivado do animê Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba. O longa-metragem saiu originalmente em outubro do ano passado lá no Japão e se tornou a maior bilheteria do país, de um filme japonês mundialmente e ainda de um longa de 2020.

O filme já havia estreado aqui no Brasil, mas nas salas de cinema, no dia 13 de maio. E mesmo em tempos de COVID-19, ele repetiu, dadas devidas proporções do nicho, o sucesso, sendo o terceiro de maior bilheteria em seu primeiro fim de semana.

Tudo o que envolve Demon Slayer atualmente é envolto em grandes números. Além dos feitos cinematográficos listados acima, as cópias dos mangás batem recorde em vendas, a cantora responsável por sua trilha sonora se tornou um sucesso fonográfico e a obra num todo vem escrevendo seu nome no lore da cultura pop nipônica contemporânea.

Mas nem sempre sucesso significa qualidade. Nesse caso, inclusive, me parece inversamente proporcional.

Imagem: Rengoku comendo bentô em trem, com Tanjiro e Zenitsu.
Divulgação: Aniplex/Funimation

Antes, as obrigações: baseado no mangá de Koyoharu Gotouge, publicado na Shonen Jump entre 2016 e 2020, com 23 volumes encadernados no total, a trama de Demon Slayer se passa no Japão do período Taisho e apresenta a história de Tanjiro Kamado, um garoto de bom coração que vendia carvão para sobreviver.

Certo dia, sua família é cruelmente assassinada por um oni (criatura de chifres do folclore japonês), que também amaldiçoou sua irmã mais nova, transformando-a num deles.

Embora devastado com tudo que lhe aconteceu, Tanjiro decide tornar-se um “matador de onis,” procurando aquele que massacrou sua família enquanto também tenta encontrar um meio para que sua irmã volte a ser humana.

Ao longo da primeira temporada do animê acompanhamos os passos iniciais dele em tal mundo, tendo também que lidar com espadachins de uma casta mais avançada à sua, os “Hashiras”, que contestam o fato dele, um espadachim, andar por aí com uma oni, inimiga mortal do grupo.

Mugen Train, então, se passa diretamente após o fim da primeira temporada da série, com seus eventos interferindo diretamente na cronologia principal, algo incomum se tratando de um filme vindo de uma franquia de animê para a TV – longas assim costumam ser fillers, ou seja, história fechadas cuja interferência no andamento dos episódios é pouca ou nula. Na trama, os personagens descobrem estar à mercê de um oni enquanto viajam num trem.

O problema é que Mugen Train parece levar o conceito de ser uma continuação direta da série para a TV a sério demais, porque isso aqui é bem menos “filme” do que deveria. Do início ao fim, é como se estivéssemos assistindo um episódio de quase duas horas de duração de Demon Slayer. Com todos os contras que isso pode gerar.

Imagem: O antagonista Enmu em 'Mugen Train'.
Divulgação: Aniplex/Funimation

Enxergo dois problemas principais no animê de Kimetsu. O primeiro é em relação ao roteiro, ao jeito como tudo é escrito e construído. A premissa é legal, daria pano para manga em muitas aventuras exploráveis dentro do folclore nipônico.

Só que os caminhos que a trama pega são todos muito óbvios, com várias facilitações narrativas. Aqui no filme, por exemplo, há um momento onde os personagens são presos dentro dum mundo de sonhos. Existe uma justificativa para o Tanjiro se libertar, mas os outros 3, Zenitsu, Inosuke e Kyojuro Rengoku, o Pilar das Chamas, parecem escapar porque o roteiro precisa deles em cenas de luta em seguida.

Tal problema na escrita se estende ao jeito como os personagens são montados. Quem criou eles parece ter se baseado em alguns clichês bem específicos de obras de ação shounen, mas sem muita variedade em seus desenvolvimentos para que eles tenham cores próprias entre si.

Usando o trio Zenitsu, Inosuke e Kyojuro como exemplo: os 3 heróis compartilham traços de personalidade que deixam eles muito semelhantes. Eles são impulsivos em suas atitudes, têm um furor no modo como agem. Por mais que um seja medroso, um inconsequente e outro mais habilidoso, é como se fossem a mesma voz interpretativa em situações diferentes. Além de passarem a maior parte do tempo gritando, inclusive na versão brasileira.

O mesmo ocorre com os vilões. Os dois de Mugen Train são daquele arquétipo de “psicopata que acredita estar fazendo um bem às vítimas”, mas com visuais e poderes diferentes.

O segundo problema é em relação à animação em si. A soma de cenários de fundo feitos por CGI, extremamente opacos, quase nada detalhados, com os personagens feitos em desenho 2D (possivelmente homenageando nos traços o estilo de xilogravura ukiyo-e) é feia demais aos olhos.

Além da direção ser bem pouco criativa em ângulos, tomadas e não caprichar quase nada nas cenas de luta, sempre simples demais (um dos “ápices” coreográficos do longa-metragem é com dois personagens pulando e… cortando o chão do trem).

Imagem: Inosuke enfrentando monstro com vários olhos.
Divulgação: Aniplex/Funimation

Esse dois prolemas poderiam ser melhorados dentro de um filme. Afinal, é um projeto fechado, supostamente (já chego lá) com começo, meio e fim. Foi feito para as telonas, pra ser assistido em grande escala visual. Só que não parece haver muita diferença na qualidade entre o que foi feito para a TV e aqui.

Nenhuma cena parece ter envolvido um pouco mais de dedicação dos animadores. É a mesma direção “a granel” que precisa produzir muito com pouco, quando deveria ser o contrário nesse caso.

É tão uma colagem de episódios que sequer traz coisas básicas que filmes costumam ter. Arco narrativo, curva de aprendizado dos personagens para que eles reflitam coisas e ganhem skills que os ajudarão a enfrentar o antagonista, momentos de construção que levam a um grande final: falta tudo isso.

Para piorar, um pouco depois da metade, quando o “final boss” é derrotado, o filme insere uma nova ameaça, vinda do nada, sem qualquer relação com tudo o que havia acontecido antes, como um plot twist que até funcionaria no formato seriado do animê, mas não faz sentido nenhum dentro de um filme, pois tira o peso de tudo o que ocorreu durante mais de uma hora de rodagem.

Imagem: Akaza em filme de 'Demon Slayer'.
Divulgação: Aniplex/Funimation

Demon Slayer: Mugen Train é péssimo, pois pega uma execução já pouco satisfatória dum formato seriado para a TV e leva para as telonas do cinema sem parecer se importar em adaptar-se à nova mídia. Eu até diria que a melhor parte dele são os créditos, onde tocam Homura, da LiSA, mas me deram a impressão de terem sido feitos num Power Point.

Nunca uma febre coletiva no universo pop japonês me foi tão inexplicável quanto essa.

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Essa resenha foi feita com base na versão dublada de Demon Slayer: Mugen Train, cujo screener foi enviado antecipadamente ao site JBox pela Funimation como promoção à imprensa. A plataforma adicionará o longa, já com passagem nos cinemas brasileiros, ao seu serviço no dia 13 de agosto.


O texto presente nessa resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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