Imagem: Foto de capa do primeiro volume de 'A Lanterna de Nix', dentro dos padrões de resenha do JBox.

Crítica | A Lanterna de Nix: Uma brisa europeia em Nagasaki | Volume 1 (Pipoca & Nanquim)

Ambientado em momento decisivo da história do Japão moderno, primeiro volume apresenta trama cativante e promissora.

Uma loja de artigos importados localizada em Nagasaki é o ponto de partida para a história de Miyo. A jovem garota, que  – segundo a própria família – não possui nenhum talento, carrega, na verdade, o dom da clarividência. O poder sobrenatural lhe permite enxergar o passado e o futuro das pessoas “escondidos” nos objetos.

Em outras palavras, basta que Miyo toque em um objeto para que lhe sejam revelados seu antigo dono e o futuro possuidor do item. Nas visões, ela pode ainda captar a atmosfera geral do momento que vislumbra, sendo capaz de aferir o estado de ânimo das pessoas ligadas aos objetos tocados.

É essa a premissa de A Lanterna de Nix (Nyx no Kakuto). A sinopse, entretanto, diz pouco sobre o que o leitor irá encontrar na premiada obra de Kan Takahama, que merece muita atenção e de cara desponta como um dos melhores lançamentos do ano.

A começar por um dos aspectos mais importantes de uma narrativa, é importante falar do tempo. A primeira cena apresenta uma idosa tentando consolar sua neta dentro de uma caverna transformada em abrigo, nos idos de 1944, em Kumamoto – prefeitura vizinha à Nagasaki, localizada na Ilha de Kyushu.

Eram os momentos decisivos da mais terrível guerra protagonizada pela humanidade, véspera dos conhecidos bombardeios que atingiriam Hiroshima e Nagasaki. A idosa, viemos a saber logo nas próximas páginas, é a própria Miyo, que está a contar a história de sua juventude para a neta. Descrita por ela como a “época mais bela do mundo” (p. 8), trata-se do ano de 1878, cerca de 10 anos após a instauração de um dos períodos preferidos dos quadrinhos japoneses, a Era Meiji (1868-1912).

Imagem: Páginas de 'A Lanterna de Nix' em foto.
Foto: Rafael Brito.

É nesse ano, 1878, que Miyo conhece a Vinght, loja de produtos importados do carismático Momotoshi. Os avós de Miyo, que tentam a qualquer custo arranjar-lhe um emprego, apostam suas fichas na lojinha. Momo e Ganji, espécie de administrador da Vinght, acabam gostando da garota, que é contratada para trabalhar com as vendas.

Forma-se então um primeiro núcleo de personagens que consiste num dos grandes pontos altos do mangá. As personalidades distintas, a maneira como cada um deles vai revelando seu interior a cada interação, cada diálogo… é de um notável primor. Há muita química entre Miyo, Momo e Ganji, o que torna as cenas muito agradáveis.

E não só esse “grupo de protagonistas” parece cuidadosamente planejado, como todos os demais personagens são suficientemente interessantes. A autora confere a cada figura uma singularidade realmente admirável, efeito que poucos artistas são capazes de obter. E chama a atenção o fato de Kan Takahama trabalhar, em A Lanterna de Nix, com personagens de diversos tipos e idades: jovens, comerciantes adultos e de meia idade, senhoras negociantes, idosos artesãos.

Todos ganham a mesma dedicação por parte da autora, e mesmo um personagem secundário consegue causar no leitor uma curiosidade a respeito de seu background, por exemplo (o que, torno a dizer, não é uma qualidade vista em qualquer história).

Imagem: Capa de 'A Lanterna de Nix'.
Foto: Rafael Brito.

Obviamente que isso não significa dizer que a autora promove uma abolição na hierarquia narrativa. Portanto, os personagens principais conseguem se destacar, à medida que a narrativa se debruça sobre eles na maior parte do tempo.

Neste primeiro volume – equivalentes aos tomos #1 e #2 da edição original japonesa, já que a editora Pipoca & Nanquim lança o mangá em formato 2 em 1 –, a grande estrela é Miyo, como não poderia deixar de ser.

Ao longo das quase 400 páginas, passamos a enxergar aquele mundo com os olhos de Miyo. A progressão da história é acompanhada por uma espécie de processo de maturação da garota, que sequer é alfabetizada (assim como a maior parte da população naquele período, não esqueçamos).

Sua entrada na loja de Momotoshi é como o início da busca por um lugar no mundo. Até começar a trabalhar na Vinght, Miyo não tinha qualquer sentimento de pertencimento, mesmo em relação ao ambiente familiar. A loja, pela capacidade de aglutinar pessoas tão diversas, age em favor da formação da jovem. É o primeiro momento da vida em que a garota se sente relevante, para os outros e para si.

Aspecto curioso é o modo como o dom da protagonista é colocado na narrativa. Apesar de provocar o espanto das demais personagens da trama, a importância do poder de Miyo não se sobrepõe à vida comum, ou seja, não abre espaço para a fantasia. Trata-se, na verdade, de uma habilidade que ajuda a garota na compreensão da realidade que a cerca.

Mas o maior atrativo da história pode ser um elemento mais geral, presente durante toda a obra e em função do qual Miyo é colocada como uma das agentes. Falo da formalização estética de um momento importante da história japonesa: o processo de influxo e intercâmbio cultural entre Japão e Europa (de forma colonialista).

Este processo se intensificou a partir da segunda metade do século XIX, não apenas no Japão, mas em outros países da chamada periferia do capitalismo. O final do oitocentos é, para os países à margem do centro, o momento chave no que diz respeito à entrada no circuito do capital.

Não é à toa que temos, em 1861, a emancipação dos servos da gleba, na Rússia, e, em 1888, a abolição da escravidão no Brasil. A substituição do trabalho forçado pelo trabalho livre era uma demanda econômica (e não ética!) real da burguesia liberal – que se consolidava depois dos acontecimentos do XVIII, na França e na Inglaterra – para  universalizar o novo modo de produção (para uma exposição aprofundada sobre o tema recomenda-se a leitura de Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr., As ideias fora do lugar, de Roberto Schwarz, e a coletânea das Eras, de Eric Hobsbawm).

Imagem: Trecho do mangá.
Foto: Lucas Nascimento.

De volta a Nix, é mais ou menos este o cenário da narrativa: um movimento generalizado de ocidentalização dos países periféricos. E todos os personagens atuam de modo significativo, no mangá, para dar todos os matizes do que foi esse movimento em contexto nipônico.

Momotoshi é o responsável, por assim dizer, por promover a transposição dos signos da moda europeia para o contexto japonês, através da importação dos objetos que vende em sua loja. O capítulo 6 ilustra bem a questão, quando Momo mostra para a comunidade local as novidades tecnológicas do ocidente, através de um projetor.

Kei Ohura, uma senhora que possui papel importante na história de Momo (o que vai se revelando já no primeiro volume), destaca um outro movimento relevante: a exportação do chá para o velho mundo, a via oposta na relação Japão-Europa. É a ela que Momotoshi irá recorrer para dar início ao seu projeto de exportação da arte japonesa, algo que começa a ser desenvolvido já no primeiro volume.

E Miyo não passa ao largo desse processo todo. Em linhas gerais, a garota aparece quase que como uma alegoria do lugar japonês naquela relação. É como se ela fosse o próprio Japão nesse processo de assimilação da moda europeia.

Na página 89, há um dos principais trechos. Momo presenteia Miyo com um par de meias – substituto para o velho tabi – e a resposta da protagonista traduz não apenas a sua condição, mas a do país: “Tem tanta coisa neste mundo… que eu ainda não conheço…!”

E há outras tantas cenas que reafirmam a discussão sobre o influxo europeu que incidiu sobre o Japão naquele período. O mais interessante é que, apesar do tom predominantemente positivo das relações que se dão entre as personagens e as novidades do ocidente, a reflexão sobre os prejuízos da modernização é algo manifesto. Exemplo claro é o episódio envolvendo a Dona Haru, uma costureira idosa considerada expert na manufatura de roupas, mas que não consegue se habituar à máquina de costura (capítulo 5).

Imagem: Outro trecho do mangá.
Foto: Lucas Nascimento.

Um dos momentos mais altos do volume é justamente quando se faz presente uma crítica um tanto perspicaz a respeito da impossibilidade do artesanato no modo de vida que viria a vigorar. Quem expressa bem este conflito é o avô de Miyo, no capítulo 10, numa cena que poderia servir para ilustrar algumas teses de Walter Benjamin.

Nas páginas 250-251, precisamente, o artesão expõe o problema: um modo de produção que prima pelo aumento da capacidade produtiva pura e simplesmente (isto é, o capitalismo) é incompatível com a realização plena da arte, visto que nesta nova forma de vida o tempo deve ser administrado de maneira que se possa produzir o máximo num mínimo de tempo.

Em suma, o primeiro volume de A Lanterna de Nix apresenta uma grande quantidade de acertos. Um diferencial em relação a outras obras com apelo histórico é a autonomia da linguagem e, por assim dizer, da trama construída. A título de comparação, o mangá de Kan Takahama se distingue de um Satsuma Gishiden pelo modo como aquele é capaz de valer-se dos elementos históricos da realidade material para contar a sua própria história, enquanto a obra de Hiroshi Hirata lança mão da linguagem mangá para contar fatos da História.

A diferença é grande, no propósito e na realização. Digo tranquilamente que A Lanterna de Nix consegue cativar mais facilmente perfis distintos de leitores, enquanto Satsuma Gishiden pode não ser palatável para quem gosta de histórias lineares, com estrutura narrativa contínua. Em Nix, o leitor estará diante do que promete ser uma ótima obra de ficção, com o benefício de poder tomar conhecimento de um episódio fundamental da formação do Japão moderno.

A quem se interessa pelos comentários acerca da edição: são poucas as ressalvas a serem feitas sobre o material da Pipoca & Nanquim. Aponto apenas uma dificuldade na leitura do material extra que fecha cada capítulo, cuja tipografia é realmente desafiadora para um leitor míope e com alto grau de astigmatismo.

No mais, o mangá tem qualidade excelente. As capas estão belíssimas, bem como o trabalho de edição no geral. A tradução ficou a cargo de Drik Sada, que dispensa comentários. O papel, que parece ser o pólen bold utilizado nas demais obras da editora, faz jus ao traço de Takahama e o tom creme cai muito bem com o sombreado que caracteriza a sua arte.

Por fim, confesso que não conhecia a obra de Kan Takahama, apesar de já conhecê-la de nome. É, sem dúvidas, uma das maiores descobertas feitas nos últimos anos e que certamente me fará ir atrás de outros trabalhos da autora. Espero ansioso pelos próximos volumes de Nix.

Confira mais imagens da edição:


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Ficha Técnica

Imagem: Capa de 'A Lanterna de Nix'.
Divulgação: Pipoca & Nanquim.

A Lanterna de Nix #1
Kan Takahama
R$ 69,90

Editora Pipoca & Nanquim

Coleção em 3 volumes

Capa cartão (com sobrecapa)
Formato: 22 x 15.8 x 4 cm
Páginas: 400 em papel pólen

Licenciante: Leed

Tradução: Drik Sada
Preparação de Texto: Gabriela Yuki Kato
Revisão: Luciane Yasawa
Diagramação: Gustavo Figueiredo
Edição: Bruno Zago e Gabriela Yuki Kato
Assistente editorial: Rodrigo Guerrino
Logotipo: Guilherme Barata
Capa: Bruno Zago e Guilherme Barata


Essa resenha foi feita com base na edição de A Lanterna de Nix #1 cedida como material de divulgação para a imprensa pela editora Pipoca & Nanquim.


O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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