Imagem: Foto de mão segurando o segundo volume um de 'As Crônicas da Era do Gelo', edição Pipoca & Nanquim. Enquadramento de resenha do JBox.

Crítica | As Crônicas da Era do Gelo | Volume 02 (Pipoca & Nanquim)

O segundo volume de ‘As Crônicas da Era do Gelo’ leva a história de Takeru prum lado confuso de acompanhar, mas que ainda vale pelos desenhos impressionantes do Jiro Taniguchi.

Já assistiu Heróis de Ressaca? Esse é um filme divertidíssimo do diretor Edgar Wright, lançado em 2013. Nele, assistimos à história de um grupo de caras, já em suas vidas adultas, tentando cumprir um desafio adolescente de passar em todos os bares de um guia numa só noite. Contudo, do meio pro fim, começa uma espécie de apocalipse comandado por robôs e tudo se torna uma confusão inesperada.

É interessante quando histórias tomam rumos diametralmente diferentes do esperável daquilo desenvolvido no início. Claro, desde que essa virada de argumento resulte em um desfecho tão ou mais interessante de acompanhar quanto o anterior. Infelizmente, esse não é o caso da continuação bacana, mas um pouco confusa, de As Crônicas da Era do Gelo, mangá do autor Jiro Taniguchi, originalmente lançado em 1988, cujo segundo volume é publicado por aqui pela editora Pipoca e Nanquim.

Lembra de As Crônicas da Era no Gelo, certo? Falei do primeiro volume dele em julho (leia aqui). Essa é uma obra bem interessante a entrar em catálogo no Brasil. Nosso meio editorial celebra bastante o Jiro Taniguchi. Num intervalo de poucos anos, diferentes títulos seus foram publicados por diferentes editoras: O Homem que Passeia e O Gourmet Solitário pela Devir, O Livro do Vento pela Panini e Guardiões do Louvre pela própria Pipoca e Nanquim (que anunciou também Um Bairro Distante para 2022).

Esses gibis compartilham de um estilo narrativo mais contemplativo, introspectivo, onde a importância está no cotidiano dos personagens. Já As Crônicas da Era no Gelo apresenta outra faceta do mangaká. É uma ficção-científica política de antecipação que bebe da influência de Júlio Verne (Viagem ao Centro da Terra, Vinte Mil Léguas Submarinas) para imaginar um futuro terrível onde a humanidade vive numa nova era glacial.

Ele foca a narrativa num paralelo “micro X macro”. No micro, temos o jovem Takeru, um garoto-problema, filho bastardo de um engravatado poderoso, que vive em uma instalação mineradora isolada no meio do ártico para evitar constrangimentos sociais ao seu pai. Após eventos desastrosos envolvendo a chegada precoce do inverno, um motim interno e um acidente que tira a vida do chefão daquele local, o moleque é obrigado a tomar o bastão de comando da instalação, mesmo sem experiência nenhuma para isso.

Então, observamos o crescimento de Takeru como pessoa conforme são colocados obstáculos em seu caminho. Concomitantemente, observamos os perigos daquele mundo congelado, naturais, sociais, folclóricos, religiosos, todos numa escala gigantesca, que empurram as vidas dos personagens quase ao limiar do fatal. Até que, ao fim do primeiro volume, o micro e o macro se encontram e Takeru descobre ser mais importante do que imaginava a tudo o que está acontecendo naquele momento.

Tal gancho adiciona à narrativa uma possibilidade de caminho fantasioso que, como em Heróis da Ressaca, poderia resultar em consequências totalmente diferentes das esperáveis até então dentro da história em formação. Essa mudança de rumos até ocorre, mas não exatamente por tal plot twist. E é aí que o angu começa a desandar.

Imagem: Páina dupla com paisagem e balão "Está dizendo que é o fim desta era do gelo?!".
Reprodução: Pipoca & Nanquim. | Foto: Igor.

Um tempo após Takeru e os demais personagens tomarem conhecimento das lendas o envolvendo, é mostrado que o que eles imaginavam que era um inverno antecipado, na verdade, era só o prelúdio de algo bem maior: o fim da era glacial.

O pico de frio dá lugar ao desgelo. Num espaço de tempo bem curto, cidades antes escondidas pela neve são redescobertas como ruínas, novas espécies animais surgem e a Terra é tomada por florestas vivas colossais sencientes móveis que desejam destruir toda tecnologia humana.

Com essas novas ameaças, os personagens rumam em direção à capital humana em busca de respostas e chances de sobrevivência. Nessa capital, o grande computador central que era utilizado durante a era do gelo se desperta como um deus (em sua concepção própria) e decide ele mesmo dar vida a uma nova humanidade, “evoluída”, intitulada “adolf”, sem sentimentos, que deverá exterminar a antiga humanidade e a natureza pensante para habitar soberana aquele novo planeta.

A alegoria climática sobre as consequências das evoluções tecnológicas contra o que é natural é interessante. O Jiro Taniguchi representa isso, literalmente, como duas monstruosidades, um tanto lovecraftianas, um tiquinho kaijus, o que é bem legal de acompanhar através de seus desenhos absurdamente detalhados, que tomam grandes espaços nas páginas. A escalada de perigo que os personagens enfrentam também é bacana, pois quanto mais capítulos passam, maior a sensação de que eles não têm muita chance no que há por vir.

Só que a trama toda vai para um lugar tão megalomaníaco no macro que, nesse meio tempo, o roteiro retira quase toda a importância do micro. Takeru estaciona em seu crescimento narrativo. O lado místico/folclórico revelado sobre ele quase não é utilizado no desenvolvimento desse novo cenário. De modo que, quando o garoto surge como um “salvador” ao fim, fica difícil acreditar que ele seria capaz de qualquer coisa.

Imagem: Monstro coberto de cipós.
Reprodução: Pipoca &; Nanquim. | Foto: Igor.

É esquisito ver, por exemplo, aquela trupe de crianças sendo inseridas na história, mas não fazendo tanta diferença para ela no fim a não ser o uso da nave. Assim como os personagens da capital que lidam com o computador central, que praticamente não têm utilidade narrativa a não ser apresentar o que rola na capital.

E como os acontecimentos crescem numa escala muito grande, com tanta coisa acontecendo em tão pouco espaço de tempo, o final soa abrupto, como o fim de uma cena e não de um mangá inteiro.

Enquanto o primeiro tomo de As Crônicas da Era do Gelo traz uma história ligeiramente simples, mas contada com elegância, já que o Jiro Taniguchi domina a narrativa gráfica como poucos e enche nossos olhos com desenhos magníficos que elevam essa simplicidade ao luxo, no segundo tomo essa sutileza se perde um pouco. Bastante coisa acontece, pouco é aprofundado e muito do desenvolvimento de capítulos anteriores é deixado de lado.

Imagem: A megalópole Abyss.
Reprodução: Pipoca & Nanquim. | Foto: Igor.

Talvez isso seja reflexo do período de publicação. Os capítulos que compõem o primeiro volume do gibi foram publicados mensalmente, sem interrupção, entre março de 1987 e janeiro de 1988 na revista japonesa Comic Afternoon.

Já os que compõem o segundo volume saíram espaçadamente, entre os anos de 1988 e 1991, em outra revista, a Morning. No posfácio presente nessa edição nacional da Pipoca & Nanquim, o autor explica que já lhe havia sido definido que seriam apenas duas edições e, por conta disso, ele não pode desenvolver todas as ideias que tinha à época.

Isso de lado, a continuação do mangá é interessante pelo quão incrível é o Jiro Taniguchi como desenhista. Seus cenários imensos e ultradetalhados são de cair o queixo, as arquiteturas imaginadas por ele, os visuais dos personagens, as naves com aspecto futurista desgastado, as criaturas monstruosas. Calha de ser um sketchbook sensacional. Uma pena a história nele não amarrar os cadarços do que vemos na primeira edição.

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Essa resenha foi feita com base numa cópia do segundo volume de As Crônicas da Era do Gelo enviada pela editora Pipoca e Nanquim como material de divulgação para a imprensa.


O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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