Imagem: Capa de revista de 'Kamen Rider' e imagem de gado.

‘Kamen Rider’ e a carapuça brasileira | De Olho no Mercado #002

Dificuldade de interpretação acaba conferindo contemporaneidade à obra de Shotaro Ishinomori.

A coluna desta quinzena planejava tratar sobre outro assunto, mas acabou sendo arrebatada por um episódio um tanto curioso que tomou conta da “otakusfera tuiteira” de ontem pra hoje.

Um perfil de Twitter dedicado à cobertura de notícias de tokusatsu decidiu manifestar insatisfação acerca de um trecho da edição brasileira do mangá de Kamen Rider, publicado no Brasil desde agosto pela NewPOP (confira a nossa crítica dos volumes 1 e 2).

Na passagem citada, uma personagem dá um sermão (daqueles que estamos habituados a ver em quadrinhos japoneses) em seu interlocutor e faz referência ao governo que faz parte do universo narrativo da série – que, figurativamente, se trata de um governo japonês.

Confira na imagem abaixo:

Imagem: Tweet com comparação da tradução brasileira falando do "atual governo".
Reprodução: Kyoudai Express (Flavio Doria e Silvio Doria), via Twitter.

O uso de “atual governo” no texto em português, referindo-se claramente a uma instância narrativa presente na obra de Shotaro Ishinomori – isto é, algo do domínio da representação, e não de uma instância presente na realidade material –, foi o motivo da queixa.

Mais instigante é o salto interpretativo dado pelo perfil e por alguns de seus seguidores: segundo estes, o “atual governo” foi inserido com fim ideológico para que o leitor remeta ao (prepare-se!) atual governo do Brasil.

Isso mesmo. Uma construção banal como essa, e que literalmente não possui qualquer relação semântica com algo objetivo (trata-se apenas de um referencial, do qual se deve tomar como base o contexto em que está localizado – neste caso, o contexto narratorial de Kamen Rider), foi interpretada como uma espécie de afronta, ou “tentativa de lacre” com relação ao contexto político brasileiro de 2021. O mangá foi publicado em 1971, no Japão.

De acordo com colegas com domínio de língua japonesa, não há qualquer alteração em relação ao sentido proposto pelo texto original. O que ocorre, na verdade, é uma operação de síntese realizada pelo tradutor para que a frase saia natural no português (observe como, no original, a repetição de “governo” parece soar estranho), além de ter relação com a preocupação de deixar o texto bem enquadrado no balão, algo que poderia ser prejudicado com um período maior.

Aliás, faço ainda um parêntese breve de que há um erro gramatical na tradução, que ignora a necessidade do emprego da preposição “com” na regência do verbo “enfurecer”, além do uso do pronome relativo “quem” invés do “que”. A forma correta seria portanto “Se tem alguém com quem você deve se enfurecer”.

E o que não podia ficar pior, obviamente, ficou. A discussão seguiu e, mesmo depois de uma resposta da editora, que disse não haver qualquer intenção política no uso do termo, outro trecho do mesmo mangá (agora, do volume 1) foi trazido à tona para novamente colocar em dúvida o trabalho do tradutor.

A bola da vez foi o uso de “gado”, presente na tradução em português assim como no texto original (confira abaixo).

Imagem: Tweet de perfil comparando uma tradução americana de fãs e a brasileira, que contém a frase "(...) pretendem tratar alguns como mero gado?! Eu não vou fazer parte disso!!".
Reprodução: Kyoudai Express (Flavio Doria e Silvio Doria), via Twitter.

O trecho com o termo “gado” é “sore wo kachiku no you ni shihai suru nante—” (それを家畜のように支配するなんてー). “Kachiku” (家畜) significa “gado”, “animal domesticado (para fins pecuários)”. A tradução desse balão seria algo como “Dominar [as pessoas] como se fossem gado?! Não vou participar disso!!”.  | Reprodução: Kodansha.
É claro que tudo ficou ainda mais risível. De fato, nos últimos anos, o termo “gado” passou a ser identificado com grupos de um certo espectro político. No entanto a palavra sempre foi utilizada com outra conotação mais genérica: uma metáfora para se referir a um grupo de pessoas que, como gado, são dominadas ou se deixam dominar por uma autoridade, uma doutrina etc. No caso do mangá, trata-se claramente desta acepção mais ampla e conhecida.

Um texto como esse, com tantas obviedades que corre o risco de parecer pedantismo, era algo inimaginável há uns anos atrás. Equipara-se, talvez, a necessidade de se explicar a fórmula da água, o formato da Terra ou a eficácia de vacinas. Mas os absurdos estão cada vez mais presentes na nossa realidade, que muitas vezes põe no chinelo a mente criativa de um Junji Ito ou de um Daniil Kharms.

O curioso de todo esse caso não reside no fato de que as queixas não fazem o menor sentido. Na verdade, chama a atenção certa ação do subconsciente desses leitores que conseguem, por si mesmos, traçar determinados paralelos ao se verem diante de uma história como a de Kamen Rider, onde há forte crítica a uma organização regida por valores declaradamente nazistas e conhecida  por realizar experimentos em humanos.

Qualquer semelhança é mera coincidência? Talvez fosse necessário esquecer do tradutor e direcionar a pergunta ao criador desse universo ficcional que muito parece dizer sobre as coisas do mundo material, Shotaro Ishinomori, falecido há pouco mais de 23 anos.


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