Imagem: Os protagonistas em pôster de 'Ghost Game' em enquadramento de resenha do JBox.

Resenha | Digimon Ghost Game (Episódios 01-08)

Primeiros episódios de “Digimon Ghost Game” são os mais divertidos da franquia em tempos, brincando com um horror e ficção científica futuristas que funcionam muito bem nesse universo.

Digimon “Dois Pontos”, que terminou recentemente, aparentava ser uma tentativa da Toei Animation de revitalizar a marca: ao mesmo tempo em que produziriam um novo animê utilizando os mesmos personagens dos anos 90, de maneira a familiarizar a molecada japonesa atual com eles para novas possibilidades de merchandising, a galera das antigas, que teve contato com Taichi, Agumon e companhia na infância, poderia se sentir representada.

No entanto, quando executaram a série, esqueceram elementos básicos que tornam um animê (ou qualquer narrativa) aceitável nesse caminho, o que resultou num produto que não agradou nem à audiência, nem à crítica. Felizmente, no novo animê da franquia, esses problemas, de início, parecem ter sido superados.

Digimon Ghost Game é a nona série animada de Digimon. A direção é dividida entre Mitsuka Masato (que também comandou o Dois Pontos) e Chioka Masatoshi (que já esteve envolvido em diferentes animês da Toei, sendo mais conhecido pelos primeiros 46 episódios de Dragon Ball Super). Já o roteiro é feito por Sogo Masashi (creditado em vários episódios de Fairy Tail).

Na história, num Japão futurista onde a tecnologia já é bem mais avançada e pessoas convivem diariamente com hologramas, uma série de ataques envolvendo fantasmas virtuais tem ocorrido, levantando comentários e suspeitas em redes sociais. Paralelo a isso, o menino Hiro Amanokawa, um estudante do ensino fundamental, descobre que seu pai, um cientista desaparecido, foi parar num lugar chamado Digimundo.

De lá, o velho mandou de presente pro moleque um aparelho intitulado digivice, o qual lhe permite enxergar e interagir com digimons, monstrinhos digitais que têm conseguido atravessar a barreira do Digimundo e estão sendo confundidos com hologramas fantasmas na Terra. Hiro, então, se alia a Gammamon, digimon enviado pelo seu pai, e a outras crianças e seus próprios digimons para lidar com toda essa situação, que pouco a pouco parece evoluir de ataques esporádicos isolados para uma trama bem maior entre os dois mundos.

Imagem: Um personagem com cara de abóbora.
…bu! | Reprodução/Toei Animation

Ghost Game já de início se mostra uma pedida bem mais interessante que o animê anterior da franquia. Ao assistir aos oito primeiros episódios, é possível perceber que há uma premissa bacana, um norte que a história pode seguir e que ocorre uma preocupação em fazer com que cada episódio seja recheado de elementos de puro entretenimento – coisa que todo bom animê infantil deve apresentar.

Percebo nele duas referências bem fortes de outros dois desenhos para a molecada: Digimon Tamers, da própria franquia, e GeGeGe no Kitaro, também da Toei Animation. No primeiro, porque há semelhanças na climatização, onde os digimons vêm do Digimundo à Terra, ocorrendo um paralelo entre suas aparições e o misticismo humano, e na paciência em desenvolver a história, que foca mais em trabalhar as personalidades das crianças e só então digievoluir os digimons quando realmente ocorrem mudanças. No segundo, pela estrutura “história de horror e mistério para crianças” dos episódios, que lá eram com yo-kais e aqui são com digimons.

E a mistura dessas referências com o universo construído para Ghost Game torna esse um dos animês mais interessantes dessa temporada. O Digimon Adventure lá no final dos anos 90, onde nossa interação com os meios digitais ainda eram bem limitadas, aproveitava essa falta de familiaridade para nos impressionar com a fantasia de um universo paralelo ao nosso feito com esses dados que pouco dominávamos. Conseguir evocar isso hoje em dia, em que uma parcela bem maior da população sequer traça limites entre o offline e o online, é um tiquinho mais difícil de convencer.

O que o argumento faz aqui é jogar a trama para o futuro, onde as tecnologias estão ainda mais desenvolvidas e as pessoas estão tão habituadas a isso que, inclusive, convivem com “digimons” no dia a dia: os hologramas que circulam livremente, têm imagem e som nítidos e são úteis ao todo.

Então, há a especulação: e se esse lado virtual que não é mais tão visto como virtual do mundo começasse a dar errado, como seria? E aqui entram os digimons (os de verdade), que começam a ultrapassar a barreira dimensional que separa a Terra do Digimundo e adicionam um elemento sobrenatural à equação.

Imagem: holograma de digimon.
Reprodução/Toei Animation

Aí entra uma boa sacada que o roteiro tem nesse começo, pois para ilustrar o virtual, tão presente no dia a dia dos personagens, se tornando fantasmagórico, são utilizados digimons e ações que remetem a clichês bacanas do terror.

O primeiro episódio é com um digimon palhaço que rouba a juventude daqueles que ele encontra. O segundo, com um digimon múmia que se esconde na ala egípcia de um museu e prende as vítimas em suas bandagens. E segue com um que amaldiçoa coisas que aparecem em fotos, com um que prende as crianças em cabeças de abóbora no dia das bruxas, criaturas gigantes que remetem a kaijus, uma sereia grega no karaokê, pássaros hipnotizados por um corvo gigante, uma “procissão” com a própria morte e por aí vai.

Falando assim, o animê parece bem mais pesado do que é, mas a real é que os episódios e as resoluções são bem leves, bem-humorados e divertidos. Como o roteiro opta por desenvolver os protagonistas com mais empenho em vez de já liberar toda sorte de digievoluções logo de cara, acontece de a maioria das resoluções das tramas virem de raciocínios dos personagens, até de conversas sérias com os “digifantasmas”, não de grandes lutas. O que é uma escolha narrativa bem legal, ainda mais quando comparamos com o animê anterior, onde basicamente tudo girava em torno de batalhas intermináveis.

Somem também ao conjunto o fato de a animação ser bem estilosa e fluida, com cores legais, designs de personagens bem caprichados, o elenco ser enxuto e os três protagonistas serem recheados de charme, carisma e traços únicos de personalidade que diferenciam uns dos outros (o Hiro é mais estoico no início, mas já está crescendo mais em reações, o Gammamon é mais crianção e fofo, o Kiyoshirou super preocupado, a Jellymon extremamente tsundere, a Ruli mais debochada, porém bastante responsável, o Angoramon funciona como um sábio, etc.), e então temos um animê de Digimon muito divertido de assistir.

Digimon Ghost Game está numa boa fase para iniciantes, sejam fãs da franquia ou não. Os episódios ainda são mais fechados dentro deles próprios, o foco ainda é no carisma dos personagens e nos paralelos que podemos traçar com a nossa realidade.

É bem provável que, em breve, a série adquira os elementos aventurescos de outras temporadas, pois é quase certo que, em algum momento, as crianças irão encontrar o pai do Hiro no Digimundo. Enquanto isso não chega, temos aqui um animê para espectadores casuais muito bacana de acompanhar semanalmente.


Digimon Ghost Game é exibido simultaneamente do Japão com legendas pela Crunchyroll, e a plataforma concede ao JBox um acesso de imprensa.


O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.