Imagem: Personagens de Kani Kousen.

‘Kanikosen’ é o tema do Clube de Leitura da Japan House em março

Clássico da literatura proletária japonesa será discutido em evento gratuito que ocorre em 31 de março, a partir das 19h.

Mensalmente, a Japan House São Paulo (JHSP) promove um encontro do Clube de Leitura em parceria com a revista Quatro Cinco Um. A edição de março, marcada para o dia 31 (é sempre na última quinta-feira do mês), trará Kanikosen – o livro original e a adaptação em mangá – como temas.

Com mediação de Natasha Barzaghi Geenen, diretora cultura da JHSP, e Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um, todos os meses há um convidado, que pode ser um autor, um tradutor, editor, crítico, etc. Para participar, é necessário se inscrever aqui (a inscrição é gratuita) – o encontro é online e começa às 19h, durando em torno de 1h30min.

  • Quando?: Quinta, dia 31 de março, às 19h;
  • Como?: Se inscreva pelo link aqui;
  • Quanto tempo dura?: aproximadamente 90 minutos.

Kanikosen é considerado pela crítica como a principal referência da literatura proletária no Japão, acompanhanso o dia-a-dia de homens que trabalham sob condições extremamente precárias a bordo de um navio-fábrica designado para a pesca de caranguejos.

Não bastasse as dificuldades impostas pela região em que navegam, no perigoso mar de Okhtotsk, situado entre o Japão e a Rússia, esses trabalhadores ainda tinham de aguentar os desmandos de um patrão exageradamente rude e a insalubridade do navio Hakuko-Maru, que agravam a exploração exercida sobre esses homens.

O livro é de autoria de Takiji Kobayashi e a adaptação em quadrinhos é a versão de Go Fujio (há outras no Japão). O material original foi publicado no Brasil pela editora Aetia, já o mangá veio pela Veneta – temos uma crítica deste último aqui.

Além do Clube de Leituras, a JHSP também faz um Ciclo de Mangás.


Fonte: JHSP


A Literatura Proletária Japonesa

Surgida na chamada Era Taisho (1912-1926), a literatura proletária japonesa é resultado da influência direta dos eventos que sucederam a Revolução Russa de 1917 — responsável por levar ao resto do mundo ares de agitação da classe trabalhadora.

Composta majoritariamente por intelectuais de esquerda, o movimento tinha por objetivo promover reformas estruturais na sociedade japonesa, valendo-se da literatura como instrumento de crítica ao estado de coisas vigente à época.

Imagem: Takiji Kobayashi com bebida na mão.
O escritor Takiji Kobayashi. | Reprodução.

Nesse contexto situa-se Takiji Kobayashi, nascido em 1903, em Odate, na província de Akita. Kobayashi viveu apenas 30 anos, tendo sido torturado e morto pela polícia japonesa após negar repassar informações sobre o Partido Comunista do Japão (fundado em 1922), do qual fazia parte.

Ao longo da curta vida, publicou: O Navio-fábrica CaranguejeiroO Arrendador Ausente (Fuzai Jinushi, 1930), A Célula da Fábrica (Kojo Saibo, 1930), O Organizador (Orugu, 1931), Yasuko (1931), Homens em Transição (Tenkeiki no Hitobito, 1931), A Aldeia Numajiri (Numajiri Mura, 1932), Vida de Um Partidário (To Seikatsusha, 1932) e, por fim, Homens do Distrito (Chiku no Hitobito, 1933).

Seu Kanikosen foi censurado assim que colocado em circulação, em 1929, por ser encarado pelo regime como subversivo, o que não o impediu de reverberar por toda uma massa de entusiastas do movimento (só voltaria a circular oficialmente após o final da guerra, em 1945). Em carta enviada para o seu “mentor intelectual”, o crítico marxista Kurahara Korehito, Takiji define sua obra:

Esta obra trata sobre a forma singular de trabalho que é realizada em barcos que processam caranguejo, mas não significa que realce uma descrição exaustiva de como é uma embarcação dessa índole. Na realidade, trato de demostrar (a) que é um clássico exemplo de exploração que se realiza nas colônias e nos novos territórios japoneses; (b) que, quando se sai das zonas industriais de Tóquio e Osaka se vê que as condições atuais de oitenta por cento dos trabalhadores em todo Japão são exatamente iguais às quais existem nos navios- fábricas, e (c) que é um método apropriado para exemplificar com clareza — quase que de forma transparente — o sistema entrelaçado da rede internacional formada por grupos militares e mercantis. Neste romance abordei o problema da classe trabalhadora não organizada. (A carta se encontra reproduzida na Antologia de Kobayashi Takiji, inédito no Brasil, e o fragmento foi traduzido por André Felipe de Sousa Almeida, presente em sua dissertação de mestrado em Literatura Japonesa pela USP. Grifos nossos.)

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