Imagem: Robô de Donbrothers em enquadramento da coluna 152 do Daileon.

O Super Sentai mudou nas últimas décadas? | Coluna do Daileon #152

Um enredo ser infantil não é necessariamente ruim. Depende muito da proposta e do desenvolvimento de cada roteiro.

Outro dia o Larc, gerente do site JBox, me sugeriu o seguinte tema para a coluna: “Por que o tokusatsu de hoje é diferente de antigamente?”. Pegando o gancho de Donbrothers, achei que a franquia Super Sentai seria um bom exemplo para responder essa pergunta. Afinal, a nova série tem uma pegada bem diferente de sua antecessora, Zenkaiger. Ambas são bem diferentes dos clássicos da era Showa e Heisei.

Vamos primeiro tentar destrinchar o gênero como um todo. É bem verdade que a grande maioria das produções de tokusatsu é destinada para o público infantil. E isso acontece desde a era de ouro dos filmes kaiju. Godzilla chamou atenção do público em geral por fazer uma metáfora com os efeitos da Segunda Guerra Mundial. Os filmes do gênero tiveram uma pegada mais fantasiosa com o tempo, o que cativou ainda mais o público infantil da época.

Não é a toa que, já na década de 1960, a fórmula do cinema se estendeu para a TV e a criançada de outrora assistia séries como UltramanUltra SevenRobô GiganteVingadores do Espaço, etc. Algumas tiveram lá seus momentos engraçados, bobos, galhofa, mas nada impedia que em algum momento houvesse momentos mais sérios/sisudos/carrancudos. Todas seguindo suas propostas, influências, contextos da época e coisas do tipo. E isso não é muito diferente das séries tokusatsu dos anos 80 e 90 que passaram no Brasil, na época da saudosa Rede Manchete.

Imagem: Os rangers de Jetman.
Roteirizado por Toshiki Inoue em 1991, Jetman é um cult da franquia Super Sentai | Foto: Divulgação/Toei

Falando nisso, certamente você já deve ter visto pela tokunet afora alguns fãs afirmando que séries como SharivanMetalderKamen Rider BlackLiveman, etc eram mais “adultas”. Confesso que eu também era um dos tais que afirmavam isso, há uns 10 anos. É óbvio que esses clássicos podem atrair algum adulto na casa dos 20, 30 anos. Mas não podemos nos esquecer que os mesmos sempre tiveram objetivos comerciais voltados para o público infantil (entenda: a missão era vender brinquedos desde sempre), independentemente do teor de cada trama.

O mesmo também vale para Jetman, que cativou um público teen e adulto e nunca deixou o público infantil de lado.

Dito isso, eu aproveito o gancho para discordar respeitosamente do sr. Shinichiro Shirakura, o atual chefão da Toei. Ao responder o tradutor brasileiro Charles Kruger sobre a atual faixa etária das séries Super Sentai, ele afirmou o seguinte: “O público alvo de Super Sentai, como sempre foi e nunca mudou, (é de) meninos de 3 a 6 anos. Mas estamos trabalhando para que seja visto por uma faixa etária mais ampla”.

Imagem: Foto de Shinichiro Sakura.
Shirakura, o chefão da Toei | Foto: Divulgação

A fala não está totalmente errada, se considerarmos que Shirakura tem uma visão comercial e bem distinta dos fãs. Vale aqui lembrar que ele recentemente mudou sua visão sobre Kamen Rider fora do Japão quando conversou com fãs que não residem no Japão sobre o potencial da franquia (pois ele contava apenas com as experiências frustradas que a Toei teve com as adaptações Masked Rider e Kamen Rider: O Cavaleiro Dragão).

Pois é. Shirakura precisa de mais dois dedos de prosa com os fãs do lado de cá – ou com os japoneses mesmo – para entender que Super Sentai ainda atrai um público (bem) mais velho, apesar de uma ou outra série ser excessivamente infantil.

Não dá pra dizer que a franquia “sempre foi e nunca mudou” de faixa etária, pois já tivemos momentos dramáticos em séries como BiomanChangemanFlashmanJetmanZyuranger, etc. As mesmas também tiveram seus momentos engraçados até. Ah, vale lembrar que algumas séries dos anos 90 foram bem mais infantis e tiveram vilãs um tanto… digamos, apelativas. Mas isso são outros quinhentos.

Donbrothers tem como roteirista o experiente Toshiki Inoue, o mesmo de Jetman. Isso não significa que a nova série será ou venha a ser em algum momento como o clássico de 1991. Pode ser que role alguma ou outra referência, mas, como expectador (e espectador), eu quero que Donbrothers seja uma série inteligente/interessante/relevante e não uma imitação do Esquadrão dos Homens-Pássaro. Elementos de décadas passadas podem até funcionar, mas sem deixar de cativar um público pré-escolar ou mesmo de jovens e adultos.

Imagem: O esquadrão Donbrothers.
Don Momotaro (ao centro), o líder de Donbrothers, no episódio 42 de Zenkaiger – exibido em janeiro deste ano pela TV Asahi | Foto: Divulgação/Toei

Voltando à pergunta do Larc: Por que o tokusatsu de hoje é diferente de antigamente? A resposta não é tão simples e nem tão complexa. O entretenimento mudou para melhor ou para pior, dependendo de cada ponto de vista ou gosto pessoal. No geral, tanto animês e mangás, por exemplo, têm uma pegada diferente das “décadas de ouro”. O mesmo vale para o tokusatsu.

Eu acho meio injusto comparar Kamen Rider Revice com Kamen Rider BlackUltraman Trigger com Ultraman. E até Donbrothers e Zenkaiger com um Gorenger, um Changeman ou um Jetman da vida. Seria o mesmo que comparar Jaspion com National Kid, que são de épocas e contextos diferentes e, portanto, há um abismo enorme entre tais produções.

Aliás, acho boas essas séries citadas, exceto Zenkaiger, por motivos que eu já escrevi em outros textos. O que eu costumo criticar eventualmente é o excesso de infantilização nos enredos, que acaba afastando alguns fãs mais velhos. Foi assim com a série de 2021. Veja bem: um enredo ser infantil não é necessariamente ruim. Depende muito da proposta e do desenvolvimento de cada roteiro. Seja como for, o marketing sempre será a alma do negócio para manter tais produtos no mercado japonês.

Minha curiosidade é saber se Donbrothers será mais lembrado que Zenkaiger daqui a 10, 20 anos. Se a promessa da Toei em “deixar de lado a tradição” seguir uma boa direção, provavelmente sim.

Kamen Rider e Ultraman vão muito bem, obrigado. Só nos resta saber quando Super Sentai vai realmente “crescer”. Tomara que muito em breve.


O texto presente nesta coluna é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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