Imagem: "moça" de cabelo loiro e rapaz de óculos, em enquadramento de resenha.

Crítica | Fantasy Bishoujo Juniku Ojisan to (Fabiniku) | 1ª temporada

A Ilíada otaku: Um casal de “celibatários” invocado pelos deuses para descobrir o que existe de heroico no amor.

Imagem: Moço descobrindo que virou moça.
Reprodução.

Fantasy Bishoujo Juniku Ojisan to ou Life with an Ordinary Guy Who Reincarnated into a Total Fantasy Knockout é uma comédia romântica isekai em 12 episódios.

A série traz a história de como os amigos de infância e colegas de trabalho: Tsukasa Jinguuji, um homem bem apessoado que, por ser motivo de constantes brigas e intrigas entre mulheres encantadas pelo seu semblante, acabou nutrindo uma forte misoginia que o impediu até os 32 anos de ter qualquer tipo de relacionamento amoroso; e Hinata Tachibana, um rapaz enfaticamente descrito como mediano em absolutamente tudo que cresce muito inseguro do seu próprio valor, sem jamais conseguir consolidar o vontade de conseguir uma namorada.

Eles acabam reencarnando num mundo fantástico com elementos medievais e mágicos por uma entidade que se apresenta como a deusa do amor e da beleza. Ela os inculca com o dever de derrotar o “Lorde Demônio”. O detalhe que vai reger o tom da série é que, diferente de Jinguuji, Tachibana surge nesse novo mundo com o corpo que se encaixa em todas as suas preferências de aparência feminina ideal, sendo capaz de seduzir absolutamente qualquer homem com a sua simples presença.

O eixo fundamental do animê é o humor extraído na constituição da pessoa em oposição ao mundo e vice-versa, brincando com a dupla transitividade não esperada que, por perturbar o mais íntimo de ambos personagens (a atração mútua que a princípio era impensável), ao invés de os tornar completamente libertos daquilo que lhes é/foi imposto pelo mundo anterior, os coloca em constante balanço entre passado e presente.

Na mesma medida em que, por justamente estarem sendo sempre lembrados dessas duas condições de existência, conseguem perceber que mesmo se lhes fosse possível simplesmente esquecer o passado para tornar o presente a única real existência sem história, só estariam se iludindo, pois se assim fosse possível toda aquela história prévia seria ignorada em prol de um romance novo e livre entre os dois sem a necessidade da mudança brusca “meramente visual”.

Existe um jogo dialético muito forte, mas apresentado de uma forma tão sutil e leve, sem a necessidade de longos diálogos ou emoções hiperracionalizadas, que faz possível tornar piada o deslocamento e a evidenciação de uma série de situações impossíveis de serem pensadas em outra situação que não essa. O estranhamento, na mesma medida em que gera transtorno, faz rir, pois acusa a fragilidade do que preocupa tanto.

Imagem: Vários personagens.
Reprodução.

A reconstituição das coisas latentes entre os personagens em meio ao caos (de uma série de pessoas, paisagens, costumes e instituições novas) e a ordem (da consciẽncia prévia de certos padrões sobre fantasia, como o ambiente gamificado e a nova aparência de Tachibana) criam esse senso de proximidade não apenas com o espectador, mas dos personagens que acabam se envolvendo nesse processo, dando sua opinião original sobre os fenômenos, gerando conflitos e também relações construtivas no sentido mais comum de “agregar elementos”, tanto para os próprios personagens quanto para o animê, dando mais volume ao sistema que vai se desdobrando em cada situação.

São personagens com agência, não apenas objetos passivos que observam a trama se desenrolar. Existe um esforço pela criação da ilusão de consciência e presença. E, de novo, é só a partir da finura na apresentação que é possível uma transição simulando a experiência do convívio, da ignorância para o conhecimento e, consequentemente, a sensação forte de estar cada vez mais presente nos acontecimentos, coisa que vai se multiplicar em dimensão quando existe um certa quebra da inocência colaborativa, de um avançar intempestivo e impensado.

Tachibana e Jinguuji geram atrito nas decisões, discutem e não necessariamente concordam, criando essa clima de errância na permanẽncia (da relação) que não se coloca nem como o amor sobrevivente, que supera qualquer coisa horripilante, e nem como amor perfeito, como dois corações em uníssono, dois formatos que mascaram a mesma relação de submissão extrema de uma das partes.

Há uma proposta de amor que não existe apesar do que acontece de desagradável, mas que também necessariamente acontece por meio das coisas que não são divertidas nas relações entre pessoas.

Imagem: Amigo "negando" flechado do amor.
Reprodução.

A animação tem o papel tímido de auxiliar o humor. Os silêncios, gestos e expressões faciais, tudo gira em torno de criar o ambiente necessário para aquela sensação de estranhamento, e apesar de não propor muitas novidades (se utiliza extensamente de uma certa gramática comum do que é visualmente cômico) é competente na dosagem, tem tantas piadas ruins quanto boas, e as ruins não são tão ruins a ponto de serem idiotas.

A aparência e sex appeal mágico de Tachibana é coisa que vai ser tratada tanto nesse ciclo humorístico visual sobre atração e repressão, quanto pelo pensar nas consequências disso num espectro mais amplo e político, desde a dificuldade de passar despercebido na multidão até a tematização das construções sociais de beleza e idolatria, tanto de ideias quanto de coisas materiais.

O maior triunfo irônico (pela utilização do fetiche lolicon como ponto de partida) é a expressão de desejo pelo outro não com a luxúria/lascívia, mas com o casamento, sendo que o sexo em si só é tematizado explicitamente também em forma piada, como numa situação onde é feita referência a bondage ou quando se descobre que o policial é mulher ou quando ocorre uma dupla quebra de expectativas no templo da deusa do amor e da beleza, etc.

Com certeza não é um animê que evita o tema, mas que pelo menos sempre se mostra consciente disso e vai trabalhando de uma forma metatextual todos essas brincadeiras.

Imagem: Rapaz carregando a personagem que é originalmente um homem e está vestida com poucas roupas.
Reprodução.

Muita coisa fica superficial e esparsa, mas graças a um certo ethos da dúvida e da diversão na apresentação de problemas sociais e filosóficos (sendo gênero, sexualidade e amor os maiores focos), a experiência de assistir se torna, na mesma medida, agradável e estimulante.

Os filmes de Hayao Miyazaki, de uma forma bem diferente, fazem algo nessa ordem também. Pela boa administração das formas, tornam bonito o denso, sem descaracterizar tanto a dificuldade própria daquilo que é denso.

É um conservadorismo profissional perigoso, já que pode tornar palatável qualquer barbaridade – tanto que isso é feito, com maior ou menor competência, em altíssima escala desde as primeiras animações –, mas que acaba sendo uma das formas mais comercialmente viáveis de tratar histórias que não necessariamente são alinhadas a valores estritamente conservadores (o que não quer dizer tanta coisa quando vamos pensar na obra de uma forma mais totalizante, não só no discurso textual mais patente).

Não acredito que exista uma progressão natural entre essa abordagem e uma mais comprometida com uma certa radicalidade artística, por isso, apesar de ser dramaticamente melhor do que muita coisa disponível no catálogo da Crunchyroll, fica com certeza longe de ser um marco divisor de águas ou coisa do tipo.

Onde assistir:


Life with an Ordinary Guy Who Reincarnated into a Total Fantasy Knockout foi exibido pela Crunchyroll com legendas em português de forma simultânea com o calendário japonês, estando ainda disponível no catálogo. A empresa fornece ao JBox um acesso à plataforma.


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O texto presente nessa resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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