Imagem: Cena no laboratório em enquadramento de resenha do JBox.

Crítica | Miss KUROITSU from the Monster Development Department: uma carta de amor debochada ao tokusatsu

Pois é preciso muito amor para debochar tanto.

O universo da cultura pop japonesa engloba diferentes meios de entretenimento. Dentre muitos, há mangás, light novels, visual novels, outros tipos de jogos, tokusatsus e, claro, animês. Vez ou outra, essas diferentes desambiguações se encontram em alguma produção. Não me refiro a adaptações de obras de um formato para outro, como o mangá de Ultraman do Eiichi Shimizu, sim àquelas onde elementos de um meio são transportados para outro de modo que um novo produto surja em homenagem.

No caso de animês que pegam elementos de tokusatsus, há alguns bem interessantes que saíram nos últimos anos. Samurai Flamenco (2013-2014) capturou de maneira elegante o charme de heróis mascarados, enquanto Active Raid (2016) basicamente transpôs as batidas de séries metal heroes para o formato animado. Na atual temporada de primavera, está no ar Love After World Domination, que replica um clichê muito legal: o de um herói de super sentai que vive um amor escondido com a vilã.

E na última temporada de inverno foi ao ar o ótimo Miss KUROITSU from the Monster Development Department, também nessa linha de se apossar de signos de tokusatsus, mas com um ar ainda maior de homenagem em seus detalhes. Com direção de Hisashi Saito e produção do estúdio Quad, o desenho adapta o mangá shounen de comédia escrito por Hiroaki Mizusaki, em publicação na revista Comic Meteor desde 2019, com 4 volumes encadernados até então.

Imagem: Cena do anime.
Projetar monstros é um trabalho de tirar o sono… | Reprodução/Crunchyroll

Na trama, acompanhamos Touka Kuroitsu, uma cientista que trabalha em um laboratório de “desenvolvimento de monstros” duma organização de vilões. Junto de sua equipe, ela projeta e dá vida a novas criaturas que enfrentarão um herói mascarado local. A partir disso, observamos o dia a dia trabalhoso e extremamente burocrático que é colocar um monstro pra jogo, muitas vezes uma tarefa ingrata e com resultados distantes do esperado.

Em paralelo, assistimos também outros núcleos dos bastidores dessa luta, que envolve diretores super poderosos (mas pouco maduros para a tarefa), agencias rivais, ex-heróis, heróis na ativa que lidam com problemas na rotina civil, recrutadores e freelancers que ganham a vida se fantasiando de minions para fazer volume nos combates, e por aí vai.

Miss KUROITSU é outra dessas obras com um selo “quentinho no coração” que outros animês recentes sobre adultos em ambiente de trabalho, como My Senpai Is Annoying (2020) e Wotakoi: O amor é difícil para Otakus (2018), trazem. Não há uma grande crescente na história, seu charme está na estrutura slice of life dos episódios, que encontram graça no dia a dia comum daquele ambiente tão incomum.

Imagem: Cena do anime.
E para onde vão os monstros depois de derrotados? | Reprodução/Crunchyroll

Não é uma crítica, mas como consumidor casual de tokusatsus, tenho a ligeira impressão de que a fanbase mais ferrenha desse tipo de produções, geralmente adultos mais nostálgicos, leva o meio muito mais a sério do que o público alvo real dessas séries, crianças. E o roteiro parece concordar com isso e tirar sarro desses fãs mais acalorados.

Ele brinca com os estereótipos mais comuns do universo tokusatsu. Há camadas de cerimônia em atos que não necessitariam disso, como conseguir a assinatura de vários chefes de departamento para a aprovação de um projeto, ao mesmo tempo em que é retirada qualquer seriedade de coisas que, supostamente, deveriam ser sérias, como das habilidades de heróis mascarados, que são bem mais atrapalhados que o esperável, ou dos futuros dos monstros, que quase sempre acabam em empregos hilários depois de perderem as batalhas (tem um pinto gigante que entrega balões num parque de diversões, por exemplo).

Porém, no fim, Miss KUROITSU é uma carta de amor ao gênero tokusatsu. Existe bastante dedicação tanto do lado dos heróis, quanto dos vilões, para extrair o que de melhor alimentará o microverso de batalhas representado na série. Ele mostra, de modo até comovente, a paixão que cada um ali tem por essa máquina tipicamente japonesa.

Imagem: Cena do anime.
Pose final com uma explosão atrás… | Reprodução/Crunchyroll

E o tokusatsu é um dos frutos da cultura pop mais ligados à veia da cultura japonesa. Muito dele em estética é herdado das formas clássicas de teatro que se popularizaram durante o sakoku, período entre os séculos 17 e 19, em que o Japão se isolou para as culturas e políticas externas. Esse momento na história terminou por pressões militares dos Estados Unidos, a fim de abrir relações comerciais com o país.

Mesmo essas raízes históricas são (livremente) representadas na trama, com os vilões, heróis e demais pessoas que fazem e faziam esse cenário acontecer se unindo contra uma invasão de uma organização estrangeira de vilões. Essa organização é mais metódica, mecânica e “sem coração”, trata os empregados como escravos e literalmente mecaniza a mão de obra, o que retira toda a “alma” dos conflitos. É uma diferença de perspectivas bem divertida de acompanhar.

Miss KUROITSU from the Monster Development Department é excelente. O único porém é que um pedaço bem grande da graça, com as referências e as piadas, se perde caso o espectador não tenha alguns conhecimentos mínimos sobre os elementos mais básicos de tokusatsus. Ainda assim, pode ser uma porta de entrada para esse mundo, que tem tantas ótimas produções recentes e outras que valem o resgate.


Miss KUROITSU from the Monster Development Department é exibido pela Crunchyroll com legendas em português. A empresa fornece ao JBox um acesso à plataforma.


O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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