Imagem: Desmond, Yamato e Nijimi de montagem de artigo com "especial" escrito nas cores do orgulho.

Ver cara e ver coração: como a palavra “kokoro” pode ser usada para demarcar o gênero de alguém

O japonês é uma língua sem flexão de gênero gramatical e, por isso, outros recursos podem ser utilizados para tratar da identidade de gênero de pessoas e personagens.

体は...、でも、心が...

Karada wa…, demo, kokoro ga…

Mais um ano chega a sua metade e com ele atravessamos mais um mês de junho, que, sempre é bom lembrar, é justamente quando comemoramos o Dia do Orgulho LGBT+. Por esse motivo, neste artigo a gente vai conversar um pouquinho sobre um assunto que costuma levar a otakusfera a brigas e discussões sem fim. Os fãs de One Piece que o digam…

Imagem: Yamato em One Piece.
Reprodução: Toei.

Bom, se você é uma pessoa que consome animês e mangás, muito provavelmente você já deve ter se deparado em alguma obra com uma personagem cujo gênero é um tanto dúbio, seja em sua primeira aparição, seja em todo o decorrer da narrativa. Talvez você já tenha até reparado que não tende a ser incomum a presença de personagens um tanto “andróginos” nas produções de cultura pop japonesa.

O fato de a Língua Japonesa ser um idioma sem flexão de gênero gramatical, torna muito mais fácil a omissão proposital ou não do gênero de alguém, ou mesmo a construção de personagens que tenham uma expressão de gênero não especificamente binária.

A ausência de gênero morfológico no japonês torna possível que uma pessoa use tanto expressões vistas como “mais femininas” quanto expressões vistas como “mais masculinas”, bem como maneiras de falar que não têm o que costumamos chamar de “restrição de uso por gênero”.

Não só isso, por não ter gênero gramatical, é muito mais fácil que expressões que em um certo período de tempo são usadas mais por homens sejam, em outro momento, também corriqueiramente utilizadas por mulheres, ou mesmo que haja uma mudança quanto ao grau de respeito designado por uma expressão — como é o caso do pronome pessoal kimi (você) que em seus primeiros usos pronominais era utilizado para se referir às pessoas superiores hierarquicamente e hoje é utilizado para se falar com pessoas de nível inferior (ou igual), tendo um uso bem mais restrito.

Devido a esse aspecto do idioma, a sociedade japonesa acabou se desenvolvendo de uma forma bem mais neutra linguisticamente falando, principalmente se comparada a algumas sociedades americanas e europeias. Tanto, que a famosa discussão de pronomes presente no Brasil, EUA e outros países sequer existe no Japão, pois na Língua Japonesa ela não é necessária.

Imagem: Personagen trans masculino de Hourou Musuko.
Reprodução: AIC.

A chamada comunidade X-Gender — a comunidade não binária do Japão — se utiliza de várias formas diferentes de falar para expressar seu gênero e, por ora, isso parece ser o bastante para dar conta da questão. Essa coisa de ficar especificando e etiquetando tudo é uma tendência muito mais de sociedades construídas a partir de valores europeus e influenciadas por valores estadunidenses — e atenção para o influenciadas —, como a nossa, do que da sociedade japonesa, cuja língua não só tem uma ausência de gênero morfológico, mas também permite um apagamento de sujeito gramatical constante.

Obviamente, todas essas questões não significam que não existam pessoas transgênero ou uma comunidade transgênero no Japão. Assim como em todos os outros lugares do mundo, lá existem pessoas trans binárias e não binárias e é aqui que a nossa conversa começa a ficar mais séria.

Uma vez que não é incomum a presença de personagens com gêneros não definidos em sua primeira aparição ou durante toda a narrativa, recorrentemente também ocorre a “revelação” do gênero dessa personagem.

Imagem: Haku de Naruto.
Reprodução: Pierrot.

Essa “revelação” pode se dar de diversas maneiras diferentes: pode ser uma personagem que tem a expressão de gênero muito mais condizente com o esperado do gênero do oposto do que do gênero real do personagem, de modo que ela parece visualmente muito mais com o gênero oposto, como o Haku de Naruto; ou, pode ser que o gênero dessa personagem cause um plot twist na história, como acontece com a Akito de Fruits Basket, que foi criada como um menino.

Entretanto, nessas situações, essas personagens têm um gênero afirmado por elas ou pelo todo da narrativa e elas apenas têm uma expressão de gênero, por sua vontade ou por fatores externos, diferentes do modelo esperado para um homem ou uma mulher.

Todavia, há um outro caso, quando a “revelação” do gênero não parece ser exatamente clara. Nessas situações é quando começa a haver um debate pelo público sobre qual seria de fato o gênero da personagem e nesses casos, mais de uma vez, o recurso lexical utilizado para falar sobre o gênero da personagem é algo como “体は男性、でも、心が女性” (Karada wa dansei, demo kokoro ga jousei – Eu tenho o corpo de um homem, mas o coração de uma mulher) ou alguma outra expressão parecida com essa, principalmente no que diz respeito à última parte.

Imagem: Okiku em One Piece.
Reprodução: Toei.

É nesse ponto que as coisas podem começar a ficar um pouco mais cinzas. Primeiro, que frases como essa podem ser traduzidas tanto como “sou uma mulher no coração” quanto “tenho o coração de uma mulher” ou “sou uma mulher” a depender de como o tradutor interpreta a cena e o todo da narrativa – de modo que quando você consome uma obra traduzida, tem aí uma intermediação da visão do próprio tradutor.

Além disso, a expressão a princípio parece soar, mesmo no original, um tanto mais sutil. Inclusive, porque ela tem uma carga poética muito mais agradável do que simplesmente dizer “sou um homem/uma mulher”.

Entretanto, existe um elemento muito importante numa frase como essa, que às vezes a gente acaba deixando passar: a palavra (kokoro). Kokoro é frequentemente traduzido como coração, mas o ideograma em si tem um sentido bem mais profundo do que pura e simplesmente “coração”. Só para começar, esse “coração” não é o coração físico, mas é um coração espiritual.

Kokoro faz referência ao coração, à alma, ao espírito, ao ser, à essência de alguém. Desse modo, o kokoro de uma pessoa é a parte mais intrínseca dela, é o Ser dessa pessoa. Portanto, quando alguém diz que o seu kokoro é alguma coisa, essa pessoa está falando que o seu espírito, a sua alma, o seu ser é esse algo.

Como se isso já não bastasse, se você pesquisar sobre transgeneridade na internet em japonês, você vai encontrar explicações sobre pessoas trans binárias da seguinte forma: 「身体の性」は男性・女性でも「心の性」は女性・男性 (“Shintai no sei” wa dansei/josei demo “kokoro no sei” wa josei / dansei – o “corpo” é masculino/feminino, mas o “coração” é feminino/masculino).

Nessa frase, os japoneses usam não só a expressão kokoro no sei para designar o gênero com qual a pessoa trans se identifica — sendo possível perceber como kokoro denomina esse ser/interior/alma/existência intrínseca —, como a expressão também é utilizada em oposição a shintai no sei, na qual a palavra shintai é composta pelo ideograma que significa pessoa e que significa corpo, denominando o corpo físico.

Imagem: Alluka, irmã de Killua.
Reprodução.

A cereja do bolo é o ideograma utilizado para denominar sexo e gênero (que em japonês são palavras homófonas e homógrafas), o que faz com que a frase explique exatamente que são pessoas cujas os corpos físicos são atribuídos a um gênero, mas que em seu âmago elas são de outro.

Considerando todas essas informações, o uso de kokoro ga dansei/josei — e suas possíveis variações — ao falar do gênero de alguma personagem soa muito menos impreciso, criando uma possibilidade muito maior de se afirmar que se trata de uma personagem transgênero.

Obviamente, o uso de uma expressão com kokoro seguido de uma palavra que denomina gênero pode vir a ter outros significados a depender da construção total da frase, da cena, do contexto da obra e do próprio personagem dentro da narrativa. Entretanto, quando todo o resto do entorno aponta para uma representação de alguém que de alguma forma nega o gênero que lhe foi atribuído por causa de seu sexo biológico, a escolha por kokoro não é um eufemismo nem apenas uma forma sutil e poética de passar uma informação, é uma afirmação clara como água.


O texto presente neste artigo é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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