imagem: kamen rider w na edição 161 da coluna do daileon.

‘Kamen Rider W’ foi a reformulação da franquia na era Heisei | Coluna do Daileon #161

Edição especial sobre curiosidades entre a série tokusatsu de 2009 e o animê ‘FUUTO PI’, que servem de norte para os antigos e novos fãs do lendário herói.

Como fã de Kamen Rider W (Double), estou feliz por finalmente assistir ao primeiro episódio de FUUTO PI. Mais feliz ainda por esse animê, baseado no mangá que dá continuidade à série tokusatsu, ser mais um título da franquia Kamen Rider a passar no Brasil, desta vez pela plataforma de streaming Crunchyroll.

Embora eu admita que Kamen Rider Build (2017) é a melhor série de todos os tempos da franquia, W é a minha favorita da era Heisei. Foi exibida entre 6 de setembro de 2009 e 29 de agosto de 2010, numa época em que eu estava voltando a assistir tokusatsu. Eu já tinha retornado poucos anos antes, revendo os clássicos da época da saudosa Manchete, começando a frequentar eventos de cultura pop, mas Kamen Rider Decade (exibido de janeiro a agosto de 2009) foi minha porta de entrada para entender melhor o que realmente estava acontecendo neste universo.

Foi um retorno meio tardio, eu sei, mas eu não parei de acompanhar tokusatsu desde então. Ou seja, nunca tive um problema em assistir séries antigas e as novidades do gênero. Mesmo tendo um roteiro bem zoado, Decade foi divertido e reconheço que foi um divisor de águas para a Toei em determinados aspectos. Um deles foi a mudança de calendário de lançamentos anuais de novas séries Kamen Rider para setembro, por uma medida tomada pela Toei que visava questões de faturamento.

W foi muito especial pra mim numa época em que tokusatsu estava em alta no próprio nicho. Em 2009 tivemos aqui no Brasil os lançamentos de JaspionChangeman e Jiraiya em DVD — este último título ficou bem conturbado pelos problemas que a extinta Focus Filmes deixou passar –, as estreias de Ryukendo e Kamen Rider: O Cavaleiro Dragão, os antigos fãs animados com a participação especial de Tetsuo Kurata – ao interpretar duas versões alternativas de Issamu Minami – em Kamen Rider Decade, etc.

Esta edição da Coluna do Daileon é um especial sobre curiosidades entre Kamen Rider W e FUUTO PI, que servem de norte para os antigos e novos fãs do lendário herói da cidade do vento.


O início de uma nova fase

imagem: os riders de decade e double.
A passagem de bastão de Decade para Double | Divulgação/Toei/Ishimori Pro

A então nova série representou o início da segunda fase dos Heisei Riders. A Toei queria fazer experiências dentro da franquia por cinco anos, fazendo com que estes planos perdurassem por até dez anos, no máximo – justamente o tempo em que a era Heisei vigorou, até meados de 2019 (mas essa parte foi uma coincidência).

Isso fez com que os filmes de verão, que costumavam sair no começo de agosto – ultimamente as estreias vem acontecendo no final de julho –, servissem como um gancho para o fim de cada série. Sem contar com a inauguração da tradição de filmes de fim de ano, que são crossovers entre o elenco da série vigente com o elenco da série anterior.

Shiniciro Shirakura, atual presidente da Toei Company, foi o produtor executivo de boa parte das séries Kamen Rider da primeira fase da era Heisei. Ao fazer um balanço final do período, ele apontou um dos problemas da franquia: a falta de continuidade entre as séries, pois não havia “migração” de fãs. Shirakura explicou à época que os fãs de Kamen Rider Agito (2001) poderiam não ser necessariamente fãs de Kamen Rider Kuuga (2000) – embora ambas séries estejam ligadas.

Coube ao produtor Hideaki Tsukada – o mesmo de séries Super Sentai como Dekaranger e Kiramager – a construir essa reformulação, ao menos no início do então novo ciclo. Ele esteve envolvido na produção de Kamen Rider Decade: All Riders vs. Dai-Shocker, filme de verão que estreou nos cinemas japoneses em 8 de agosto de 2009 e que serviu como transição para a então nova fase.

imagem: phillip e shotaro.
A dupla Philip e Shotaro se preparando para se tornarem em um só Kamen Rider | Divulgação/Toei/Ishimori Pro

Foi neste mesmo filme que tivemos a primeira aparição oficial de Double, justamente invadindo o embate entre Decade e a versão alternativa de Shadow Moon, que foi praticamente espancado pelo então novo herói, inclusive. Aliás, Shirakura foi contra a inserção dos Riders da era Showa no filme, pois Decade foi criado para ser uma homenagem aos 10 anos dos Heisei Riders. Mas ele acabou cedendo à essa “má influência”, como ele mesmo citou em uma entrevista – algo que, cá entre nós, se tornou em uma maldição para a franquia de lá pra cá.

O roteirista de Kamen Rider W é nada menos que Riku Sanjo, o mesmo do mangá/animê Dragon Quest: The Adventure of Dai – também conhecido no Brasil como Fly – O Pequeno Guerreiro – e já tinha experiência com tokusatsu através da série Cutie Honey: The Live (baseada no mangá original de Go Nagai, publicado no Brasil pela Editora NewPOP). É que Sanjo já era conhecido por colaborar para animês e a mudança foi importante para a Toei sair um pouco do estilo de roteiristas como Toshiki Inoue e Yasuko Kobayashi.

Curiosamente, a escolha da letra W do herói-título tem dois significados. O primeiro vem da palavra inglesa double (duplo) e a segunda da palavra wind (vento), o que justifica também a trama se passar na cidade fictícia de Fuuto (cidade do vento). A ideia inicial era que a série se passasse em uma cidade fictícia chamada Suito, que seria a cidade da água, baseada em Veneza, na Itália. Mas por questões de orçamento essa ideia foi descartada, por demandar vários efeitos especiais e ser difícil de encontrar um local mais apropriado.

Outra curiosidade é que, na concepção original de Kamen Rider WShotaro Hidari seria o único alter ego do herói-título. A outra metade do herói seria o espírito do detetive Sokichi Narumi, o oya-san (chefe) de Shotaro que foi morto durante a Begins Night. Mas seria meio estranho, pois a trama teria um teor meio sobrenatural – tivemos algo mais ou menos assim em Kamen Rider Ghost (2015).

imagem: foto de riku sanjo.
Roteirista de Kamen Rider W, Riku Sanjo deu continuidade à saga no mangá FUUTO PI | Divulgação

Uma curiosidade que poucos devem saber é que, originalmente, Kamen Rider W estava projetado para estrear ainda no final de janeiro de 2009, logo após o final de Kamen Rider Kiva (2008). Mas para que essa estratégia de marketing desse certo, a estreia teria que ser adiada por mais alguns meses. Foi daí que surgiu Kamen Rider Decade, com um número estabelecido de episódios – 31 no total! – com o intuito de estabelecer um novo ciclo dos Heisei Kame Riders.

Além disso, Kamen Rider W utilizou elementos das séries Kamen Rider da era Showa. Segundo Sanjo, o projeto não se tratava exatamente sobre uma volta às origens ou algo do tipo. “Apenas estamos herdando o espírito do que havia de melhor nos Showa Riders. São poucas as obras que obtiveram sucesso no meio televisivo, com essa volta às origens. Se formos além da conta, pode se tornar algo velho demais”, afirmou o roteirista à época.

Um dos elementos em destaque era a volta do cachecol (muffler), ou melhor, era algo similar para representar o vento. Outro elemento era a organização Museum, liderada pela Família Sonozaki, que “controlava” a cidade de Fuuto.

Nisso há uma sutil referência à série original de 1971. É que as pessoas que são enganadas pelos Sonozaki acabam se transformando em criaturas chamadas Dopants, através das respectivas Gaia Memories. Por outro lado, Shotaro e Philip também possuem Gaia Memories – cada um tinha três no começo da série – para se transformarem em Kamen Rider Double.

Em outras palavras, a origem de Double e dos Dopants são semelhantes, assim como o primeiro Kamen Rider, que surgiu graças aos experimentos da organização secreta Shocker.

Para cada caso de investigação, Kamen Rider W formou arcos de dois episódios, formato que já era utilizado em Kuuga (2000), Den-O (2007), Kiva (2008) e Decade (2009). A série totalizou 49 episódios para TV, além de dois filmes para cinema.


Quem são os personagens do primeiro episódio de FUUTO PI

Imagem: Shotaro e Phillip em imagem promocional.
Philip e Shotaro no episódio de estreia do animê FUUTO PI, que está em exibição no Brasil pela Crunchyroll | Reprodução

Quem assistiu ao primeiro episódio de FUUTO PI, lançado neste domingo (31) pela plataforma de streaming Crunchyroll, e não viu ainda Kamen Rider W, pode acompanhar a nova saga tranquilamente. Não será difícil se habituar com os carismáticos personagens. Mas quem assistiu a série original de 2009 vai captar facilmente as referências.

Independentemente disso, a nova série caiu no gosto de fãs de animê e tokusatsu, já no dia do lançamento, e veio com grande potencial a se destacar nesta temporada de verão (equivalente ao inverno no Brasil). Vimos no primeiro episódio boa parte dos personagens principais, que retornam após o V-Cinema Kamen Rider W Returns: Kamen Rider Accel (2011).

Logo nos primeiros dois minutos de FUUTO PI (leia PI como sigla em inglês “pi aɪ, que vem do termo private investigator; assim como na série clássica americana Magnum P.I. (1980~88), estrelada pelo veterano Tom Selleck) temos um resumo da Begins Night, evento que ocorre um ano antes dos principais acontecimentos de Kamen Rider W. Este mesmo evento também foi resumido no primeiro episódio da série tokusatsu, mas foi muito bem explorado em Kamen Rider × Kamen Rider W & Decade: Movie Taisen 2010, o primeiro filme de fim de ano da franquia, que foi lançado nos cinemas japoneses em 12 de dezembro de 2009.

Este filme – que estreou exatamente no mesmo dia que o filme tokusatsu Ultraman: Mega Batalha na Galáxia Ultra e os filmes de animê One Piece Film: Strong World e Space Battleship Yamato: Resurrection – é dividido em três partes. A primeira é um epílogo de Kamen Rider Decade (que terminou com cliffhanger, algo que incomodou uma parcela dos fãs japoneses à época), a segunda conta uma nova aventura de W, além de um flashback e a terceira é o (re)encontro entre os heróis.

imagem: koji kikkawa em capa de álbum.
Capa do single “Nobody’s Perfect”, interpretado pelo cantor e ator Koji KIkkawa, que viveu na pele de Sokichi Narumi/Kamen Rider Skull | Divulgação

Esse flashback é justamente onde a saga de W começa, de fato, com a morte do detetive Sokichi Narumi pelas mãos dos capangas de Museum. Antes de morrer, Narumi entrega o seu chapéu para o ainda inexperiente Shotaro – bem ao estilo Indiana Jones. E é no meio do tiroteio que Shotaro & Philip se transformam no mesmo Kamen Rider através das Gaia Memories. Um nascimento triunfal do Rider 2 em 1.

O resumo apresentado em FUUTO PI serve para deixar os novos fãs habituados, de alguma forma, com os personagens, o que é um grande acerto. Sobre Sokichi Narumi, o espectador precisa saber que ele era o pai de Akiko, a atual dona do escritório de investigação particular – inspirado na série Tantei Monogatari (1979~80). Ele também era alter ego do Kamen Rider Skull, que aparece em Movie Taisen 2010.

Curiosamente, no final deste mesmo filme aparece uma versão alternativa de Skull, que não reconhece Akiko, sua própria filha, e nem mesmo Shotaro, seu discípulo, justamente por ser uma contraparte de uma realidade alternativa – vindo da meta-ficção de Decade.

Sokichi/Skull foi interpretado pelo cantor Koji Kikkawa, que interpretou o inesquecível tema de inserção “Nobody’s Perfect”, que toca nos momentos mais cruciais de Kamen Rider W. Kikkawa retorna em FUUTO PI como compositor do tema de abertura “Private Eye”, interpretado pelo cantor e ator Mitsuru Matsuoka, o vilão Katsumi Daido no filme Kamen Rider W Forever: A to Z/The Gaia Memories of Fate (2010).

Só pra registrar: Kikkawa também aparece no primeiro filme live action de Samurai X (2012) como Udo Jin-e.

imagem: personagem shotaro em frente de moto.
O inconfundível estilo de Shotaro, a parte esquerda de Double | Divulgação/Toei/Ishimori Pro

Shotaro Hidari – o nome é uma clara homenagem ao mangaká Shotaro Ishinomori, e o sobrenome significa “esquerdo” em português – é um detetive que se inspira na literatura hard-boiled para seguir a carreira como investigador. Hard-boiled é um gênero que surgiu em meados da década de 1920, onde os protagonistas são anti-heróis como Dick TracyMike Hammer e principalmente Philip Marlowe. Este último, por ter uma forte ligação com sua cidade natal, serviu de inspiração para a concepção de Shotaro.

Só que o jovem detetive segue um caminho inverso desses personagens e não utiliza de meios incorretos para solucionar determinados casos. Ele pode ter um lado meio arrogante, mas é atrapalhado e tem bom coração. Por ter nascido e se criado em Fuuto, ele decide proteger a cidade, seja como detetive ou como Rider. Adotando um estilo de vestimenta dos anos 70, Shotaro gosta de recitar frases de filmes e romances de detetive.

A escolha do tema hard-boiled veio do produtor Tsukada, já que ele é fã de carteirinha de filmes e quadrinhos do gênero.

Shotaro foi interpretado por Renn Kiriyama, que é fã declarado de Kamen Rider Black e provavelmente não foi a toa que seu personagem ganhou mais tarde uma forma solo chamada Kamen Rider Joker – com uniforme da cor preta. Em 2017, o ator foi atração do evento americano Japan World Heroes, em Passadena, California, EUA.

imagem: personagem philip.
Philip carregando a Fang Memory, que permite a transformação de Double para a forma Fang Joker | Divulgação/Toei/Ishimori Pro

Philip – outra inspiração em Marlowe – é o fiel escudeiro de Shotaro. Ele possui uma biblioteca em seu cérebro, denominada como Estante de Livros da Terra, que funciona como um site de busca. O produtor Tsukada chama o personagem carinhosamente como “Ningen Google” (Google humano), devido à sua rapidez em buscar informações.

Mas se caso ele for distraído por algum motivo durante o processo, ele acaba pesquisando outra coisa. Denominado como “garoto mágico inteligente”, Philip se destaca durante o passar da série tokusatsu, se tornando o personagem-chave para a batalha final contra Museum.

Philip foi inspirado no comediante Nobuyuki Hanawa, integrante da dupla Knights que tem um perfil de se mostrar espantado com coisas obvias demais, já que o personagem não demonstra entender coisas que as pessoas geralmente sabem.

Philip foi interpretado pelo ator e cantor Masaki Suda, que tinha apenas 16 anos à época, sendo o ator mais jovem a interpretar um Rider até então. Em novembro de 2015, Suda casou-se com a atriz Nana Komatsu, com quem havia trabalhado em outras produções. Para os fãs de animê, ele também ganhou popularidade ao interpretar temas para franquias populares como Doraemon e My Hero Academia.

Alívio cômico da trama, Akiko Narumi é a temperamental filha do falecido chefe de Shotaro. Ela veio de Osaka para visitar o escritório de seu pai, mas acaba se envolvendo na trama. Ela usa o bordão “Watashi kiitenai!” (Eu não estou sabendo!) sempre que está perdida no meio dos casos de crimes cometidos pelos Dopants. Por isso detesta ser a última a saber das coisas.

imagem: foto de hikaru yamamoto.
Ainda este mês, Hikaru Yamamoto retornará como Akiko Narumi no próximo especial de Kamen Rider Revice | Divulgação/Weekly Big Comic Spirits

Akiko adora implicar com Shotaro, chamando-o de “half-boiled” – por ele ser justamente o contrário da filosofia que o jovem detetive diz adotar. Após a batalha final contra os Sonozaki, Akiko se casa com o policial Ryu Terui, alter ego do herói secundário Kamen Rider Accel.

A personagem foi interpretada pela bela Hikaru Yamamoto, que, na vida real, também é natural de Osaka. Curiosamente, Akiko fala sem sotaque, exceto quando critica Shotaro e segue falando o dialeto de Kansai. Yamamoto irá reprisar a personagem em Kamen Rider Jeanne and Kamen Rider Aguilera with Girls Remix, especial de Kamen Rider Revice que estreia no próximo dia 7 no Japão.

Outra personagem de Kamen Rider W que aparece no primeiro episódio é a Lily Shirogani, que na serie tokusatsu aparece apenas nos episódios 27 e 28, além do filme de verão Kamen Rider W Forever: A to Z/The Gaia Memories of Fate (2010) e do especial Kamen Rider W Returns: Kamen Rider Accel (2011).

Assim como seu avô, Lily é uma magica e inicialmente usava uma Gaia Memory para se tornar invisível. A personagem foi interpretada por Nao Nagasawa, atriz que se consagrou como a Hurricane Blue em Hurricaneger, série Super Sentai de 2002 que deu origem ao Power Rangers Tempestade Ninja (2003), e é um rosto conhecido pelos fãs de tokusatsu por fazer participações especiais em várias produções do gênero.

imagem: kamen rider w em anime de fuuto pi.
Embora a transformação na versão animada ainda seja guardada a sete chaves, Kamen Rider Double aparece logo nos primeiros minutos de FUUTO PI | Reprodução/Crunchyroll

FUUTO PI estreou com uma ótima receptividade entre fãs de animê e tokusatsu. Com certeza esse sucesso será impulsionado pela versão dublada, que a Crunchyroll vai lançar em breve.

Sendo assim, o animê é a primeira série da franquia de Shotaro Ishinomori a ganhar dublagem brasileira desde a exibição da serie nipo-americana Kamen Rider: O Cavaleiro Dragão (2009; adaptação de Kamen Rider Ryuki). Ou melhor, considerando apenas as séries originais, desde Kamen Rider Black RX (1988; exibido pela extinta Rede Manchete entre 1995 e 1997).

Fiquem ligados aqui no site JBox, pois em breve traremos uma análise sobre os dois primeiros episódios de FUUTO PI.

Cyclone!

Joker!


FUUTO PI tem novos episódios exibidos oficialmente no Brasil pela Crunchyroll todo domingo, a partir das 13h (de Brasília), com legendas em português. A série tem dublagem confirmada, que deve estrear nas próximas semanas, como é de praxe com os simuldubs do serviço.


O texto presente nesta coluna é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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