Crítica | Jagaaan – Volume 1 (Panini): Quando comer cocô é uma questão de vida

O mundo está nas mãos de um policial com um enorme fetiche por puxar o gatilho de uma arma.

O texto abaixo contém spoilers do 1º volume de Jagaaan.


Você já quis que sua vida fosse diferente? Talvez um pouco mais agitada? O policial Shintaro Jagasaki é apresentado como alguém sem sal, cansado da própria vida. Apesar de ter em suas mãos o poder de puxar o gatilho de uma pistola a qualquer momento – fantasia constantemente desejada pelo personagem – a bem da verdade ele se passa por um sonso enquanto se corrói por dentro desejando uma vida menos… comum?

Sinceramente, entre tanta violência, gore e aparente vontade de contar uma história madura, a parte mais chocante de Jagaaan (gravado assim, com três “a”) é o retrato do policial. Para quem cresce no país de BOPEs, com frequentes denúncias de truculência e abuso de autoridade (as exceções…), ver um policial como um grande inútil, segurando sua grande vontade de estourar os miolos de adolescentes barulhentos, é o que mais evidencia o absurdo da ficção.

O mais curioso é que o próprio chefe de Jagasaki manda ele bancar o bobo, soa quase como uma crítica, “a polícia do Japão é muito mole”. Uma instituição tão ridícula que ninguém parece se interessar muito por ela, mas não entrarei nessa discussão pois não conheço o assunto. Aliás, por que será que nosso herói quis virar policial? Provavelmente para poder puxar uma arma, mas não sabemos bem.

Jagasaki sonhando que está atirando para todo lado.
“Eu quero atiraaaaaar!!!”. / Reprodução: Panini.

O roteirista, Muneyuki Kaneshiro, prefere se ocupar com simplesmente mostrar como tudo ao redor de Jagasaki é extremamente tedioso, ao invés de criar um personagem menos estereotipado. As primeiras páginas evidenciam bem como o rapaz apenas tenta agradar a todos, mesmo odiando tudo ao seu redor e é exatamente isso que assusta: toda a narrativa parece construída para querermos que o Jagasaki puxe seu amado gatilho.

Namorando com Yuriko há quatro anos, morando junto há dois, o jovem curiosamente nunca conheceu os pais dela (oi?). Contudo, com o passar do tempo, a garota está mais insistente com o casamento e, por isso, quer apresentá-lo aos pais. Acontece que Jagasaki morre de medo desse futuro comum de formar família, embora seu único sonho aparentemente seja o de sacar uma arma e matar alguém. É para termos empatia?

Mas esse pedido é, finalmente, atendido. Em um dia de trabalho, Jagasaki precisa ir a uma estação de trem porque um homem – bêbado – está lá, largado em uma plataforma. O policial fica fascinado com a existência de pessoas deprimidas incapazes de repousar todo o seu resto de orgulho e autoestima no fato de que, a qualquer momento, poderiam sacar uma arma e puxar o gatilho.

Na volta, no trem, ele se depara com um empresário-empreendedor-se-eu-continuei-trabalhando-com-meu-pai-foi-porque-eu-mereci. Como ninguém aguenta esse tipo de gente, Jagasaki pede, gentilmente, para ele parar de atrapalhar as pessoas no vagão, mas vocês sabem qual atitude ele gostaria de tomar.

O homem então, num surto típico dessas figuras, vira um monstrengo enquanto diz que odeia pobre e sai matando todos ali. Curiosamente, no único momento em que realmente precisa, Jagasaki dá mole na hora de atirar.

O dedo de Jagasaki após se transformar.
Pew, pew, pew. / Reprodução: Panini.

Ele acaba perdendo dois dedos, atacado pelo monstro. Sentado no chão, fazendo arminha com a mão, nosso herói pensa na própria mediocridade enquanto espera a morte. De repente, um “leigan” sai de seus dedos e mata o bicho. O braço de Jagasaki se transforma num negócio estranho (a referência ao mangá Parasyte é proposital).

É aqui que ele descobre a existência de seres que habitam pessoas, se alimentando de desejos reprimidos, os malussapos. Em algum momento, eles se fundem à carne e o hospedeiro vira um “sucumbido”, perdendo o controle e virando um monstrengo. Jagasaki também tem agora um malussapo dentro dele, e a única forma de impedir o avanço desse parasita é comendo uma espécie de cocô expelido ao eliminar os outros sucumbidos.

Se Jagasaki era pouco satisfeito com sua vida sem graça, ele percebe agora que uma vida agitada não necessariamente é boa e não parece muito receptivo à ideia de salvar o mundo dos sucumbidos, embora possa atirar com os dedos. Como já diziam as Pussycat Dolls na música When I Grow Up: cuidado com o que você deseja, pois você pode acabar chegando lá.

Mas a vida cobra. Ao retornar para a casa depois dessa loucura, ainda em choque, Jagasaki acaba matando sua própria namorada. Afinal, não deve haver nada mais assustador para um homem do que uma garota pressionando para que, depois de quatro anos de relacionamento, as coisas fiquem um pouco mais sérias, certo? A coitada da Yuriko obviamente seria uma vítima de um malussapo e, em consequência, é morta pelo namorado, em legítima defesa.

Jagasaki e o balão "Vai ser Jagaan, o sucumbido guerreiro!!".
Nasce o “Jagaaän”. / Reprodução: Panini.

Jagasaki ainda precisa de um tempo para entender toda a situação. Enquanto isso segue fingindo que nada aconteceu, inclusive comete o crime de ocultação do cadáver da namorada. É numa festa de casamento, forçando alguma normalidade e felicidade, que o rapaz aceita por fim seu destino.

A noiva surtada, virando sucumbida no meio da festa, exige providências urgentes. Ah, mulheres devem ser mesmo problemáticas com essa coisa de casamento. Por fim, nosso heroi decide se tornar o Jagaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaan, usando sua “mão-arma” Jagun, e entra de cabeça na nova vida de atirar em sucumbidos, a emoção que ele sempre desejou.

Para além de Jagasaki ser um personagem medíocre, mesmo fora dos momentos propositais, segue uma certa dúvida: se um sucumbido precisa do cocô de outro para evitar virar um monstro, qual será o destino desse rapaz depois de matar todos os sucumbidos? A cura milagrosa? Não sei se essa questão será abordada mais a frente, possivelmente sim, mas fica a sensação de uma premissa meio sem sentido.

No começo, a série parece até rascunhar algum tipo de abordagem interessante – eu realmente gostava do conflito fantasia x realidade do nosso policial – mas prefere abandoná-la da pior forma possível: aparentemente apenas para dar espaço à violência gráfica com uma trama tão sem graça quanto a vida do protagonista, tentando apoiar-se na capacidade do leitor em ter alguma empatia por esse jovem detestável.

Um elogio fica, no entanto, ao tradutor Caio Suzuki, que abriu mão dos otakismos típicos da Panini, usando diversos termos bastante abrasileirados, como malussapo e cagabola, além de nos fornecer um texto com o total de 0 (zero) sufixos japoneses que não fazem qualquer sentido na nossa língua. Uma tradução agradável demais para a qualidade do roteiro.


Capa do volume 1 | Divulgação: Panini

Para essa resenha, foi utilizado o primeiro volume de Jagaaaaaaan, publicado aqui no Brasil pela Panini em 2019, com tradução do Caio Suzuki. O volume foi enviado ao JBox como material de divulgação para a imprensa à época do lançamento. Porém, por problemas de logística aqui do site, agravados mais tarde pela pandemia do COVID-19, só pode ser resenhado essa semana.


O texto presente é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.


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