imagem: foto do box com os dois volumes de Vida à Deriva.

Crítica | Vida à Deriva: As transformações do gekigá e de seu precursor | Editora Veneta

Cativante e instigadora, obra prima de Yoshihiro Tatsumi satisfaz o interesse de quem quer que se debruce diante deste testemunho sobre o “mangá”, o Japão e a própria vida.

O ano de 2021 foi muito positivo no que diz respeito a chegada de títulos de relevância ao Brasil. Muito disso passa pela publicação de Vida à Deriva (Gekiga Hyouryu), obra do precursor do gênero gekigá Yoshihiro Tatsumi, pela editora Veneta.

Na obra, o olhar aguçado do autor se lança sobre a nascente indústria de quadrinhos japoneses que se instalava do outro lado do globo, em meados da década de 1950. Esse olhar lança-se, ao mesmo tempo, sobre si mesmo, já que a história de Tatsumi – Hiroshi Katsumi, na ficção – muitas vezes se confunde com o processo de amadurecimento pelo qual a própria forma “mangá” teve de passar ao longo dos anos até chegar ao que conheceríamos décadas mais tarde.

É justamente esta a pedra angular da obra, o seu princípio de composição. O equilíbrio entre narrar a trajetória particular do autor em paralelo ao desenvolvimento do mercado de mangás é o que se busca do início ao fim. E isso acontece com enorme êxito.

Imagem: Trecho de quadro com os balões "Então é este o verdadeiro prazer da criação?" / "Eu não sabia".
Reprodução.

A história de Vida à Deriva tem início no período imediatamente posterior a 2ª Guerra, entre os anos de 1948-1949. Hiroshi Katsumi, que tinha apenas 13 anos, já se interessava pelos mangás a partir do que lhe chegava através de seu irmão Okimasa (apelido para o conhecido teórico e mangaká Shouichi Sakurai), que lhe servia como mentor. Foram nesses anos que Katsumi notou que tinha talento para a coisa.

Em 1950, aos 15, conhece ninguém menos que Osamu Tezuka (1928-1989), num evento promovido pelo Mainichi Shimbun – um dos mais tradicionais jornais japoneses. As cenas que marcaram o encontro são compostas com maestria por Tatsumi, dando-nos um gostinho do que fora um dos momentos mais decisivos de sua vida.

Influenciado por autores como Tezuka, Machiko Hasegawa (1920-1992), de Sazae-san, e, principalmente, Shotaro Nanbu (1918-1976), de Yaneura 3-chan, Katsumi daria seus primeiros passos como a maioria fazia então: desenhando micronarrativas de 4 tiras, o chamado 4-koma (forma existente até hoje).

Esses e diversos outros episódios são narrados ao longo de Vida à Deriva, mas não convém contá-los todos, evidentemente. Destacaria dentre eles a representação do fenômeno que estava em voga no Japão da época, o dos mangás de aluguel (kashihon), que perpassa toda a narrativa. Com uma economia fragilizada devido à guerra, não era de se supor que a população japonesa teria meios para sustentar uma indústria baseada em tiragens.

Isso viria a calhar anos mais tardes, com o surgimento das revistas Shonen Magazine (Kodansha) e Shonen Sunday (Shogakukan), em 17 de março de 1959. Até lá, no entanto, os mangás de aluguel tiveram papel fundamental na popularização da leitura, como nos mostra brilhantemente a obra de Tatsumi.

Para falar de gekigá, os kashihon assumem posição de suma importância. O dia em que conheci os mangás de aluguel foi o momento em que a minha vida foi sugada para o profundo vórtex dos gekigás. Mas é bom lembrar que, na minha infância, a realidade dessas histórias era totalmente diferente da dos dias de hoje. Eram de uma pobreza extrema. Acredito que, pela escassez do papel no pós-guerra, os kashihon eram impressos com páginas de péssima qualidade. O que dava brilho a esses livros era mesmo o conteúdo, produzido por aquele punhado de autores geniais, como Osamu Tezuka e Noboru Ooshiro, entre outros. Seus mangás, expostos nas prateleiras dos kashihon’ya, de maneira desordenada, pareciam emanar um estranho poder, algo que me encantava. — Yoshihiro Tatsumi, “Ao sabor do gekigá”.

Imagem: Cenas do mangá.
Reprodução.

O trabalho produzido pelo autor e seus colegas da revista Kage (1956), nascida no seio do kashihon, buscava se diferenciar dos demais materiais distribuídos nos kashihon’ya (as livrarias especializadas nesse modelo de negócio).

Diante de um predomínio de histórias cômicas, despretensiosas, voltadas ao público infantil, o grupo formado por Yoshihiro Tatsumi, Masami Kuroda, Masahiko Matsumoto, Takao Saito, Shouichi Sakurai Makoto Takahashi mirava a apresentação de algo distinto, amparado por uma incorporação de elementos advindos de outras formas de arte (sobretudo o cinema) e obcecados pela criação de uma nova estética, embora sem abrir mão das influências e dos avanços promovidos por figuras importantes como os já mencionados Osamu Tezuka, Machiko Hasegawa e muitos outros.

O interesse da narração de Tatsumi se direciona exatamente para o processo de formação do que em ocasião futura seria aquilo que se conhece por gekiga e teria grandes desdobramentos ao longo das décadas seguintes – vide a revista Garo, fundada em 1964, e tantas outras produções que esculpiram nomes como Yoshiharu Tsuge, Sanpei Shirato, Kazuo Koike, Goseki Kojima.

A discussão sobre a forma é o que atravessa todos 48 capítulos que compõem a história. A começar pelo termo, cunhado pelo autor em 1957, o gekigá se coloca como um contraponto ao mangá por se associar ao drama (para melhor entender a divisão dos gêneros literários, recomenda-se a leitura de “A teoria dos gêneros”, de Anatol Rosenfeld, presente no livro O Teatro Épico). Os ideogramas 劇画 (gekigá), literalmente “figuras dramáticas”, se opõem a 漫画 (mangá), que alude a uma forma mais “livre”, “descompromissada” (os kanji formam algo como “desenhos involuntários”).

Os trabalhos que Tatsumi (e os outros expoentes do gekigá) viria(m) compor posteriormente tinham como pressuposto alcançar um público mais velho, para o qual se via a necessidade da criação de uma nova maneira de se contar histórias em quadrinhos.

Em suas coletâneas mais célebres, como Tokyo Ubasuteyama (Abandon the Old in Tokyo)Push ManGood-Bye, todas lançadas na América do Norte pela canadense Drawn & Quartely, essa estética se evidencia na execução das narrativas, cujas temáticas são ostensivamente distintas às que se encontra nos shounens, por exemplo.

A rotina degradante de trabalhadores da grande metrópole japonesa, a marginalização da população idosa, as consequências da modernização do século XX, a superficialidade das relações interpessoais estabelecidas sob o sistema de produção e distribuição de mercadorias: são esses os motes dos quais se ocupou o autor de Vida à Deriva na maior parte de suas criações.

Na obra lançada pela Veneta conhecemos, entretanto, uma outra faceta: a do biógrafo. Num exercício de autorreflexão, Tatsumi dedica-se a contar sobre a sua própria vida, sem abandonar o interesse pelo Japão e a história que estava em curso naquele país. Como Katsumi, sua versão ficcionalizada, bem observa: naquele momento, o Japão também estava à deriva.

Imagem: Mais cenas do mangá.
Reprodução.

O que poderia resumir a realização de Tatsumi em sua obra mais conhecida é a imagem do equilibrista de pratos. O autor nos apresenta simultaneamente a sua própria história, a história de seu país, de seus colegas de indústria e, sobretudo, de sua arte. E como bom equilibrista, não deixa nenhum desses “pratos” cair.

A relação familiar, da qual se destaca a amizade cheia de altos e baixos com o irmão Okimasa, é apresentada com a mesma riqueza de detalhes que as histórias envolvendo as editoras de mangá da década de 1950. Entre um causo e outro, intercalam-se eventos históricos das mais diversas naturezas que impactaram a sociedade japonesa e o seu desenvolvimento durante os anos mais decisivos da Era Showa (1926-1989).

Imagem: Quadro único com personagem desenhando quadrinhos.
Reprodução.

Esse equilíbrio é gerador de uma leitura verdadeiramente proveitosa, capaz de preencher várias expectativas de variados perfis de leitor que possam vir a ter acesso ao mais novo mangá da Veneta.

Para os interessados na evolução do mercado de quadrinhos produzidos no Japão, eis um documento inescapável. Para os fãs de Tatsumi e de célebres autores, como Takao Sato (Golgo 13), um retrato que aproxima o leitor do lado humano escondido atrás do “artista”.

Aos curiosos pela história do país que servira como chão concreto para o surgimento da forma mangá e de seu candidato a opositor — o gekiga –, um panorama completo.

Imagem: Autorretrato do autor desenhando, e aparentemente cansado.
Autorretrato de Tatsumi num quadro de Tokyo Ubasetuyama. | Reprodução.

Se falamos numa outra faceta de Tatsumi que se apresenta em Vida à Deriva, não podemos deixar de mencionar o que a determina: a diferença no tom da narrativa deste título em relação aos seus outros quadrinhos.

O trabalho com a memória é decisivo, já que a própria natureza do estilo memorialístico tende a imprimir uma certa nota de romantismo. A narração de episódios protagonizados por pessoas que fizeram parte de sua biografia, os pequenos causos da juventude e muitos outros detalhes fazem surgir em Vida à Deriva uma leveza pouco usual na obra de Tatsumi.

Mais uma vez, a natureza memorialística é o fator sina qua non para se chegar a esse efeito, já que falar sobre si mesmo e sobre pessoas que fizeram parte de sua trajetória implica mexer no vespeiro dos afetos, de onde dificilmente se escapa sem alguma marca.

Por conta dessa “leveza”, o traço simples com o qual são desenhados os personagens chama menos a atenção se comparado ao mesmo estilo quando presente nos diversos contos, onde também se faz notar um contraste entre a simplicidade do desenho das figuras humanas e a complexidade dos cenários, algo bem observado pela leitura do Fora do Plástico.

Nestes contos é que Tatsumi exerce toda a força de seu antagonismo em relação ao mundo capitalista. Um dado curioso é que observando histórias como as de Tokyo Ubasuteyama podemos enxergar as diversas vezes nas quais o autor usou o recurso do autorretrato. É como se o Katsumi, protagonista de Vida à Deriva, estivesse, com a mesma expressão pensativa – ora esperançosa, ora profundamente angustiada –, passeando pelas avenidas de Tóquio e enfrentando o conturbado dia-a-dia da metrópole.

Imagem: Cena do personagem percebendo que seu amado mundo de mangás é "como um concurso de popularidade", ficando frustrado com isso.
Reprodução.

Mas dizer que na obra da vida de Yoshihiro Tatsumi há uma dose significativa de romantismo (e, inclusive, de nostalgia) para com o objeto da narração não significa dizer que há ausência de crítica. Tatsumi é reconhecidamente um artista crítico, o que está na gênese do gekigá, é a razão de ser do estilo.

Se não o faz da mesma maneira que nos contos, onde os temas são outros, podemos observar igual contundência nas mais de 800 páginas de Vida à Deriva, onde estão presentes comentários a respeito da precarização do trabalho do artista (acentuada pela transposição do modelo de produção industrial), considerações sobre a monotonia das formas de se fazer mangá naquela época (algo que se faz sentir até os dias atuais), reflexões em torno do dilema de seguir um programa estético inovador versus desenhar histórias mais simples pelo simples retorno financeiro

E em paralelo a isso tudo estão as sugestivas menções a eventos históricos ocorridos ao longo do período em que se ambienta a narrativa. Longe de serem meros parênteses entre um capítulo e outro, os acontecimentos apresentados pelo narrador parecem nos lembrar o tempo todo das circunstâncias que produziram aquela sociedade que havia de encarar as consequências de uma guerra. E produziram, também, o gekigá.

Vida à Deriva acabou levando uma rasteira logo na largada. — Yoshihiro Tatsumi, “Ao sabor do gekigá”.

A preocupação com o tempo histórico, aliás, é uma característica pessoal de Tatsumi, que faz questão de lembrar, no posfácio, da má sorte que teve quando do lançamento de Vida à Deriva. “Era março de 1995. Seguidores do culto Aum Shinrikyo causaram pânico, espalhando gás sairin no metrô de Tóquio. Por azar, esta série, Vida à Deriva (Gekigá Hyoryu, em japonês) começou a ser publicada justamente no mesmo mês“, conta o autor.

Esse foi apenas um dos episódios que a mídia japonesa atribuiu ao que acreditava ser resultado da influência do estilo que originaria a demografia seinen: “Parece que o mundo anda convencido de que ‘gekigá’ é um sinônimo de ‘mal’: ‘crime cometido pela geração gekigá’, ‘atrocidade digna de um gekigá’… Manchetes assim tomaram conta da primeira página dos jornais“, descreve Tatsumi. O desejo de “reparar” a imagem daquilo que dedicou toda a sua vida para construir ajuda a entender a diferença de tom mencionada há pouco.

Esse “elemento novo” trazido à obra de 1995 fica mais claro em outras declarações. Ainda no referido posfácio, ao relembrar o dia em que um jornalista de Kobe o ligou para perguntar sobre um assassinato (o caso Sakakibara Seito, um dos mais conhecidos do século passado, ocorrido em maio de 1997) que supostamente imitava uma história de gekigá, Tatsumi diz: “Gastei 822 páginas para tentar mostrar às pessoas que: ‘Não é assim! Não tem nada a ver com isso!’; mas a verdade é que eu não sei se atingi o objetivo.”

Melhor que Tatsumi, ao final de da história o leitor poderá responder a essa indagação. Aqui, o que cabe é dizer que a dedicação aplicada na assinalada criação do precursor dos gekigás faz emanar algo como o “estranho poder” que o autor percebia ao lidar com a obra dos mestres de seu tempo.

Em 2022, a decantação do trabalho atingida em Vida à Deriva permanece cativante e instigadora, conseguindo, como já dito, satisfazer o interesse de quem quer que se debruce diante deste apaixonado testemunho sobre as transformações do mangá, do Japão e da própria vida.

Imagem: Mockup, capa e box de 'Vida à Deriva'.
Divulgação: Veneta.

Notas sobre a edição

A edição brasileira de Vida à Deriva carece de poucos comentários acerca do trabalho entregue pela Veneta. Do ponto de vista gráfico, o material é impecável e faz jus ao preço praticado (sem contar a possibilidade de achar um desconto razoável em lojas como a Amazon).

Particularmente, as artes da capa são bastante adequadas ao título. A fonte utilizada para o logo brasileiro caiu muito bem, assim como a disposição das letras nas capas, que parece fazer eco ao espírito anticonvencional do autor.

Apesar de ser em capa dura, o folhear é bastante confortável – resultado da boa encadernação feita sob costura. O papel pólen é de excelente qualidade e torna a arte confortável aos olhos, por conta do tom mais creme.

O trabalho de pesquisa é impecável e condiz com o nível de detalhes apresentado por Tatsumi ao longo da história (o que deve ter consumido muito tempo da equipe editorial). Os glossários e a qualidade do texto são de se destacar, mas nenhuma novidade em relação aos trabalhos de Drik Sada e Rogério de Campos, que costumam ser bastante atenciosos aos detalhes que exigem uma boa edição.

Um aspecto negativo que convém assinalar é a falta de coerência com relação aos momentos em que textos em japonês aparecem dentro da narrativa. Por se tratar de metalinguagem, é de se entender que algumas cenas apresentem quadros com caracteres na língua de partida (como é o caso dos capítulos onde Katsumi tem em mãos manuscritos de Osamu Tezuka, por exemplo, ou quando aparecem listas imensas com dados catalográficos de mangás dentro de uma revista ou documento desenhados dentro da história, como parte da composição do cenário/cena).

Acontece que os critérios que são definidos no começo da edição através de uma nota de rodapé acabam sendo abandonados ao longo das páginas, e de repente se vê quadros da mesma natureza sendo tratados de maneiras distintas, ora com a tradução no rodapé, ora com o texto em português apenas no glossário, ao final do livro.

Por fim, os textos de apoio, dentre os quais há um posfácio do próprio autor, também são de se destacar e enriquecem a edição. É o tipo de material que deveria ser mais comum por aqui, assim como os mangás de um artista da envergadura de Yoshihiro Tatsumi.

Confira algumas imagens da edição na galeria abaixo:


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Ficha Técnica

Imagem: Capa brasileira de 'Vida à Deriva'.
Divulgação: Veneta.

Vida à Deriva
Yoshihiro Tatsumi
R$ 104,90 (Box com os 2 volumes: R$ 199,90)

Editora Veneta

Completo em 2 volumes

Capa dura
Formato: 16 x 23 cm
Páginas: 464 em papel pólen
Licenciante: Leed

Tradução: Drik Sada
Revisão: Bruno Prisco e Ricardo Liberal
Revisão dos textos de apoio: Luiza Gomyde
Diagramação: Lilian Mitsunaga
Assistente editorial: Rômulo Luis

Edição: Rogério de Campos
Notas e comentários: Rogério de Campos e Drik Sada


Essa resenha foi feita com base em edições de Vida à Deriva cedidas como material de divulgação para a imprensa pela editora Veneta. Os preços de capa estão por R$104,90 cada edição.


O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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