Survival game. Death game. Battle royale. Muitos nomes diferentes já foram usados para chamar os jogos em que um grupo de pessoas tem de lutar, às vezes literalmente, para escapar com vida. A quantidade de obras com esse cenário como ambientação é igualmente longa vai do livro japonês Battle Royale ao filme estadunidense Jogos Mortais. Não faltam representantes do gênero em todo mundo.

Os death games, como chamam os japoneses, também encontram terreno fértil no nicho de mangás: Mahou Shoujo Keikaku, o yuri Akame ga Kill e o muito conhecido nos anos 2000 Mirai Nikki são apenas alguns dos nomes que podemos citar. Outro importante representante da categoria é o quadrinho de Haro Aso, Imawa no Kuni no Arisu.

Tendo sua publicação pela JBC iniciada em 2023, sob o título Alice in Borderland, o quadrinho tem como protagonista Ryouhei Arisu. O garoto vive a vida comum de um estudante de ensino médio, tão comum que chega a ser completamente entediante. Com um irmão mais novo absolutamente genial, que rouba toda a atenção e aprovação da família, Arisu apenas segue seus dias num marasmo apenas desejando que algo emocionante aconteça.

imagem: cena de persoangem dizendo que se o pegador matar todos os participantes é game over.

Foto: Andreza Silva/JBox.

Um dia, após não aguentar a provocação do irmão mais novo, Arisu acaba caminhando até Shibuya com dois amigos. Lá, o trio vê uma chuva de fogos de artifício — o último rojão a explodir é tão forte que o clarão os cega completamente. Quando despertam novamente, os três garotos se veem de volta a seu ponto de partida da noite, o bar de um deles. Entretanto, o lugar está coberto de pó e a cidade completamente deserta. Explorando o cenário digno de um filme pós-apocalíptico, o trio encontra um templo e antes que percebam são incluídos em jogo mortal no qual sair vivo parece impossível.

Alice in Borderland é um mangá de survival game realmente carismático, embora pareça inadequado utilizar essa palavra para descrever uma história em que existem elementos de suspense e horror. Apesar de, às vezes, ter um tom meio edge e flertar com o que poderia ser chamado de “shounen adultão”, o mangá consegue dosar bem todos esses elementos e entregar uma história interessante de ler.

Por mais que o Arisu seja um protagonista “meio perdedor” que se torna “um cara” maneiro nesse novo mundo para o qual é levado, existem alguns traços nessa personagem que tornam ela mais do que apenas um garoto desajustado feito para outros garotos se identificarem.

O complexo de inferioridade de Arisu em relação ao seu irmão mais novo é muito palpável e é uma boa desculpa para o fato de ele ser tão cansado e entediado com a vida. Ele vê o mundo tão em preto e branco que chega a desejar de todo o coração ser teletransportado para um mundo de apocalipse zumbi. Arisu almeja por novas emoções, por uma nova realidade, mas isso não o impede de ser dominado pelo desespero quando se dá conta que, onde quer que ele esteja agora, a possibilidade de morrer é muito real.

Claro, Arisu é um meninocom algo de especial, suas habilidades analíticas e sua percepção detalhista são seu carro-chefe para a sobrevivência nesse novo mundo estranho para onde foi levado. Obviamente, existe algo de muito maneiro nesse tipo de habilidade, o protagonista inteligente é sempre uma personagem muito charmosa. E essa mudança na forma de encarar as situações, de um garoto entediado e reclamão para o cara que usa o cérebro para escapar da morte, é refletida na maneira como Haro Aso desenha Arisu.

Ao mesmo tempo, o leitor também percebe que Arisu é um gênio a sua própria maneira e, na verdade, ele não deve muito ao seu irmão certinho. Entretanto, o verdadeiro carisma dele está em enxergar Borderland como um lugar onde ele pode recomeçar, mas sem desprezar a situação extrema em que se encontra.

imagem: cena do mangá.

Foto: Andreza Silva/JBox.

No início, quando ele acha que é tudo um sonho, não leva nada a sério. Então, quando percebe que está preso numa situação de vida ou morte, deseja voltar para o lugar de onde veio. Na verdade, ele se sente até mesmo ingrato por reclamar tanto, considerando que tinha uma vida até que bem confortável.

Porém, depois que coloca a cabeça no lugar e se torna esse menino maneiro que sabe usar suas habilidades, o motivo real pelo qual ele enxerga esperança nesse lugar horrível, é que agora ele não está mais sozinho. Arisu tem um grupo de amigos que, de alguma forma, emulam uma verdadeira família. Por isso, mesmo vivendo no limite, pela primeira vez ele consegue ver sentido em continuar vivo.

Inclusive, por falar em limite, o nome do mangá é definitivamente uma boa sacada. Tanto o título japonês, Imawa no Kuni no Arisu, quanto o título utilizado nos países da Europa e América, Alice in Borderland, fazem claramente uma referência ao Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol.

“Imawa” é uma palavra que significa “os últimos momentos de alguém” ou “hora da morte”. Realmente, comunica muito bem como é a vida no local para onde Arisu e seus amigos foram levados. Do mesmo modo, “borderland” é uma boa escolha, porque se tem uma coisa que as pessoas fazem em Borderland, é viver no “limite”. E palavra consegue criar uma semelhança boa o bastante com o “Wonderland” do título original do livro da Alice.

A referência ao País das Maravilhas também serve para acentuar o mistério que envolve Borderland. O que é esse lugar? Quem comanda todos esses jogos? São perguntas que ficam girando durante a leitura de todo o primeiro volume e que talvez ainda continuem sem resposta por boa parte da história. Outra questão a pairar durante a leitura dos primeiros capítulos é: por que essas pessoas foram levadas para Borderland e como elas são escolhidas?

Talvez, a escolha se mostre aleatória, mas existe um padrão curioso no grupo de amigos de Arisu. Não é só ele que vê a vida e suas obrigações sociais com lentes cinzas, todos os seus amigos têm questões parecidas. As motivações são diferentes, mas todas essas pessoas não viam muito sentido na vida que levavam. É como se um grupo de desajustados levemente melancólicos tivesse sido jogado na situação mais atípica que se é possível imaginar.

A possibilidade de ver os laços entre essas pessoas se aprofundando e como continuará a dinâmica dessas personagens antes que ou até que uma delas encontre a hora da sua própria morte é um motivo para continuar lendo essa história.

Além disso, as cenas e as dinâmicas dos jogos são muito boas. A sensação de tensão antes do jogo ser anunciado, a curiosidade de ver como os acontecimentos vão se desenrolar e, claro, de que maneira os mistérios que envolvem Borderland vão ser resolvidos criam um ótimo clima. É uma história que te faz querer acompanhá-la.

Em outras palavras, o volume 1 de Alice in Borderland faz uma boa apresentação do mangá. O protagonista é carismático, a história é interessante e sabe explorar alguns “clichês” de narrativas com uma proposta mais “séria/sombria” sem pesar a mão, tornando-se um bom representante dos mangás de survival game.


Galeria de fotos

Confira no álbum abaixo alguns registros da edição nacional de Alice in Borderland:


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imagem: capa do primeiro volume de alice in borderland pela jbc. imagem: capa do segundo volume de alice in borderland pela jbc.

Volume 1 | Volume 2


O Rio Grande do Sul segue em situação de calamidade pública, passando por uma das piores tragédias da história do estado, após fortes chuvas e enchentes que permanecem em algumas regiões. O governo estadual reativou o PIX do “SOS Rio Grande do Sul”, criado ano passado, quando o estado foi também assolado por fortes chuvas, para receber doações que serão direcionadas para dar apoio humanitário às vítimas. Para ajudar, doe pela chave CNPJ 92.958.800/0001-38.

O governador do estado, Eduardo Leite, recentemente informou que o dinheiro doado será utilizado com foco na reconstrução da vida das pessoas afetadas pelas chuvas e enchentes, e não em assistência premente. Caso prefira doar para uma instituição da linha de frente nos resgaste e auxílios imediatos, a Vakinha está realizando o Movimento SOS Enchentes. Outros movimentos confiáveis também estão recebendo doações, como o Cozinhas Solidárias, do MTST, que está oferecendo comida para desabrigados e necessitados. Os Correios estão recebendo doações de insumos (roupas, itens básicos, alimentos etc) para envio sem custo às vítimas. Se preferir, doe para outra instituição de sua confiança.


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Essa resenha foi feita em parte com base nas edições cedidas como material de divulgação para a imprensa pela editora JBC, que disponibilizou todos os dois volumes da obra ao JBox.


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